O impacto sobre os trabalhadores
A modernização das telecomunicações alterou profundamente o mercado de trabalho. A digitalização reduziu tarefas manuais, centrais passaram a ser automatizadas e atividades de instalação, manutenção e atendimento foram terceirizadas.
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada constatou que o número de empregados formais nas empresas privatizadas de serviços de telecomunicações em 2002 correspondia a 62,2% do nível registrado em 1998. A remuneração média também diminuiu, embora permanecesse acima da média da economia brasileira.
A redução não pode ser atribuída exclusivamente à privatização. A substituição de redes analógicas por digitais diminuiria a necessidade de trabalhadores mesmo sob controle estatal. A terceirização e a automação também faziam parte de uma transformação internacional.
A mudança de propriedade, porém, acelerou a busca por produtividade, redução de custos e retorno ao acionista. As novas empresas eliminaram estruturas administrativas, venderam imóveis, integraram operações e transferiram serviços para prestadoras.
Os empregos diretos, estáveis e relativamente bem remunerados diminuíram. Em contrapartida, a expansão das redes criou vagas em call centers, lojas, distribuidores, empresas de instalação, fornecedores de tecnologia e, posteriormente, provedores de internet e negócios digitais.
O balanço trabalhista é misto. O setor passou a empregar trabalhadores em uma cadeia mais ampla, mas também mais fragmentada, com diferenças significativas de salários, benefícios e estabilidade.
O vazio deixado na política industrial
A Telebrás exercia poder de compra suficiente para orientar a indústria. Ao encomendar equipamentos desenvolvidos pelo CPqD, ajudava fabricantes brasileiros a alcançar escala e dominar tecnologias.
Depois da privatização, as decisões de compra passaram a obedecer às estratégias globais das novas controladoras. Grupos internacionais utilizavam fornecedores com os quais já mantinham relações em outros mercados.
Os contratos incluíram mecanismos de preferência por tecnologia nacional, mas não estabeleceram percentuais rígidos de aquisição. Estudos do BNDES apontaram que essas cláusulas tiveram alcance limitado.
Empresas brasileiras como Batik e Zetax perderam força ou foram adquiridas por grupos estrangeiros. A Lucent comprou ativos tecnológicos nacionais, enquanto fabricantes globais ampliaram presença no mercado brasileiro.
O país ganhou redes mais modernas, mas não capturou na mesma proporção a produção de componentes e equipamentos. A importação de sistemas, peças e tecnologias aumentou, pressionando a balança comercial do setor.
O CPqD continuou existindo como fundação privada e preservou capacidade de pesquisa, mas deixou de contar com a mesma coordenação industrial proporcionada pela holding estatal.
Essa consequência tornou-se mais relevante com o 5G, os satélites, a computação em nuvem e a segurança cibernética. Em uma economia digital, depender de equipamentos e plataformas estrangeiras não é apenas uma questão comercial. Envolve proteção de dados, segurança das redes e capacidade de resposta a disputas geopolíticas.
O leilão também foi uma batalha política
A privatização dividiu o país. O governo Fernando Henrique Cardoso argumentava que o Estado não possuía recursos para realizar os investimentos necessários e que a competição privada ampliaria o acesso e melhoraria a eficiência.
Sindicatos, partidos de oposição e movimentos sociais sustentavam que o patrimônio havia sido subavaliado, que os compradores utilizariam financiamento público e que o país perderia controle sobre infraestrutura estratégica.
Protestos ocorreram no Rio de Janeiro no dia do leilão. O evento foi cercado por forte esquema de segurança e disputas judiciais. Liminares chegaram a ameaçar a realização da venda, mas foram derrubadas.
Meses depois, a divulgação de gravações clandestinas de conversas envolvendo dirigentes públicos e integrantes do processo de privatização alimentou acusações de favorecimento na formação do consórcio que adquiriu a Tele Norte Leste.
O episódio provocou pedidos de investigação e de criação de comissão parlamentar de inquérito. Representantes do governo contestaram a integridade das gravações e negaram interferência ilegal. O caso permaneceu como uma das maiores controvérsias políticas do programa de privatizações da década de 1990.
A validade jurídica da desestatização foi posteriormente mantida pelo Supremo Tribunal Federal ao rejeitar ação que questionava dispositivos centrais do processo. O Tribunal de Contas da União também acompanhou diferentes etapas da avaliação e da venda.
O debate sobre o preço permanece sujeito a interpretações. O ágio elevado indica que os investidores estavam dispostos a pagar mais que os valores mínimos, especialmente pelas empresas celulares. Isso não encerra a discussão sobre o valor de longo prazo das concessões, das frequências e da infraestrutura.
Avaliar a privatização apenas pelo preço do leilão é insuficiente. O valor econômico dependia de investimentos futuros, dívidas, metas de expansão, riscos regulatórios, mudanças tecnológicas e capacidade de gerar receitas ao longo de décadas.
A crise da Oi expôs o risco do capital privado
A trajetória da Oi demonstrou que uma grande base de clientes e ativos de infraestrutura não garante sustentabilidade financeira.
Formada a partir da Tele Norte Leste, a companhia cresceu por meio de aquisições, incorporou outras operações e procurou se transformar em uma empresa nacional. O aumento da escala veio acompanhado de endividamento elevado, complexidade societária e necessidade permanente de investimentos.
A crise levou a Oi a um dos maiores processos de recuperação judicial da história brasileira. Partes de seus ativos foram vendidas, e a operação móvel foi dividida entre concorrentes.
Para o consumidor, os serviços precisavam continuar funcionando mesmo com a deterioração financeira do acionista. A Anatel, o Judiciário, credores e outras operadoras tiveram de coordenar uma transição destinada a impedir a interrupção das redes.
O episódio reforçou uma característica essencial das telecomunicações: a empresa pode ser privada, mas a continuidade do serviço possui interesse público. Quando uma grande operadora entra em colapso, o Estado não pode simplesmente permitir que milhões de usuários fiquem desconectados.
A privatização transferiu o risco empresarial aos acionistas, mas não eliminou o risco sistêmico suportado pela sociedade.
O fim das concessões encerrou o desenho original de 1998
As concessões de telefonia fixa foram concebidas para um mundo no qual o telefone instalado em casa era o principal meio de comunicação. Com a migração para celulares e internet, o valor econômico dessas redes diminuiu.
Entre 2024 e 2025, as principais concessionárias adaptaram seus contratos para o regime de autorização. Em troca da mudança, assumiram compromissos de investimento e continuidade.
O processo marcou o encerramento de uma etapa iniciada no leilão. A telefonia fixa deixou de ser tratada como eixo central da universalização, enquanto a conectividade de dados assumiu essa função.
A transição, contudo, exige proteção para localidades que ainda dependem das redes antigas. Em parte do país, o telefone fixo permanece relevante para serviços públicos, emergências e comunidades sem cobertura móvel adequada.
A substituição regulatória precisa ocorrer no mesmo ritmo da implantação das alternativas. Caso contrário, a modernização pode reduzir custos empresariais sem garantir que todos os usuários recebam uma solução equivalente.
Fonte: Gazeta Mercantil (29/07/2026)
Nota da Redação: A evolução do artigo segue amanhã, com a parte 5.
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