Para Previc, Selic em patamar elevado levou aplicações em renda fixa das fundações a 80%, enquanto investimentos em ações alcançam somente 7,8%
A elevada taxa básica de juros (Selic) no país vem contribuindo para a concentração cada vez maior dos investimentos de fundos de pensão em títulos públicos federais. No fim do ano passado, esses investimentos representavam 69,3% do total, ante 42,7% em 2010. Neste mesmo período, as aplicações em ações recuaram de 32,9% para 7,8%. Os números são da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), órgão vinculado ao Ministério da Previdência Social e responsável por supervisionar e fiscalizar as entidades fechadas de previdência complementar. Esse comportamento está diretamente ligado à evolução da taxa Selic, que saiu de 10,75% em 2010 para 15% ao ano no fim de 2025.
Diretor-superintendente da Previc, Ricardo Pena disse em entrevista ao Valor que está preocupado com a baixa diversificação das carteiras dos fundos de pensão. Pena acredita que, mesmo com a perspectiva da queda de juros, não há pedidos de mudança nos portfólios para os próximos anos. Atualmente, a Selic está em 14,5% ao ano.
Considerando todas as aplicações em renda fixa, não apenas os títulos públicos federais, os investimentos de fundos de pensão superaram a marca de 80% em 2025. “No mundo inteiro, buscam-se ativos de risco que possam equilibrar a rentabilidade. Esse é o X da questão no momento”, ressalta o superintendente da Previc.
Apesar da preocupação, Pena destaca que os limites estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) - que permite até 100% dos investimentos em títulos públicos e até 80% em títulos de instituições financeiras - estão sendo cumpridos. Em renda variável, o teto é de 70%, mas a alocação ficou em 7,5% em 2025.
O superintendente da Previc também afirma que as fundações ficaram avessas a certos investimentos, como em fundos de investimento em participações (FIPs), após a Operação Greenfield, deflagrada em 2016 pela Polícia Federal (PF) para investigar irregularidades praticadas contra fundos de pensão.
Pena ressalta que, com a perspectiva de redução da Selic, os fundos de pensão já deveriam estar adequando suas políticas de investimento para os próximos cinco anos. Esse movimento, no entanto, não está sendo captado pela Previc, responsável pela fiscalização do setor, nas revisões anuais.
Segundo ele, os fundos de pensão não tomam decisões que têm efeito imediato. Por isso, há a necessidade de uma diversificação gradual. “É como se eu estivesse num transatlântico: preciso mexer [ajustar a carteira de investimentos] devagarzinho, olhando o cenário para os próximos cinco anos”, afirma. “O que nos preocupa é como vamos sair dessa concentração. O juro real, que hoje ainda está elevado no Brasil, vai começar a cair, e as fundações já precisariam estar se reposicionando para os próximos cinco anos.”
Pena disse ainda que, até julho, deverão ser divulgadas as novas regras para os fundos de pensão, que exigem que a estratégia de investimentos tenha como elemento central os critérios ESG (sigla em inglês para políticas ambiental, social e de governança). “As entidades vão ter que adaptar suas políticas de investimento para incorporar esses critérios”, frisa.
Em 2025, de acordo com a Previc, o setor obteve superávit de R$ 17 bilhões, o melhor resultado desde 2013 (quando o saldo positivo foi de R$ 18 bilhões), revertendo um déficit de R$ 10 bilhões apurado em 2024. No ano passado, a rentabilidade média anual foi de 13,23%. Os planos de contribuição definida tiveram a maior rentabilidade, de 14,20%, em média.
O diretor-presidente da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), Devanir Silva, considera que a preocupação sobre a diversificação é justa, mas afirma que os gestores dos fundos não estão “inertes”. Segundo ele, a tendência de queda dos juros deve, realmente, aumentar o apetite por risco, embora a migração para ativos mais arriscados, especialmente em renda variável, ocorrerá de forma gradual.
“Com essa taxa de juros no patamar em que está, e em relação à necessidade atuarial, você leva realmente a uma concentração em títulos públicos”, diz. A necessidade atuarial é uma espécie de cálculo para manter o equilíbrio financeiro dos fundos previdenciários no longo prazo.
Sinalização de queda da taxa de juros já chegou, e os dirigentes estão acompanhando isso com muita atenção” Devanir Silva
“Nós temos uma necessidade atuarial em torno de 4,5%, 5% [por ano] e uma NTN-B rendendo 7, 8% [em termos reais por ano]. Eu diria que é uma situação atípica, mas também temporária. A sinalização de queda da taxa de juros já chegou, e os dirigentes estão acompanhando isso com muita atenção”, diz.
Silva afirma ainda que é necessário ampliar a segurança jurídica dos gestores de fundos de pensão, com a atualização do decreto de 2003 que regulamenta os processos administrativos para apuração de infrações no regime de previdência complementar. Ele também aponta a existência de sobreposição de competências entre a Previc e o Tribunal de Contas da União (TCU) na fiscalização dos grandes fundos estatais, o que eleva a incerteza e traz uma “dupla fiscalização sem coordenação prévia”.
“Tudo isso contribui para uma reserva em relação à tomada de risco. Eu vejo como uma coisa natural você aproveitar as oportunidades que o mercado oferece, e hoje a taxa de juros está oferecendo. Não é uma situação confortável para ninguém, mas os gestores estão atentos. Se nós caminharmos para termos maior segurança, evitarmos o sombreamento, tivermos um regime sancionador modernizado, isso poderia favorecer mais os nossos gestores”, comenta
O estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital, afirma que os juros elevados ao longo de toda a curva - com a Selic ainda restritiva e taxas longas pressionadas pelo baixo crescimento e pelo quadro fiscal - ajudam a explicar a forte concentração das carteiras dos fundos de pensão em títulos públicos e a redução no incentivo à diversificação.
“Isso frequentemente resulta em alocações ineficientes, concentradas e com pouca exposição a mercados relevantes. Na maior parte dos casos, os recursos dos fundos de pensão permitem horizontes de investimento mais longos e poderiam financiar setores importantes da economia brasileira, como a infraestrutura, ao mesmo tempo em que garantem retornos compatíveis com esse horizonte e nível de risco para os participantes”, diz.
Segundo Vital, à medida que a situação macrofiscal permitir taxas de juros em níveis mais baixos, esse processo de diversificação das carteiras tende a se aprofundar, viabilizando a migração desses recursos. “Do ponto de vista regulatório e de governança, é importante termos os regramentos, políticas e controles preparados para essa transição”, acrescenta.
Fonte: Valor (11/05/2026)
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