terça-feira, 4 de agosto de 2026

TIC: 28 anos desde o leilão do século, a privatização do Sistema Brasileiro de Telecom (SBT), que ajudou a colocar o celular no bolso de cada brasileiro (Parte 2)

 


Como o maior leilão do Brasil foi organizado

A preparação para a venda exigiu reorganização societária, avaliações financeiras, definição de preços mínimos, separação de ativos e elaboração de contratos. O Sistema Telebrás foi dividido em 12 holdings: três de telefonia fixa regional, uma de longa distância e oito de telefonia celular.

Na telefonia fixa, a Telesp Participações ficou com o Estado de São Paulo; a Tele Centro Sul reuniu operadoras das regiões Sul e Centro-Oeste e de parte do Norte; e a Tele Norte Leste concentrou empresas do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Espírito Santo e de parte da Região Norte.

A Embratel permaneceu como empresa nacional de longa distância. As operações celulares, por sua vez, foram separadas em oito companhias regionais, permitindo que investidores adquirissem os negócios móveis independentemente das redes fixas.

O governo colocou à venda o bloco de ações que lhe assegurava o controle das empresas, e não a totalidade de seu capital. Como muitas das companhias já possuíam ações negociadas, os compradores assumiram o comando societário por meio das participações controladoras da União.

Os leilões foram realizados sucessivamente. A disputa começou pelas empresas de telefonia fixa e longa distância e avançou para as companhias celulares. O desenho reduzia o risco de que um mesmo grupo adquirisse ativos incompatíveis com as regras de concentração estabelecidas para cada região.

Os 12 lotes do leilão da Telebrás






Os maiores ágios ocorreram justamente nas empresas celulares. A Tele Leste Celular foi vendida por valor 242,4% superior ao mínimo; a Telemig Celular, por 228,7%; e a Telesp Celular, por 226,18%.

A intensidade das ofertas mostrava onde os investidores esperavam encontrar o maior crescimento. As redes fixas possuíam ativos consolidados e receitas relativamente previsíveis, mas exigiam investimentos elevados e estavam sujeitas a obrigações de universalização. A telefonia móvel, ainda pequena, oferecia potencial de expansão muito superior.

O mercado antecipava que o futuro das comunicações não estaria no telefone instalado na parede, mas em aparelhos pessoais capazes de acompanhar o usuário.

Por que o celular atual deve tanto ao leilão

A relação entre o leilão e o celular de hoje não é apenas simbólica. A privatização alterou os incentivos econômicos que determinavam a velocidade de implantação das redes.

Sob o antigo sistema, a expansão precisava competir com outras prioridades do orçamento público. Depois da venda, os controladores tinham interesse direto em ampliar rapidamente o número de clientes, porque cada novo assinante gerava receita recorrente e aumentava o valor do negócio.

As operadoras passaram a investir em torres, centrais digitais, sistemas de faturamento, lojas, publicidade e subsídios a aparelhos. A competição obrigou as empresas a disputar cobertura, preço e canais de distribuição.

O plano pré-pago foi decisivo. Ele permitiu que pessoas sem conta bancária, comprovante de renda ou capacidade de assumir mensalidades controlassem o próprio gasto. A recarga transformou o telefone móvel em produto acessível a trabalhadores informais, jovens e famílias de renda mais baixa.

A separação das empresas celulares também facilitou a entrada de capital especializado. Um investidor interessado no crescimento da telefonia móvel não precisava adquirir, junto com ela, uma extensa rede fixa submetida a obrigações regulatórias distintas.

Ao mesmo tempo, a venda ocorreu durante a transição mundial das redes analógicas para as tecnologias digitais. Equipamentos tornaram-se mais eficientes, a capacidade das redes aumentou e o custo médio por usuário caiu.

O leilão, portanto, funcionou como acelerador de uma transformação tecnológica que ocorria internacionalmente. Sem o avanço mundial dos equipamentos e dos padrões digitais, a mudança de controle não teria produzido sozinha a massificação. Sem a reorganização regulatória e financeira brasileira, porém, a adoção provavelmente teria ocorrido de forma mais lenta e sujeita às limitações fiscais do Estado.

A conclusão mais defensável é que a privatização não criou a telefonia móvel, mas criou as condições institucionais e econômicas para que ela deixasse de ser um serviço de elite e alcançasse dezenas de milhões de brasileiros em poucos anos.

De 7,5 milhões para 35 milhões de celulares

Em 1998, o Brasil possuía aproximadamente 7,5 milhões de acessos celulares. Em 2002, apenas quatro anos depois, o número estava próximo de 35 milhões.

No mesmo período, os terminais fixos instalados passaram de cerca de 20 milhões para quase 50 milhões. A expansão permitiu ao país superar antecipadamente parte das metas de universalização estabelecidas para as concessionárias.

A telefonia fixa viveu inicialmente uma forte expansão porque as empresas precisavam cumprir obrigações contratuais. Milhões de linhas foram instaladas, inclusive em localidades onde a demanda havia permanecido reprimida durante anos.

O problema foi que a expansão coincidiu com a rápida substituição do telefone fixo pelo celular. Muitas famílias que aguardavam uma linha passaram diretamente para a comunicação móvel. Com o tempo, parte da infraestrutura fixa construída durante o primeiro ciclo perdeu utilização e valor econômico.

A quantidade de linhas fixas em serviço atingiria seu ponto máximo anos depois e começaria a cair com a disseminação dos smartphones, dos aplicativos de mensagens e das chamadas realizadas pela internet.

O celular seguiu o caminho oposto. Passou de instrumento de voz para terminal de dados. Incorporou câmera, mensagens, localização, acesso bancário, entretenimento, comércio e serviços públicos.

A expansão da telefonia móvel foi a infraestrutura silenciosa sobre a qual se desenvolveram atividades que não existiam em 1998. Bancos digitais, aplicativos de transporte, entregas sob demanda, comércio eletrônico móvel, redes sociais e pagamentos instantâneos dependem de redes cuja construção ganhou escala após a privatização.

Não significa que cada inovação posterior tenha sido causada pelo leilão. Significa que a disponibilidade massiva de conectividade móvel criou a base sobre a qual essas empresas e serviços puderam crescer.

Fonte: Gazeta Mercantil (29/07/2026)

Nota da Redação: A evolução do artigo segue amanhã, com a parte 3.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Este blog não se responsabiliza pelos comentários emitidos pelos leitores, mesmo anônimos, e DESTACAMOS que os IPs de origem dos possíveis comentários OFENSIVOS ficam disponíveis nos servidores do Google/ Blogger para eventuais demandas judiciais ou policiais".