quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Idosos: Estudos sobre "orientação espacial" ou ‘GPS do cérebro’ podem trazer respostas sobre as causas do Alzheimer, diz Nobel



Mais de 20 anos após descobrir células ligadas à navegação espacial, o neurocientista Edvard Moser explica de que forma essas pesquisas podem revelar pistas de como se inicia a neurodegeneração


O estudo da região cerebral que permite ao ser humano se localizar no espaço pode ajudar a esclarecer por que a doença de Alzheimer surge e quais mecanismos dão início à neurodegeneração, afirmou, em entrevista ao Pulsa, o neurocientista norueguês Edvard Moser, vencedor do Nobel de Fisiologia e Medicina.

O pesquisador obteve o reconhecimento em 2014, ao lado dos cientistas May-Britt Moser e John O’Keefe, pela descoberta das chamadas células de grade (grid cells). Junto a outros tipos de neurônios, essas células compõem uma espécie de “GPS do cérebro”, capaz de indicar onde estamos e orientar nossos deslocamentos.

Agora, mais de 20 anos depois de descobrir essas estruturas cerebrais, ele aposta no aprofundamento dos estudos dessa região do encéfalo como forma de buscar respostas sobre as causas do Alzheimer. Isso porque, explica Moser, as células de grade ficam em uma área chamada córtex entorrinal, uma das primeiras regiões do cérebro afetadas pela doença e que faz uma espécie de ponte com o hipocampo, uma das áreas responsáveis pela formação de novas memórias.

“Agora que sabemos muito mais sobre essa área do cérebro, talvez também seja mais fácil descobrir o que realmente dá errado e por que a doença começa ali. [...] É um possível caminho para avançarmos na descoberta da causa. E, claro, quando você encontra a causa, o passo seguinte é encontrar a cura”, disse Moser.

O neurocientista, que será um dos palestrantes do Rio Innovation Week, festival de inovação que começa nesta terça-feira, 4, e vai até o próximo dia 7, no Rio, destacou ainda a importância dessa área na formação de memórias. “As memórias são integradas à nossa noção de localização”, explicou.

Embora reconheça que a descoberta de tratamentos eficazes ou de uma cura para o Alzheimer seja algo desafiador, ele afirmou que este “é um momento de esperança” por conta da ampliação das linhas de pesquisa sobre a doença.

Na entrevista, Moser também falou sobre os efeitos do envelhecimento no sistema de navegação cerebral e sobre os impactos do uso de tecnologias como GPS e ferramentas de inteligência artificial generativa no cérebro. Para ele, a tecnologia deve servir para desenvolver o pensamento, e não para substituí-lo. Leia abaixo os principais trechos da conversa.

Mais de 20 anos após a descoberta das células de grade (grid cells), qual foi a mudança mais importante na forma como o sr. entende a função delas?

Muita coisa aconteceu desde que descobrimos as células de grade. Elas foram descobertas em 2005, e ganhamos o Prêmio Nobel em 2014. Naquela época, quando começamos a registrar atividade nesta área do cérebro, chamada córtex entorrinal, ela era muito pouco estudada. As pessoas praticamente não sabiam nada sobre essa região, mas nós sabíamos que ela se conectava a outra área, o hipocampo, onde as células de lugar (place cells) haviam sido descobertas 30 anos antes. Essa região conecta o hipocampo ao resto do cérebro, então era um local natural para procurar algo que pudesse fazer parte de um mapa interno ou de um sistema de navegação.

Então encontramos as células de grade, que ficam ativas apenas quando ratos, camundongos ou humanos estão em determinados lugares, e esses lugares onde cada célula é ativada formam um padrão hexagonal muito regular. Assim, cada célula parecia funcionar como um sistema de coordenadas que poderia ser usado para medir onde estamos no ambiente.

Uma grande mudança desde que recebemos o Nobel é que, nos primeiros anos, tudo o que podíamos fazer era registrar essencialmente uma célula por vez e descrever suas propriedades, como essa característica de se ativar apenas em certos locais. Hoje, conseguimos registrar a atividade de milhares de células ao mesmo tempo. Isso nos permite observar as interações entre elas, como trabalham juntas como um sistema para criar uma sensação interna de onde estamos e para onde estamos indo.

O que vemos é que o cérebro possui mapas internos do espaço, de modo que a atividade cerebral se desloca entre as células de uma forma que espelha como nos movemos no ambiente. Você pode imaginar um “aglomerado” de atividade em uma rede de células, e esse aglomerado se move de forma correspondente ao nosso movimento. Se seguimos em frente, esse aglomerado também avança. Se viramos à direita, ele também vira à direita. Ele percorre esse mapa em relação aos nossos movimentos no espaço físico.

É nisso que temos nos concentrado: entender como o cérebro pode formar seu próprio mapa. E vemos que esse mapa existe mesmo sem entrada sensorial externa. Ele é gerado pelo próprio cérebro. Não é construído apenas a partir da combinação de informações sensoriais vindas dos olhos, ouvidos ou nariz.

