quinta-feira, 18 de junho de 2026

Fundos de Pensão: OCIO (Responsável de Investimentos Terceirizado) avança como alternativa à gestão de entidade de porte médio multipatrocinadas



Modelo de gestão terceirizada ganha espaço entre fundos de pensão com patrimônio de até R$ 3 bilhões, pressionadas por custos

O OCIO — sigla em inglês para Chief Investment Officer terceirizado — entrou na agenda das entidades fechadas de previdência complementar (EFPC) brasileiras como resposta a uma equação cada vez mais difícil.

Como manter estruturas internas de gestão de investimentos num ambiente em que títulos públicos indexados à inflação entregam retornos acima das metas atuariais da maioria dos planos?

A pressão não vem do lado dos ativos, mas do custo de manter equipes, sistemas e governança para gerir carteiras concentradas em renda fixa.

A rentabilidade média de 13,23% das EFPC em 2025 — o melhor resultado desde 2013, segundo a Abrapp — esconde um paradoxo. O desempenho foi sustentado por NTN-Bs e LFTs, papéis que exigem pouca sofisticação e demandam decisões táticas mínimas.

Com menos de 8% dos recursos alocados em renda variável, a relação custo-benefício de estruturas internas robustas se deteriora.

OCIO como alternativa de governança

O modelo de OCIO propõe a transferência integral da gestão de investimentos para um gestor externo, que passa a atuar como braço operacional da fundação em comitês tripartites — reunindo entidade, gestor e consultoria de risco.

A diferença em relação ao modelo de multipatrocinada, caminho adotado por EFPC menores que optam por encerrar estruturas próprias, está no assento à mesa: no OCIO, a entidade mantém poder deliberativo sobre cada decisão de alocação.

“Ninguém está querendo tomar risco. As fundações estão muito confortáveis aplicadas a 14,5% ao ano”, afirma Márcia Scaramela, sócia e responsável pelo relacionamento com clientes institucionais da TAG Investimentos.

Segundo ela, o setor em compasso de espera. “A maior reclamação que ouço é: somos lentos na tomada de decisão por falta de informação.”

André Leite, sócio e CIO da TAG, reforça o diagnóstico pelo ângulo macroeconômico. “O Brasil vive num país com doença fiscal crônica, que convive com taxas de juros nominais e reais elevadas. Qualquer um consegue fazer essa alocação em NTN-B”, diz.

Para ele, a sofisticação só se tornará necessidade quando os juros recuarem. “Quando você for começar a montar a estrutura num cenário de juros mais baixos, vai ter que fazer tudo às pressas e não estará bem-posicionado”.

Representatividade da multipatrocinada

A migração para multipatrocinadas trouxe problemas de representatividade e atendimento. Fundações com bases de participantes menores perdem prioridade em estruturas onde um único patrocinador responde por 80% ou mais do patrimônio total.

O resultado prático é o atendimento por sistemas automatizados, em conflito com o padrão exigido por fundações de origem multinacional.

“Tem fundações que não querem ir para esse modelo porque querem preservar o cuidado que têm com os participantes. Principalmente na hora em que o participante está indo para a fase mais importante da vida dele, que é a aposentadoria”, diz Scaramela.

A sócia da TAG identifica nas multinacionais europeias o perfil mais resistente à automação do atendimento, por exigências trabalhistas e culturais de suas patrocinadoras.

A Previc segmenta as 270 EFPC ativas em quatro grupos (S1 a S4) desde 2025, com requisitos proporcionais ao porte e à complexidade. A maioria das entidades concentra-se nos segmentos S3 e S4, de menor porte — exatamente o universo onde o custo fixo de estruturas próprias pesa mais e onde a proposta de terceirização integral encontra maior aderência.

Os riscos da renda fixa

A taxa Selic no patamar de 14,75% ao ano remove a urgência de mudanças pelo lado dos investimentos. Fundações que superaram suas metas atuariais em 2025 apenas com renda fixa pública têm pouco incentivo imediato para rever estruturas.

O movimento atual é motivado predominantemente pela pressão de custos internos, e não pela necessidade de buscar ativos de risco.

Leite aponta os papéis de inflação como o ativo mais adequado ao momento, independentemente do cenário eleitoral de 2026. “Esses papéis são bastante antifrágeis: ganham nos dois cenários. Num ambiente de queda de juros com melhora fiscal, o investidor se beneficia da abertura de prêmio. Num cenário muito negativo, está entregando o dever fiduciário máximo, que é a preservação do poder de compra do participante”, diz o CIO.

No crédito privado high grade, a TAG opera no nível mínimo de alocação há mais de um ano, diante de spreads próximos a CDI mais 0,7% sem contrapartida de garantias.

A construção de uma estrutura de OCIO — com política de investimentos, SLAs, comitês e processos de governança adequados à regulação Previc — leva tempo e exige relacionamento.

Scaramela ressalta que o risco de postergar essa decisão é perder não apenas rentabilidade, mas posicionamento competitivo dentro do próprio setor.

“Quem está aproveitando esse momento de juros altos para arrumar a estrutura e a governança vai estar muito à frente de quem esperar”, sintetiza.

No mercado americano, o modelo já atingiu penetração relevante: entre fundações com patrimônio de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão, 75% operam sob alguma variante de gestão terceirizada. No Brasil, o estágio é inicial, mas a combinação de pressão regulatória, consolidação setorial e custo crescente de estruturas próprias aponta para uma trajetória de convergência.

Fonte: Capital Aberto (15/06/2026)

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