terça-feira, 2 de junho de 2026

IA e Meu Bolso: IA está virando a consultora dos investidores brasileiros; apps fazem até críticas ao estilo Buffett

 


Ferramentas de inteligência artificial ajudam a analisar carteiras, reduzir impostos e automatizar decisões financeiras; conheça o que está disponível no mercado

A inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina das grandes gestoras brasileiras, que utilizam a tecnologia para acelerar análises e apoiar decisões de investimento. Agora, a IA começa a avançar também sobre o universo dos investidores pessoa física, com ferramentas voltadas à gestão de portfólios.

Em março, o Gorila, fintech especializada em dados de investimento, disponibilizou a sua plataforma de IA para o público geral. Antes, o sistema estava liberado apenas para consultores, assessores e multi family offices. Os profissionais da área precisam pagar pelo serviço, com valores que dependem do tamanho dos portfólios atendidos, mas as pessoas físicas usam a ferramenta de forma gratuita, com limite apenas na quantidade de tokens (unidades de dados processadas por modelos de IA). Por dia, é possível usar 200 mil tokens, que equivalem a 153,8 mil palavras.

Ao acessar a plataforma, o investidor pode inserir os investimentos por conta própria ou sincronizar o seu portfólio por meio de uma integração com a B3. Diferente de outros chats de IA, o Gorila AI não responde com base em carteiras hipotéticas, ela usa as informações que estão na carteira do investidor, considerando exatamente quanto ele tem aplicado em cada tipo de investimento, seja de renda fixa ou de renda variável.

De março para cá, a empresa calcula que 20 mil pessoas físicas já utilizaram a ferramenta. Por meio dela, é possível perguntar sobre as principais notícias que impactaram os investimentos neste ano ou então pedir uma orientação de como pagar menos impostos. O usuário pode questionar ainda se sua carteira está bem posicionada para a sucessão patrimonial ou se seu assessor está fazendo um bom trabalho.

Há espaço até para perguntas mais ousadas, que incluem pedir para a IA criticar a carteira como se fosse Warren Buffett, o “oráculo de Omaha”, tido por muitos como o maior investidor de todos os tempos.

O Gorila tem procurado ampliar as funcionalidades do sistema. Agora, depois que uma pessoa faz uma pergunta, a própria plataforma sugere mais questões relacionadas para incentivar o investidor a entender melhor o assunto. Também há funções automáticas, como a que faz um diagnóstico completo da carteira do usuário. No futuro, a empresa pretende lançar uma opção para gerar o Documento de Arrecadação de Receitas Federais (DARF) para o Imposto de Renda (IR).

Para Guilherme Assis, cofundador e CEO do Gorila, a ferramenta se comporta como uma segunda opinião financeira. Ele entende que a combinação entre tecnologia e dados pode levar para a pessoa física uma experiência que, até então, era restrita às grandes fortunas.

“Hoje, uma família com R$ 500 milhões conta com profissionais dedicados a análises tributárias, cenário macroeconômico, perfil de alocação e estratégia patrimonial. Aos poucos, esse tipo de estrutura começa a chegar também ao investidor comum”, destaca Assis.

Apesar do avanço da tecnologia, ele entende que os profissionais de investimento não vão deixar de existir. “Mas vão precisar se aprimorar para aumentar a escala de clientes que conseguem atender. Os que não fizerem isso vão ficar pelo caminho”, diz.

IA economiza 6 horas de comunicação por dia

Criada por Laio Santos, ex-CEO da Rico, junto com Luis Souza e Heucles Del Bianco, ex-sócios da XP, a Reinvent desenvolveu dois produtos principais: um raio-X financeiro da vida do cliente e o Farmer, um agente de IA que automatiza o trabalho de profissionais de investimentos.

A empresa, que começou com um aporte da gestora Canary, estrutura seus produtos em bancos e agentes autônomos, que, posteriormente, utilizam as ferramentas no relacionamento com investidores pessoa física.

O Farmer escuta reuniões, lê mensagens trocadas por WhatsApp e prepara comunicações personalizadas, enquanto o assessor revisa e aprova. O nome “Farmer” foi inspirado em expressões típicas do mercado financeiro: enquanto o chamado Hunter tem foco na prospecção e conquista de novos clientes, o Farmer atua no aprofundamento do relacionamento com a base já existente.

Segundo Santos, o uso da IA permite ao Hunter economizar cerca de seis horas por dia em tarefas de comunicação. O executivo acredita que o humano não será automatizado ou substituído, mas ampliado pela tecnologia. “Nos espaços em que não há um humano olhando para o cliente, a IA vai ocupar esse papel”, diz.

Na prática, a ferramenta da Reinvent consegue montar mensagens personalizadas combinando informações do cotidiano do investidor com análises financeiras. Se o time de futebol do cliente venceu uma partida e, ao mesmo tempo, há algum ajuste recomendado na carteira, a IA consegue juntar as duas informações em um texto customizado.