Quais são as questões ainda sem resposta sobre esse sistema e os principais focos de pesquisa do seu grupo?

Acho que nosso principal interesse é entender o que chamamos de computação cerebral. Isso significa compreender como muitas células trabalham juntas para calcular a posição, mas também possíveis caminhos futuros — para onde podemos ir e para onde não devemos ir — e como esses caminhos possíveis se relacionam com nossas memórias. As memórias são integradas à nossa noção de localização. Usamos isso como uma porta de entrada para entender a computação cerebral de forma mais fundamental.

Acho que nosso principal interesse é compreender como muitas células trabalham juntas para calcular a posição, mas também possíveis caminhos futuros e como esses caminhos possíveis se relacionam com nossas memórias. - Edvard Moser, neurocientista norueguês e ganhador do Nobel

Há uma razão para usar o sistema de navegação: ele é muito antigo na evolução das espécies. Ele surgiu muito cedo, porque mesmo as moscas possuem funções para orientação. Isso acontece porque você não sobreviveria se não fosse capaz de encontrar seu caminho. Esse sistema evoluiu muito cedo, mas em vertebrados e mamíferos ele continuou a evoluir e se tornou muito mais sofisticado.

Isso significa que podemos usar espécies simples e sistemas nervosos simples para estudá-los, e esses princípios ainda se aplicam, em grande parte, tanto à navegação humana quanto a muitas outras funções do cérebro.

Esses princípios podem não se aplicar apenas ao espaço, mas também ao planejamento, ao pensamento abstrato, à tomada de decisões ou à imaginação. Tudo isso pode se basear nesses elementos simples que evoluíram muito cedo para a navegação. É por isso que usamos a navegação como forma de entender funções cognitivas de maneira mais ampla.

Às vezes dizemos que algumas pessoas têm melhor senso de direção do que outras. É possível treinar o senso de direção?

Sim, absolutamente. Antes de tudo, eu diria que todos nós já somos bastante bons nisso, porque, com exceção de algumas doenças como o Alzheimer, todo mundo consegue se orientar, por exemplo, dentro de casa ou no bairro. Fazemos isso o tempo todo sem nos perdermos. Conseguimos voltar para a porta de casa ou sair da casa de um vizinho sem problema.

Mas, claro, tudo pode ser treinado, e você pode melhorar. Isso também se aplica ao senso de orientação. Um exemplo clássico são os taxistas de Londres. Eles foram estudados especificamente porque, como parte do treinamento, precisavam aprender todas as ruas e também encontrar o caminho mais eficiente entre dois pontos. Na época, foi demonstrado que esses taxistas tinham áreas cerebrais maiores nas regiões importantes para navegação. Isso ilustra que, ao treinar e praticar algo, você melhora. Embora a maioria de nós já seja muito boa nisso sem treinamento, porque é algo muito natural.

É ruim é para o cérebro dependermos tanto de tecnologias como o GPS? Isso pode tornar algumas áreas do cérebro menos ativas ou diminuir nossas habilidades em algumas tarefas?

Você fica bom naquilo que treina. Se você pratica navegação de forma natural, fica muito bom nisso. Se você navega apenas com ajuda digital, fica bom em seguir instruções, como virar à esquerda ou à direita quando mandado. Mas isso é uma forma muito menos sofisticada de navegação.

Então, eu não diria que perdemos a capacidade de nos orientar, porque fazemos isso o tempo todo em pequena escala, quase sem perceber. Mas podemos perder ou não desenvolver tanto a habilidade de nos orientar em trajetos mais longos, onde é preciso pensar e planejar para ir de A a B.

O envelhecimento altera esse mapa espacial do cérebro? Há algo que possamos fazer para preservar essa capacidade por mais tempo?

O cérebro muda com o envelhecimento, mas as funções cognitivas intelectuais costumam ser bem preservadas até o fim. Isso inclui saber onde você está, a menos que você desenvolva alguma doença, especialmente o Alzheimer, porque ele afeta justamente essas áreas cerebrais que estudamos, que são importantes tanto para saber onde você está quanto para formar memórias.

Muitas memórias são construídas em torno da noção de posição. Você usa sua própria localização como uma espécie de estrutura onde organiza as memórias. Então, a localização faz parte da maioria das memórias. Quando essas áreas cerebrais são afetadas, isso afeta não apenas a navegação, mas também a memória. Como todos sabemos, esse é um sintoma clássico do Alzheimer. Mas também há estudos mostrando que, em idades muito avançadas, esse sistema começa a se deteriorar.

É muito difícil saber até que ponto isso acontece por causa de alguma doença ou se faz parte do envelhecimento normal. Mas, de qualquer forma, o que podemos fazer é manter nosso cérebro saudável, o que, em grande medida, é o mesmo que manter o corpo saudável. Então, ter uma alimentação saudável e uma quantidade adequada de exercício ou movimento, manter-se ativo, interagir com outras pessoas são coisas saudáveis. Também é importante buscar variedade de informações.

