Na hora do vamos ver investidor pode ficar em dúvida entre o que já conhece e o título público criado pelo Tesouro Direto
Aproximadamente 18% dos brasileiros já deram início à construção de um patrimônio focado na aposentadoria. Contudo, uma fatia de 58% da população ainda manifesta o desejo de começar esse processo.
As estatísticas, extraídas do relatório Raio-X do Investidor da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), revelam que existe disposição para poupar, mas a maior parcela das pessoas ainda precisa de planejamento para assegurar uma estabilidade financeira na fase da aposentadoria.
“Poupar para o futuro não é simples, e as pessoas esperam sobrar o dinheiro para aplicar, mas é preciso inverter e colocar esse investimento antes. É preciso entender que isso é uma prioridade, e abrir espaço no orçamento presente para você no futuro”, afirma Marcia Dessen, planejadora financeira CFP certificada pela Planejar.
Para quem ainda pretende dar o primeiro passo, é provável que já tenha se questionado sobre quais ativos escolher para a previdência.
Um dos caminhos mais tradicionais é o modelo de previdência privada. Entretanto, nos últimos anos, uma alternativa se consolidou no mercado e ganha cada vez mais tração: o Tesouro Renda+, um ativo público estruturado especificamente para gerar um fluxo de caixa complementar na velhice.
Como funciona o Tesouro RendA+?
O Tesouro Renda+ foi concebido para simplificar o ato de guardar dinheiro para o longo prazo. É um título de dívida pública corrigido pela inflação e que soma uma taxa de juros real prefixada anualmente. Em 2026, com a taxa Selic em 14,75%, esse título oferece retornos considerados expressivos, com vencimentos disponíveis atualmente entre 2030 e 2065 (com intervalos de cinco anos).
“É um título é atrelado ao IPCA, e devolve o investimento parcelado garantindo o poder de compra do investidor após o período de acumulação”, explica Paula Sauer, economista e planejadora financeira CFP e Coordenadora do Laboratório de Finanças Pessoais na ESPM.
A premissa é que o poupador realize depósitos constantes ao longo de sua trajetória em um título cujo vencimento coincida com a data planejada para parar de trabalhar. Ao atingir essa data, o investidor passa a usufruir de um recebimento mensal por um período de 20 anos (240 meses). O montante dessa renda estará diretamente ligado ao volume total de recursos acumulados naquele ativo específico até a data final.
Embora possa parecer complexo, um diferencial relevante, conforme aponta Dessen, é a existência do simulador do Tesouro Direto. Na ferramenta, é possível inserir dados como idade, expectativa de aposentadoria, valor mensal desejado e capital inicial disponível. Com esses parâmetros, o sistema indica automaticamente o título ideal e o aporte mensal necessário para concretizar a meta.
Para ilustrar: uma pessoa com 35 anos que quer se aposentar aos 65 com uma retirada de R$ 3 mil mensais e partindo do zero, precisaria destinar cerca de R$ 190,28 todos os meses para atingir seu objetivo, conforme as projeções atuais.
Mantendo essa disciplina, a partir do ano de 2055, esse investidor passaria a usufruir de um pagamento de R$ 3 mil (devidamente atualizados pela inflação), até o ano de 2074.
Em outro cenário, um jovem de 30 anos que quer se aposentar aos 65 anos com um rendimento de R$ 1 mil precisaria poupar R$ 43,19 mensalmente, iniciando os recebimentos no ano de 2060.
Essa disparidade entre o aporte mensal e o benefício futuro é viabilizada pelo extenso horizonte de tempo e pelo efeito dos juros compostos, ressalta a especialista. Quanto mais precoce for o início dos investimentos, menor será o desembolso necessário para atingir o padrão de vida almejado.
“Acho que pouco gente ainda aderiu, primeiro porque as pessoas não se dão conta da necessidade de pensar no futuro, que é preciso preparar o terreno para quando não puder ou não quiser trabalhar”, analisa Dessen. “Segundo, as pessoas acham que não têm dinheiro, pensam que se mal dão conta de pagar as contas do presente, não conseguirão poupar para o futuro”.
Dentre os atrativos, a planejadora menciona a isenção da taxa de custódia para este título no Tesouro Direto, “desde que o investidor leve o título até o vencimento e a renda não seja superior a 6 salários mínimos”, detalha. “Um plano de previdência tem taxas que, ainda que sejam baixas, não são desprezíveis”, pondera. Contudo, vale lembrar que os ganhos estão sujeitos à tributação, seguindo a lógica da renda fixa.
Paula Sauer faz um alerta importante: caso o poupador decida pelo resgate antes do prazo pactuado, especificamente antes do período de conversão em renda, ele perde o benefício da isenção da taxa de custódia.
Como funciona a previdência privada?
Para a economista Paula Sauer, o ponto de maior divergência entre as opções está na esfera fiscal. “Ao contratar um PGBL, o investidor conta com o benefício fiscal de até 12% da renda bruta do que for investido em PGBL, o que não acontece no Renda+”, pontua.
Isso ocorre pois quem escolhe o modelo PGBL pode abater da base de cálculo do Imposto de Renda os aportes feitos durante a fase de acumulação, respeitando o teto de 12% da receita bruta anual. Por outro lado, no ato do usufruto ou resgate, o imposto incidirá sobre a totalidade do valor (capital investido mais os rendimentos).
Enquanto no Tesouro Renda+ a menor tributação de IR é de 15% sobre o lucro, os planos previdenciários podem atingir uma alíquota mínima de 10% (no regime regressivo) ou até a isenção total (no regime progressivo).
A lógica é a seguinte: no modelo regressivo, a alíquota decresce conforme o tempo de permanência. Resgates em até dois anos sofrem a tributação máxima de 35%. Esse percentual reduz 5 pontos a cada biênio, chegando ao piso de 10% para recursos aplicados por mais de uma década.
No regime progressivo, por sua vez, o que dita o imposto é o valor mensal retirado, seguindo a tabela padrão de rendas do IR, com alíquotas que variam entre a isenção total (0%) e o teto de 27,5%.
Outro fator determinante é que o plano de previdência (PGBL/VGBL), no evento de morte do titular, é transmitido aos beneficiários sem a necessidade de inventário, o que garante rapidez no acesso ao dinheiro. “Já o Renda+ entra em inventário e posteriormente disponibilizado aos herdeiros legais”, esclarece Sauer.
Renda+ ou previdência privada?
Marcia Dessen sustenta que não há obrigatoriedade de exclusividade entre os métodos de poupança. “A ideia não é que o Renda+ seja a única poupança que você tem. Você pode ou comprar dois investimentos, ou ter outro produto previdenciário, mesclando um com objetivo de renda, como o título do tesouro, com outro que não entra no inventário e é pago diretamente aos herdeiros no caso da sua falta”, sugere.
Paula Sauer reforça que a diversidade da carteira é salutar para a aposentadoria. “Se o objetivo aqui é manter o poder de compra, o Renda+ é um bom produto, mas pensando em liquidez e rentabilidade, o ideal será uma carteira mais diversificada, com prazos e objetivos que conversem com o ciclo de vida do investidor, as mudanças ao longo da vida e cenário econômico”, conclui.
Fonte: Valor Investe (05/05/2026)
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