Reclamações avançaram pelo sexto mês consecutivo; Hapvida teve piora de 42%, enquanto SulAmérica registrou o maior índice entre as operadoras cobertas pelo banco, segundo relatório
Os brasileiros que pagam por plano de saúde nunca viram as reclamações do setor acelerarem tão rápido quanto em agosto, segundo o JPMorgan.
Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, as queixas vêm crescendo desde março e completaram em agosto a sexta alta consecutiva.
Em agosto, o ritmo bateu recorde: o número de reclamações foi 26% maior que no mesmo mês de 2025. O JPMorgan acompanha essa insatisfação pelo IGR (Índice Geral de Reclamações), indicador da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) que contabiliza as queixas a cada 100 mil beneficiários.
Segundo a ANS, cerca de 53 milhões de pessoas tinham plano em julho, o equivalente a 24,7% da população.
Outros 161 milhões, considerando a estimativa de 214,2 milhões de habitantes do IBGE para 2026, não têm essa cobertura e dependem em sua maioria do SUS.
Mesmo pequena, essa base cresce: o IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) contabilizou 52,5 milhões de beneficiários em 2025, alta de 11,8% sobre 2019.
Dentro desse mercado, a proteção regulatória não é igual para todos. Só os 8,45 milhões de beneficiários com plano individual têm teto de reajuste fixado pela ANS, de 5,11% para 2026.
Os outros 44,49 milhões estão em planos coletivos, negociados livremente entre operadora e empresa ou associação contratante, com reajuste médio de 10,76% em 2025, segundo o painel oficial da agência, o dobro do limite dos planos individuais.
Desempenho por empresa
O JPMorgan cobre em bolsa três operadoras de saúde: Hapvida (HAPV3), uma das maiores do país em número de beneficiários; Rede D’Or (RDOR3), dona de uma das maiores redes hospitalares privadas do Brasil; e Bradesco Saúde, braço de seguros de saúde do banco Bradesco (BBDC4).
É justamente nesse grupo que a alta de reclamações mais acelera, e em agosto o índice do setor somou 60,2 pontos.
A Hapvida, única com recomendação neutra do banco para suas ações, tem o sinal mais forte de piora: na marca original do grupo, com 51% dos clientes, o IGR subiu 42% no ano, para 51,0.
A NotreDame Intermédica, marca comprada pela Hapvida e mais forte em São Paulo, sobe 24% no mês, mas desacelera para 16% na média trimestral, divergência que o banco lê como sinal de problema mais estrutural na marca original.
A Rede D’Or, recomendada para compra, tem na SulAmérica sua operação de seguros de saúde. Ali está o maior IGR entre os três nomes cobertos pelo JPMorgan, de 101,1, mesmo com a menor alta do grupo, de 11%.
No segundo trimestre, a XP revisou para baixo a sinistralidade de longo prazo que projeta para a SulAmérica, para 77%, depois de um resultado operacional forte, segundo relatório do analista Gustavo Tiseo.
Fora da cobertura formal do banco, o relatório soma, como referência, a Athena Saúde, consolidadora regional de operadoras controlada pelo fundo Pátria Investimentos e dona de nomes como a SAMP, no Espírito Santo, e a Unihosp, no Maranhão. É o grupo com a pior alta entre todos os citados, de 74%. Já a Amil, sem ações em bolsa, teve a menor alta do levantamento, de 10%.
Apesar da piora generalizada, o JPMorgan mantém recomendação de compra para as ações da Rede D’Or e Bradesco Saúde e neutra para Hapvida, e diz que a métrica de reclamações, isoladamente, não muda recomendação.
A Porto Saúde, operadora do Grupo Porto (PSSA3), e o sistema Unimed, formado por cooperativas independentes sem uma operadora única consolidada, não constam no relatório do JPMorgan.
Operadoras: poucas queixas diante do volume
As duas associações que representam o setor têm um discurso parecido diante desses números: o volume de queixas é pequeno diante do total de atendimentos.
A Hapvida está filiada à Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), federação de operadoras de medicina de grupo. A Bradesco Saúde e a SulAmérica integram a FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), que reúne as seguradoras.
Procuradas, as associações não responderam de imediato ao pedido de comentário sobre o relatório do banco.
Representantes das entidades atribuem geralmente a pressão sobre o atendimento a fatores estruturais de custo, como envelhecimento da população, inflação médica, maior uso dos serviços e judicialização. Em 2025, 45% das operadoras médico-hospitalares fecharam no prejuízo.
Esse cenário de custo convive com um mercado já desigual no acesso: a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra o Norte e o Nordeste com quase 90% da população sem plano médico privado, contra parcelas bem menores no Sudeste e no Sul.
Fonte: Bloomberg (11/09/2026)
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