sábado, 18 de julho de 2026

TIC: Presidente do CPQD vê soberania tecnológica como eixo para o futuro da conectividade no Brasil

 


Ao Last Mile Podcast, Sebastião Sahão Júnior, o Tuca, presidente do CPQD, trouxe uma leitura ampla sobre a história das telecomunicações no Brasil, a evolução do próprio CPQD e os desafios que colocam soberania tecnológica no centro da discussão sobre conectividade, inteligência artificial e infraestrutura digital.


A conversa percorreu quase cinco décadas de transformação. Vide vídeo acima. Tuca entrou no CPQD em 1986, ainda como pesquisador, vindo da Engenharia de Materiais. Desde então, acompanhou de perto a formação de uma base tecnológica nacional em telecomunicações, a atuação do sistema Telebrás, a preparação para a privatização, a consolidação da fibra óptica, a evolução das redes móveis, a expansão da internet, a pandemia e, agora, a chegada de uma nova onda marcada por inteligência artificial, dados, segurança digital e redes abertas.

O CPQD nasceu com uma função estratégica. Criado como centro de pesquisa e desenvolvimento da Telebrás, teve papel direto na nacionalização tecnológica do setor, na formação de empresas brasileiras e na transferência de conhecimento para a indústria. Ao longo da conversa, Tuca lembrou que a instituição participou do desenvolvimento de fibra óptica, cabos, conectores, conjuntos de emenda, centrais digitais, sistemas de billing das teles, cartão indutivo dos orelhões e tecnologias ópticas que mais tarde deram origem à Padtec.

O Brasil depende de tecnologia estrangeira? 

Essa história ajuda a explicar por que o CPQD ocupa um lugar particular dentro da telecom brasileira. Sua atuação nunca ficou restrita ao laboratório. Desde a origem, a instituição foi construída para transformar conhecimento técnico em aplicação real, conectada a políticas públicas, demandas de mercado e necessidades do país. Na visão de Tuca, essa é uma diferença importante: o CPQD trabalha com inovação aplicada, com tecnologia próxima do uso, da operação e da sociedade.

A privatização do sistema Telebrás marcou uma virada profunda. O CPQD foi transformado em fundação de direito privado e precisou aprender a competir, vender serviços, atender clientes e buscar sustentabilidade financeira. Ao mesmo tempo, manteve uma missão pública: gerar e oferecer soluções em tecnologia da informação e comunicação que contribuam para o desenvolvimento sustentável do Brasil.

Esse equilíbrio entre mercado e missão aparece como um dos pontos centrais do episódio. Tuca reconhece a importância do resultado, mas reforça que o resultado, para o CPQD, precisa servir a um propósito maior. A instituição não foi criada para distribuir dividendos ou buscar crescimento pelo crescimento. Sua função é gerar conhecimento, desenvolver tecnologia, apoiar políticas públicas, reduzir desigualdades, fortalecer a indústria e criar capacidades que permaneçam no país.

Um dos exemplos mais concretos dessa missão está nos laboratórios de certificação e qualificação de produtos. Após a criação da Anatel, o CPQD foi chamado para apoiar o processo de fiscalização, qualidade e segurança dos equipamentos utilizados no setor de telecomunicações. Até hoje, segundo Tuca, a instituição mantém um dos laboratórios mais completos do setor, capaz de testar celulares, cabos, componentes, baterias e diferentes produtos que chegam ao mercado brasileiro.

A fala sobre baterias de celular resume bem esse papel. Em 2005 e 2006, quando começaram a surgir casos de baterias explodindo, a Anatel chamou o CPQD para ajudar a estruturar ensaios e certificações. Os fabricantes diziam que não havia necessidade de criar novos processos de laboratório. A Anatel decidiu avançar. Em seis meses, o CPQD já estava certificando baterias de celular. O detalhe mais relevante é que, na época, nem existia equipamento pronto para esse tipo de teste. Os pesquisadores tiveram que montar a própria estrutura dentro de casa, na bancada.

Esse episódio mostra uma dimensão pouco visível da tecnologia. Segurança de produto, homologação, radiação, qualidade, ensaio e certificação raramente aparecem para o consumidor final. Mas são esses processos que protegem milhões de pessoas e dão sustentação a um mercado complexo. A tecnologia chega ao cidadão como produto, mas antes passa por ciência, engenharia, laboratório, norma e decisão institucional.

A discussão sobre soberania tecnológica apareceu como o fio condutor da conversa. Tuca explicou que a pandemia deu nova força ao tema. Quando faltaram vacinas, máscaras, componentes e sistemas de refrigeração, ficou claro que a globalização favorece quem já possui infraestrutura, indústria, conhecimento e capacidade própria de resposta. Países sem domínio sobre itens críticos ficaram no fim da fila.

Para ele, a soberania não pode ser tratada como um conceito abstrato. Ela se materializa em capacidade científica, domínio tecnológico, infraestrutura, pessoas qualificadas, redes seguras, laboratórios, dados, software e hardware. No caso das telecomunicações, esse debate começa pela conectividade. Sem redes confiáveis, nenhuma agenda digital avança com consistência.

É nesse ponto que Open RAN ganha relevância. O CPQD vê as redes abertas e desagregadas como um caminho para reduzir dependências, ampliar alternativas tecnológicas e permitir que mais empresas participem da cadeia de conectividade. Tuca citou intercâmbios com o Japão, apoio de equipamentos da Embaixada dos Estados Unidos, atuação junto ao Ministério das Comunicações, diálogo com a Anatel e o centro de competência em Open RAN estruturado com apoio da Embrapi.

