terça-feira, 19 de maio de 2026

IA: Como a Anthropic (Claude) se tornou a principal empresa de IA do mundo: entenda em cinco gráficos



Com um ritmo intenso de lançamentos, foco no mercado corporativo, números superlativos e presença constante e controversa no noticiário, a criadora do Claude se tornou o nome a ser batido

Há um ano, a Anthropic parecia uma azarona na corrida da inteligência artificial (IA). Com os investimentos massivos de Google, Meta e Microsoft — além dos holofotes voltados para a OpenAI — a companhia fundada por Dario Amodei parecia apenas um caminho alternativo nesse universo. Mas, com um ritmo intenso de lançamentos, foco no mercado corporativo, números superlativos e presença constante e controversa no noticiário, a criadora do Claude se tornou o nome a ser batido em 2026.

É uma situação que nem o criador parecia imaginar para a criatura. Durante a conferência anual da companhia, Amodei afirmou que havia se programado para um crescimento de dez vezes para 2026, mas a demanda foi muito além disso. “Espero que esse crescimento de 80 vezes não continue, porque isso é uma loucura e é muito difícil de lidar. Espero que os números voltem a ser mais normais”, disse ele.

O executivo falava sobre a demanda computacional prevista para a sua empresa, que precisou fechar um contrato com a SpaceX, de Elon Musk, para utilizar a capacidade total do data center Colossus 1, que oferece 300 megawatts e mais de 220 mil GPUs. A Anthropic já não tinha mais capacidade em sua infraestrutura e, por isso, o Claude vinha atravessando instabilidades e impondo restrições aos usuários.

O gargalo computacional é resultado de uma estratégia que mirou com sucesso no mundo corporativo, como explica Anderson Soares, vice-presidente da AI Brasil:

— A Anthropic soube ler uma forma muito mais precoce a virada da IA para o mundo corporativo. As concorrentes focavam muito no consumidor final com os chatbots. Modelos de IA sempre são bons, mas a Anthropic criou plugins de integração, como o MCP, e entendeu melhor o mundo das automações. No mundo dos negócios, clientes corporativos são um modelo mais consagrado e mais eficazes do que o do consumidor comum.

Desta maneira, o caminho do dinheiro se abriu. Em dezembro do ano passado, ela tinha receita de US$ 9 bilhões. Em abril deste ano, a cifra já era estimada na casa dos US$ 30 bilhões, superando a OpenAI, que, focada no consumidor final com o ChatGPT, atingiu US$ 25 bilhões. Em quatro anos, a receita da Anthropic cresceu 3.000%, uma das mais velozes da história, segundo especialistas — e já há rumores de que a cifra deve estar perto de US$ 45 bilhões.


Com a escalada da receita, a Anthropic promoveu outra virada para cima da OpenAI: o valor de mercado. É uma situação que também parecia improvável, considerando que a Anthropic nasceu de uma dissidência na OpenAI em 2021.

A empresa do Claude negocia uma nova rodada de investimentos, que deve avaliar a companhia em US$ 900 bilhões, tirando a coroa da OpenAI, que vale US$ 852 bilhões, de empresa de capital fechado mais valiosa do mundo. Esse valor também coloca a Anthropic acima de SpaceX e ByteDance (dona do TikTok). No mercado secundário de ações, a Anthropic já está avaliada em mais de US$ 1 trilhão.

Tudo aconteceu de forma muito veloz. Em setembro de 2025, ela estava avaliada em US$ 183 bilhões, enquanto, no mesmo período, a OpenAI valia US$ 500 bilhões. Em fevereiro deste ano, a companhia tinha crescido para US$ 380 bilhões, enquanto a OpenAI subiu para US$ 730 bilhões. Até que em abril, a dona do ChatGPT chegou a US$ 852 bilhões, enquanto a rival deve realizar a ultrapassagem em breve.

— A OpenAI caminhou para a Anthropic correr. O mercado de IA ainda é muito especulativo porque tem grandes promessas, que existem com base na criação de mercados, quebra da concorrência e estabelecimento do futuro do setor. A Anthropic começa a ditar agora qual é o produto que as empresas estão precisando — afirma Gustavo Macedo, professor do Insper.


Não foi só a OpenAI que sofreu, mas toda uma antiga geração de criadores de software. Com a popularização do Claude Code entre programadores e o sucesso do Claude Cowork entre executivos a partir do final de 2025, o setor de SaaS (software as a service) foi completamente rearranjado.

Alguns dos principais nomes do setor, como Adobe, Oracle, Salesforce e ServiceNow, viram suas ações derreterem a partir de fevereiro — o fenômeno ficou conhecido como “apocalipse do SaaS”.

