terça-feira, 2 de junho de 2026

Idosos: Idade é mais que um número; o que de fato acelera o envelhecimento?

 


Enquanto a idade cronológica é contada desde o nascimento, a biológica revela como o organismo realmente está funcionando — e pode ser estimada por diferentes indicadores

Quando pensamos em coisas que fazem alguém parecer e se sentir mais velho, fatores como exposição ao sol, estresse ou tabagismo costumam vir à mente. Mas há algo que talvez você nunca tenha considerado: preocupar-se com o envelhecimento pode deixar marcas no corpo de maneira semelhante.

A ansiedade em relação ao processo de envelhecimento — especialmente o medo do declínio da saúde — pode levar a alterações na forma como os genes funcionam, contribuindo para um envelhecimento acelerado, segundo um estudo com 726 mulheres de meia-idade publicado na edição de fevereiro de 2026 da revista Psychoneuroendocrinology. Mulheres que se sentiam mais ansiosas em relação ao envelhecimento tendiam a apresentar um envelhecimento epigenético mais rápido — ou seja, o corpo parecia mais velho em nível celular, com base na maneira como seus genes eram ativados e desativados.

Esse estudo e outras pesquisas semelhantes ajudam a mostrar que nossa idade é mais do que apenas o número de velas no bolo de aniversário. A idade cronológica, contada a partir do nascimento, é uma delas. Já a idade biológica descreve o quão bem o corpo está funcionando e é estimada por diferentes medidas, como condicionamento físico, pressão arterial e níveis de colesterol.

Como se pode imaginar, os genes influenciam bastante a idade biológica, respondendo por até 50% da velocidade com que envelhecemos, afirma David Sinclair, professor de genética e codiretor do Paul F. Glenn Center for the Biology of Aging Research, da Harvard Medical School. Mas isso significa que a outra metade depende de nós.

“Há uma grande diferença entre sua idade no calendário e sua idade biológica — e apenas esta última pode ser modificada”, diz Sinclair. “Na última década, os cientistas descobriram que as taxas de envelhecimento biológico são maleáveis e que pelo menos metade delas depende do nosso estilo de vida. A boa notícia é que pelo menos metade da nossa saúde futura está em nossas próprias mãos.”

O que causa o envelhecimento?

As pesquisas de Sinclair buscam revelar um fator universal por trás do processo de envelhecimento. Chamada de Teoria da Informação do Envelhecimento, ela se resume, segundo ele, à eficiência com que o corpo interpreta seus genes e mostra que “não somos máquinas — somos computadores, e o envelhecimento acontece pela corrupção do software”.

Alguns fatores que aceleram o envelhecimento — e os sinais visíveis dele — são fáceis de identificar, incluindo:

  • Exposição à luz ultravioleta (UV), que danifica o DNA;
  • Estresse crônico, que aumenta os níveis de cortisol, o “hormônio do estresse”, intensificando a inflamação;
  • Sono ruim, que reduz o tempo de reparo do cérebro e do corpo;
  • Tabagismo, que causa danos ao DNA;
  • Sedentarismo, que leva à perda muscular;
  • Obesidade.

“Há duas maneiras de envelhecer mais rápido. Uma delas é estar em modo de abundância, ou seja, qualquer coisa que faça seu corpo pensar que os tempos estão ótimos, como ficar sentado demais ou comer em excesso”, explica Sinclair. “A outra é danificar as células. Coisas como queimaduras solares aceleram o processo de envelhecimento biológico porque as células não conseguem lidar com isso.”

Outros fatores que podem acelerar o envelhecimento nem sempre são tão lembrados, como:

  • Consumo frequente de álcool;
  • Exposição excessiva à radiação;
  • Poluição do ar e poluentes industriais;
  • Trabalho em turnos, que desregula ritmos biológicos importantes.

Contribuições surpreendentes

Mas os fatores abaixo talvez nunca tenham passado pela sua cabeça.

  • Efeito sanfona

Embora não haja evidências diretas, Sinclair afirma que pesquisas sugerem que mudanças rápidas nas células ou em seu ambiente — como acontece nos ciclos frequentes de ganho e perda de peso conhecidos como efeito sanfona — podem acelerar alterações epigenéticas. “Teoricamente, sempre que há uma grande mudança em uma célula, o envelhecimento acelera um pouco”, diz.

  • Exposição à luz intensa ou música alta

Ambos estão associados ao aumento dos hormônios do estresse e até à sobrecarga cardiovascular. “Luz intensa e música alta são causas subestimadas de envelhecimento sensorial”, afirma Sinclair.

  • Solidão e isolamento social

Pesquisas sugerem que eles oferecem riscos à saúde comparáveis aos do tabagismo. Interagir com familiares e amigos é muito importante para os seres humanos. Somos feitos para viver socialmente.

  • Desequilíbrio da saúde intestinal

Os trilhões de microrganismos que habitam o intestino, conhecidos como microbioma, influenciam os níveis de inflamação e o funcionamento do sistema imunológico. Uma alimentação saudável favorece o microbioma, enquanto alimentos ultraprocessados podem desequilibrar a relação entre bactérias boas e ruins. “A inflamação no corpo acelera o envelhecimento, especialmente quando é crônica”, diz Sinclair.

Como desacelerar o envelhecimento

O que ajuda a retardar o relógio e promover um envelhecimento saudável? Sinclair afirma que muitas pesquisas apoiam medidas como:

  • Prática regular de exercícios físicos;
  • Sono consistente e de boa qualidade;
  • Alimentação baseada majoritariamente em vegetais;
  • Conexões sociais fortes;
  • Visão positiva da vida e senso de propósito.

“Quando você compara pessoas que fazem essas coisas com aquelas que não fazem, às vezes há uma diferença de uma década no envelhecimento biológico”, afirma. “Acredito que pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma grande diferença no futuro. E nunca é tarde para começar, embora seja melhor começar cedo.”

Fonte: Estadão e Maureen Salamon da Harvard Health Publishing (31/05/2026)

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