São todas essas coisas óbvias que, em grande medida, são importantes para o corpo inteiro, mas que também são importantes para o cérebro. E, se o seu corpo estiver saudável, na maioria dos casos o seu cérebro também permanecerá saudável.

Se a localização é importante para criarmos memórias, podemos dizer que, quando treinamos nosso sistema de navegação ou quando cuidamos dessas áreas, mesmo sem saber exatamente que estamos fazendo isso, conseguimos de alguma forma prevenir a demência ou o declínio cognitivo?

Sim. Acho que eu não diria que isso é algo específico de treinar o nosso sistema de navegação, mas usar o cérebro tanto para armazenar informações quanto para aprender sobre as coisas e manter a curiosidade, tudo isso ajuda. E, claro, isso não é tudo o que importa, porque também existem fatores genéticos que contribuem para o Alzheimer e sobre os quais não podemos fazer muita coisa. Mas é possível reduzir os fatores de risco e, assim, reduzir a probabilidade de desenvolver Alzheimer.

Na sua visão, por que ainda não conseguimos descobrir tratamentos eficazes para o Alzheimer?

É uma doença complicada. Acho que parte da razão é que provavelmente existem múltiplas causas. Não há uma única causa. Portanto, existem muitas maneiras pelas quais esse processo da doença pode começar. Mas acho que este é um momento de esperança, porque houve uma época em que tudo estava concentrado em uma hipótese específica sobre como isso poderia acontecer e, de certa forma, podemos considerar que ela acabou sendo parcialmente um beco sem saída.

Agora as pessoas já saíram disso e acho que, com múltiplas abordagens, chegaremos lá. Muitas vezes, são necessárias várias décadas até que se encontre o tratamento para uma doença, mas ele acabará chegando. O mesmo aconteceu com muitos tipos de câncer. Você pode ver que a situação hoje é muito diferente do que era há 50 anos.

Acho que o mesmo acontecerá com o Alzheimer, mas a única maneira de chegarmos lá é investindo em ciência.

Muitas memórias são construídas em torno da noção de posição. Você usa sua própria localização como uma espécie de estrutura onde organiza as memórias. Quando essas áreas cerebrais são afetadas, isso afeta não apenas a navegação, mas também a memória.- Edvard Moser, neurocientista norueguês e ganhador do Nobel

Imagino que quando o sr. diz que, durante muito tempo, fizemos a maior parte das pesquisas sobre Alzheimer com base em uma única hipótese, está se referindo à teoria do acúmulo de proteína beta-amiloide. Quais são as outras hipóteses que estão surgindo e qual te deixa mais otimista?

Eu não destacaria uma especificamente, mas, da minha parte, tenho muito interesse na relação com a área cerebral que estudo, chamada córtex entorrinal, onde ficam as células de grade e que também faz parte do sistema de memória. Porque a doença começa muito cedo ali.

O córtex entorrinal, juntamente com algumas outras pequenas regiões, está entre os primeiros lugares onde é possível observar a neurodegeneração. E acho que agora, que sabemos muito mais sobre essa área do cérebro, talvez também seja mais fácil descobrir o que realmente dá errado e por que a doença começa ali. Isso é só uma parte do quebra-cabeça, mas é um possível caminho para avançarmos na descoberta da causa. E, claro, quando você encontra a causa, o passo seguinte é encontrar a cura.

Estamos vendo agora muitas ferramentas de inteligência artificial generativa. Quais seriam os principais impactos para o nosso cérebro se dependermos demais desse tipo de ferramenta em tarefas como escrever textos ou outras atividades que exigem nossa criatividade? Essa dependência excessiva te preocupa?

Sim, acho que é uma questão importante. Ainda é cedo demais para responder com base em pesquisas, porque tudo isso está acontecendo muito rapidamente. Mas acho importante garantir que usemos a IA de uma forma produtiva, o que é possível se ela for utilizada como uma ferramenta para desenvolver o pensamento, e não para substituir o pensamento.

Precisamos ser um pouco críticos, mas também usá-la para aquilo em que ela é boa, ou seja, obter informações, estruturar informações de maneira lógica e encontrar soluções e sugestões nas quais talvez nós mesmos não tivéssemos conseguido pensar. Mas isso não significa que devemos deixar de pensar por conta própria.

Temos toda uma história de vida acumulando informações e conhecimentos, e isso continua sendo muito valioso. Isso deve ser equilibrado com aquilo que tentamos obter das máquinas, que é algo de natureza diferente.

Fonte: Estadão / Pulsa (04/08/2026)

Nota da Redação: O neurocientista Edvard Moser, Nobel de Fisiologia e Medicina, pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia sugere que o estudo das células de grade no córtex entorrinal pode esclarecer as causas do Alzheimer. Essa área, crucial para a navegação e memória, é uma das primeiras afetadas pela doença. 

Moser, que falará no Rio Innovation Week, destaca a importância de pesquisas diversificadas para encontrar tratamentos eficazes. Ele alerta sobre o uso excessivo de tecnologias como GPS, que podem impactar a capacidade cerebral de navegação e memória.

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