A plataforma também busca oferecer uma visão mais holística, ou seja, mais ampla e integrada da vida financeira do cliente. Em uma reunião, por exemplo, a IA consegue identificar mudanças relevantes no perfil do investidor, como alguém que é CLT, está prestes a ter o segundo filho e decidiu empreender. A partir desse contexto, a ferramenta pode sugerir produtos além de investimentos, como seguros.

Análise de ações com IA

Desde 2025, os usuários da Área do Investidor B3 têm acesso a uma ferramenta de análise de empresas de capital aberto baseada em IA, com tecnologia da Bridgewise, startup israelense de inteligência em pesquisa financeira para ativos globais. A funcionalidade está disponível de forma gratuita para todos os investidores que possuem ações listadas na Bolsa de Valores brasileira.

O produto avalia mais de 36 mil ativos, presentes em mais de 110 Bolsas globais, cobrindo aproximadamente 90% das companhias listadas no mundo. A análise considera indicadores financeiros e fornece pontuações para as empresas, que resultam em recomendações de “Compra Forte”, “Comprar”, “Manter”, “Reduzir Posição” ou “Vender”.

Os relatórios são atualizados duas vezes ao dia e revisados em até 48 horas após a divulgação de resultados financeiros das empresas. Na primeira fase de uso, a ferramenta disponibiliza informações para os dois ativos mais relevantes da carteira do investidor, seja para as ações nacionais ou para as internacionais listadas na B3.

Ao entrar na plataforma, o usuário já visualiza os dois papéis disponíveis para análise. Basta selecionar o ativo desejado para acessar um painel com o gráfico de desempenho da ação, a recomendação do que fazer com ela, um resumo dos resultados da empresa e, em seguida, uma listagem dos principais indicadores financeiros, com sinalizações sobre quais estão fortes ou fracos.


Plataforma de análise de ações da B3 em parceria com a Bridgewise 

IA entra nos “bancões”

O Itaú (ITUB4) tem disponibilizado gradualmente desde agosto de 2025 um agente de investimentos baseado em IA para auxiliar clientes que ainda não contam com assessoria especializada na tomada de decisões. A plataforma começou a ser implementada com investidores dos segmentos Uniclass e Personnalité, com patrimônio investido entre R$ 50 e R$ 300 mil.

Com foco conversacional, a ferramenta foi desenvolvida para responder dúvidas dos investidores e recomendar produtos alinhados ao perfil de risco de cada cliente. Inicialmente, a solução abrange fundos de investimento e Certificados de Depósito Bancário (CDBs), permitindo que aplicações em renda fixa sejam feitas diretamente pelo chat.

No começo de maio de 2026, foi a vez do Inter implementar a Seven, assistente de IA que atua de forma transacional e já oferece ações como reinvestimento de valores com resgate automático e análises de extrato e fatura, além de um serviço de concierge de consórcio.

A liberação da Seven para a base de clientes será feita de forma gradativa. O Inter prevê uma ampliação das capacidades da ferramenta, com funções como contratação de crédito, gestão de investimentos e uso do programa de pontos. A ideia é que, no futuro, a plataforma se antecipe às decisões do usuário, lembrando o investidor de um aporte recorrente para a aposentadoria no início do mês, por exemplo.

Também em maio, o BTG Pactual (BPAC11) lançou o Minhas Finanças, um assistente financeiro pessoal que analisa o comportamento financeiro do cliente nos últimos meses e gera previsões automáticas de gastos, antecipando tendências de consumo. Por meio da integração com o Open Finance, o investidor consegue consolidar em um único ambiente as contas de outras instituições conectadas. Além disso, é possível categorizar despesas, comparar o desempenho financeiro por período e acompanhar o limite de gastos para o mês.

Mais recentemente, o C6 Bank ampliou as funções do C6 Assistant, a inteligência artificial integrada ao aplicativo do banco. Agora, os usuários podem “conversar” com a fatura do cartão de crédito e com a conta corrente para entender melhor as despesas e hábitos de consumo. É possível, por exemplo, solicitar um levantamento dos gastos com delivery de comida nos últimos meses. O C6 Assistant também encontra produtos de investimentos, tira dúvidas sobre eles e inicia aplicações.

Muito antes da atual corrida dos bancos por novas ferramentas, desde 2018, o Bradesco (BBDC4) já disponibilizava ao público a BIA. A assistente virtual, integrada ao aplicativo do banco e ao WhatsApp, é capaz de realizar tarefas como responder dúvidas sobre investimentos, informar a cotação do dólar, consultar saldo e executar transações financeiras.

Um longo caminho pela frente

Apesar do avanço das plataformas bancárias, um estudo divulgado pelo Google Cloud na última quinta-feira (28) mostra que ainda há desafios na evolução das soluções de IA. Os chatbots e assistentes digitais melhoraram nos últimos anos, mas ainda enfrentam dificuldades para interpretar perguntas mais longas dos clientes.

Outro ponto de atenção está na personalização dos serviços com IA, que ainda não acompanha o potencial da tecnologia nem o volume de dados disponíveis. Para os responsáveis pelo estudo, esse é um dos gargalos do setor, mas também uma das maiores oportunidades: quem sair na frente tende a se tornar a principal escolha do cliente na gestão da sua vida financeira.

Fonte: Estadão (01/06/2026)

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