sexta-feira, 12 de junho de 2026

Pré Aposentadoria: Planejamento de aposentadoria exige autocontrole

 


Investimentos não têm o condão de criar uma riqueza extraordinária, é ilusão achar que as taxas de remuneração de longo prazo são a solução para fechar o gap entre receitas e despesas na aposentadoria

Hoje escreverei um pouco sobre planejamento de aposentadoria, tema a que tenho dedicado algum tempo. Como faço parte do grupo dos 60+ e milito com finanças há muitos anos (na verdade trabalho com investimentos e mercado financeiro desde que saí da faculdade), muitas pessoas me procuram para conversar sobre planejamento de investimentos para aposentadoria.

Já entregando um pouco da mensagem do artigo, para estas pessoas começo minha resposta com duas perguntas: a primeira é quando foi iniciado o planejamento para aposentadoria e a segunda é se ela considera que os investimentos resolverão seus problemas de renda no futuro.

A melhor resposta para a primeira pergunta é quanto mais cedo melhor. Portanto, se meu interlocutor estiver perto do momento da aposentadoria e tiver começado tarde, tanto pior.

Sobre a segunda pergunta, a resposta é que os investimentos não têm o condão de criar uma riqueza extraordinária, é ilusão achar que as taxas de remuneração de longo prazo são a solução para fechar o gap entre receitas e despesas na aposentadoria. A tal riqueza, ela vem da capacidade de poupar durante anos a fio, ou seja, de ganhar dinheiro com o trabalho e abdicar, por anos, do consumo e poupar. Os juros compostos, dos investimentos, ajudam muito, mas não são os protagonistas da história.

Nesse sentido, os resultados da 9ª edição do Raio-X do Investidor, da Anbima, são desoladores. De acordo com os indicadores da pesquisa, apenas 18% da geração X, acima de 44 anos, e 15% dos boomers, acima de 64 anos, já começaram a constituir uma reserva para a aposentadoria. Para estes grupos, o tempo conta contra.

Juntar dinheiro, fazer a reserva para aposentadoria, é antes de tudo uma questão de disciplina e autocontrole. É muito mais uma questão de pensar no futuro e fazer sacrifício no presente.

Mas é também uma questão de hábito e um exercício de realidade, em que é preciso projetar um padrão de vida futuro compatível com aquilo que se consegue poupar hoje.

Recentemente estive no Rio de Janeiro e como de costume fiquei hospedado na casa de minha sogra. Ela mora em um condomínio com mais de 200 casas, construído há mais de sessenta anos com muitos moradores que lá vivem há pelo menos uns cinquenta anos.

As casas são grandes, a maioria de dois andares, muitas com terraço para festas e garagens para dois ou até três carros, o que era muito quando se leva em consideração os preços dos carros e a renda média brasileira na década de 70.

Estas casas foram construídas na época em que seus moradores estavam em plena atividade no mercado. Trabalhavam em empresas, eram empresários ou profissionais liberais e auferiam uma renda que lhes permitiu educar os filhos, usufruir de um bom padrão de vida e construir suas casas.a realidade é outra. Muitos destes moradores mais antigos, que construíram suas casas há décadas, hoje estão aposentados, alguns fizeram suas reservas e outros dependem exclusivamente do INSS. A mesma pesquisa da ANBIMA, contudo, indica que 93% dos respondentes já aposentados dependem exclusivamente da renda do INSS para o sustento. Ou seja, apenas 7% conseguiram juntar recursos para obter uma renda extra.

Andando pelo condomínio e observando o estado de conservação de algumas casas a realidade não é muito diferente daquela que percebo nas redondezas de onde moro em São Paulo. Muitas das casas onde residem pessoas idosas são grandes e bonitas, mas estão mal conservadas, assim como os carros nas garagens.

Projetar a fase da aposentadoria não é, portanto, apenas um exercício de poupar todo mês para o futuro, mas, também, é um exercício de humildade, de pensar em um padrão de vida futuro condizente com a natural queda de renda.

A equação da aposentadoria não se resume ao lado da receita, ou da renda, é importante pensar em priorizar e reduzir despesas. Casas grandes, por exemplo, tem custo de manutenção alto e não fazem mais sentido quando os filhos já foram morar sozinhos e a família está menor. Adicionalmente, os recursos advindos da venda adicionam valor a reserva e se transformam em renda.

A aposentadoria implica em estimar um padrão de vida desejado e realista e tentar juntar o dinheiro para chegar lá. Nesse cálculo é importante desapegar de gastos que não trazem valor e priorizar aqueles em que se deseja investir o tempo livre, é para estes “potes” que o dinheiro deve ser direcionado.

Fonte: Valor Investe (10/06/2026)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Este blog não se responsabiliza pelos comentários emitidos pelos leitores, mesmo anônimos, e DESTACAMOS que os IPs de origem dos possíveis comentários OFENSIVOS ficam disponíveis nos servidores do Google/ Blogger para eventuais demandas judiciais ou policiais".