Do seu maior valor de janeiro para o mais baixo em abril, a Intuit perdeu 46,24% de mercado, enquanto a Salesforce encolheu 38%. Na média, o derretimento de empresas ficou em 30% no período. Isso acontece porque o mercado passou a entender que o tipo de software oferecido por essas empresas pode agora ser construído por times internos de tecnologia que usam o Claude Code.

— O modelo de negócios do SaaS foi um campeão das últimas décadas. É o modelo mais rentável depois de marketplaces e o preferido dos fundos de investimento. Era um porto seguro grande, porque você gerava receita recorrente e alta escalabilidade. O derretimento mostra que não há mais um porto seguro. Quando uma companhia compra um SaaS, ela precisa adequar o processo ao software. Com a possibilidade de construir o próprio software, o processo não precisa ser alterado. Isso é muito importante — explica Soares.

Com isso, o setor de SaaS precisará passar por uma readaptação profunda, utilizando sua capilaridade junto aos clientes corporativos, mas a volta para patamares pré-Anthropic parecem muito difíceis no momento.


O sucesso fez crescer a lista de investidores da companhia, como o MGX (fundo de IA do governo dos Emirados Árabes Unidos), GIC (fundo soberano de Cingapura), QIA (fundo soberano do Catar), Founders Fund, BlackRock, General Catalyst e Sequoia Capital. Mas chama a atenção os investimentos de big techs, que, em tese, são concorrentes diretos da Anthropic no mundo da IA.

Em abril, o Google fechou um acordo para investir até US$ 40 bilhões na Anthropic, um investimento candidato a um dos maiores da história no setor de IA. No mesmo mês, a Amazon selou um contrato que pode servir até US$ 25 bilhões.

— Estamos vendo surgir as “great techs”, que é a nova geração das big techs. O dinheiro respeita uma regra que é a busca pela maximização de seus lucros. Ainda não sabemos se a Anthropic vai se manter sustentável, mas é natural que as big techs coloquem seu dinheiro nas “great techs” como uma aposta. As big techs estão com muito dinheiro em caixa e começam a fazer grandes apostas — explica Macedo, do Insper.

Nos balanços financeiros mais recentes dessas gigantes, há uma indicação de que valeu a pena investir na “rival”. O Google revelou que o seu lucro de US$ 62,6 bilhões é composto por US$ 28,8 bilhões da participação que ela tem na Anthropic. Já a Amazon informou que mais da metade de seu lucro no trimestre mais recente tem origem na valorização da Anthropic: dos US$ 30,3 bilhões, US$ 16,8 bilhões correspondem à participação na companhia do Claude.


Além do sucesso dos produtos e dos investimentos massivos, a Anthropic parece ter estacionado sobre a produção de controvérsias. A relação dela com o Pentágono chamou a atenção logo em 3 de janeiro, quando o Claude foi usado na operação de captura de Nicolas Maduro. No mês seguinte, virou ferramenta na Operação Fúria Épica, que iniciou o atual conflito entre EUA e Irã.

Usando a imagem de empresa responsável de IA, Amodei recusou dar acesso irrestrito a seus modelos, iniciando uma disputa com a Casa Branca, que culminou com a proibição de uso de tecnologia da empresa no governo americano — Nvidia, Microsoft, Reflection AI, Amazon, Google e OpenAI fecharam acordos com o atual governo dos EUA.

A reaproximação entre as partes teve início no começo de abril, quando a Anthropic decidiu não lançar o modelo Mythos por considerá-lo um risco global de cibersegurança. Isso fez o governo Trump planejar exigir revisão governamental de modelos, uma mudança completa de posicionamento do republicano.


Além disso, Dario Amodei entrou em embate público com Sam Altman ao provocar a OpenAI sobre seu modelo de negócios, o que culminou com o não aperto de mão da Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial de Nova Délhi, na Índia.

Em todos os casos, a Anthropic se manteve nos holofotes, abraçando o posicionamento de desenvolvimento responsável da tecnologia, o que especialistas acreditam funcionar como bom marketing. Até aqui, é um ano bastante agitado para a empresa, o que também traz recados importantes:

— Na era da IA, empresas pouco conhecidas têm um poder absolutamente desproporcional de impactar grandes processos de tomada de decisão a um nível pouco explorado. Não dá para acreditar que a Anthropic será uma empresa eternamente “bem-intencionada”. A OpenAI traz evidências de que essas empresas podem mudar seus princípios. É urgente estabelecermos um regime de governança global de IA e estabelecermos limites — diz Macedo

Fonte: O Globo (17/05/2026)

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