As próximas gerações de conectividade, incluindo 6G e novas arquiteturas de rede, devem abrir espaço para modelos mais flexíveis, menos concentrados e mais interoperáveis. Para um país continental como o Brasil, depender essencialmente de tecnologia externa em áreas críticas limita a capacidade de resposta, a autonomia industrial e o desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade local.

Essa visão também apareceu na discussão sobre aplicações futuras. Carros autônomos, telemedicina, indústria conectada, agro digital e serviços públicos inteligentes dependem de infraestrutura. Antes da aplicação, vem a rede. Antes da automação, vem a conectividade. Antes da inteligência artificial, vêm dados organizados, seguros e interoperáveis.

No agro, o CPQD vem atuando justamente nessa fronteira. Tuca explicou o projeto SEMIAR, voltado à digitalização de pequenos produtores e agricultores familiares. A iniciativa envolve conectividade, letramento digital, aplicações e marketplace. O objetivo é ajudar o campo a acessar tecnologia de forma prática, com impacto em produtividade, permanência das famílias no meio rural e inclusão digital.

A conversa também passou pelas Forças Armadas. O CPQD desenvolveu, em parceria com Exército, Marinha e Aeronáutica, um rádio definido por software para permitir interoperabilidade segura entre as três forças. O caso reforça outro aspecto da soberania: em situações críticas, comunicação confiável e compatível entre diferentes estruturas pode ser determinante.

Na área financeira, Tuca mostrou que o CPQD já trabalhava com temas que hoje são associados à inteligência artificial antes mesmo da popularização recente do assunto. Síntese de voz, reconhecimento de fala, texto-fala, segurança digital, antifraude e proteção de transações fazem parte da trajetória da instituição há anos. O setor bancário se tornou uma frente relevante justamente porque demanda sistemas críticos, confiabilidade e segurança.

Agora, a inteligência artificial ganhou uma nova dimensão dentro do CPQD. Um dos principais projetos citados foi o Inspire, acrônimo para Inteligência Artificial no Serviço Público com Inovação, Responsabilidade e Ética. A iniciativa, desenvolvida junto ao governo, busca usar IA generativa, interoperabilidade de dados e segurança para melhorar serviços públicos, personalizar atendimentos, reduzir desperdícios e apoiar decisões.

Tuca trouxe exemplos práticos: vacinas que vencem por falta de gestão integrada, medicamentos que poderiam circular melhor entre unidades de saúde, benefícios sociais que exigem maior precisão cadastral, cidadãos que poderiam receber serviços públicos de forma mais ativa e personalizada. A IA, nessa leitura, não aparece como promessa distante. Ela entra como ferramenta para organizar dados, melhorar processos e tornar o Estado mais eficiente.

O projeto também prevê uma estrutura moderna de processamento com GPUs, voltada a dar suporte à demanda de dados e aplicações associadas ao Inspire. A combinação entre dados, segurança, capacidade computacional e inteligência artificial mostra como o CPQD busca se posicionar em uma nova etapa da infraestrutura digital brasileira.

Outro ponto importante da conversa foi cultura organizacional. Tuca relembrou uma crise enfrentada pelo CPQD em 2015 e explicou como a instituição precisou revisar práticas, valores e liderança. Colaboração, respeito, orientação ao cliente, adaptabilidade, inovação e resultado foram trabalhados como valores práticos, não como palavras de parede.

A reflexão sobre pessoas foi uma das mais fortes do episódio. Para Tuca, o cliente está no centro de qualquer organização, mas só é possível atender bem o cliente com colaboradores engajados, preparados e conectados com a missão. Em uma instituição de tecnologia, o conhecimento está nas pessoas. Sem gente motivada e colaborativa, não há entrega, inovação ou continuidade.

Essa visão ajuda a explicar a longevidade do CPQD. A instituição passou por mudanças estruturais, ciclos tecnológicos, pressões de mercado, crises, privatização e transformações no papel do Estado. Ainda assim, preservou uma identidade ligada à inovação aplicada e ao desenvolvimento do Brasil.

Ao final da conversa, Tuca reforçou uma ideia que sintetiza o episódio: o CPQD não pertence a um executivo. Pertence ao país. Foi criado pelo Estado para cumprir uma missão ligada à soberania tecnológica brasileira e segue buscando ampliar sua atuação com empresas, governo, indústria, academia e sociedade.

O episódio com Sebastião Sahão mostra que a história da telecom brasileira não pode ser contada apenas por operadoras, provedores, equipamentos e redes comerciais. Existe uma camada menos visível, formada por pesquisa aplicada, laboratório, formação industrial, certificação, políticas públicas, software, hardware e capacidade técnica acumulada.

Em um momento em que o Brasil discute inteligência artificial, data centers, redes abertas, governo digital, conectividade rural, segurança cibernética e infraestrutura crítica, a trajetória do CPQD volta a ganhar relevância.

Porque soberania tecnológica não nasce de discurso. Ela nasce de instituições capazes de formar conhecimento, construir soluções, responder a crises e sustentar a infraestrutura que o país precisa para competir.

E, pela conversa com Tuca, fica claro que o futuro da conectividade brasileira dependerá cada vez mais dessa combinação entre história, ciência, mercado, Estado e capacidade própria de inovação.

Fonte: Last Mile br (julho de 2026)

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