No Summit Mulheres nas Profissões 2026, os médicos Alexandre Kalache, Bruna Sanches e Bárbara Perpétuo destacaram a importância de cuidar do corpo, da mente e das relações
Viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. Para especialistas reunidos nesta quarta-feira, 5, no Summit Mulheres nas Profissões 2026, a longevidade saudável depende de uma combinação de fatores que envolve prevenção ao longo da vida, acesso aos serviços de saúde, participação social e condições que permitam preservar a autonomia na velhice.
Esses foram alguns dos temas discutidos no painel “O papel do corpo, da mente e do propósito na construção de uma longevidade com saúde, autonomia e qualidade de vida”, que reuniu o médico gerontólogo Alexandre Kalache, a médica de família e comunidade Bruna Sanches e a vice-presidente do Método Supera — empresa que oferece cursos de estimulação cognitiva —, Bárbara Perpétuo.
Embora tenham abordado o tema sob perspectivas diferentes, os três participantes convergiram em uma ideia: envelhecer bem é um processo construído ao longo de toda a vida.
“Envelhecer é bom, morrer cedo é que não presta”, resumiu Kalache. “As pessoas acham que é um fardo, mas, na verdade, é uma conquista.”
A preparação para a velhice começa cedo
Médica de família e comunidade com atuação na atenção domiciliar do Sistema Único de Saúde (SUS), Bruna Sanches contou que iniciou a carreira nos cuidados paliativos, mas mudou o foco da atuação ao perceber que muitos dos problemas enfrentados no fim da vida poderiam ser prevenidos — ou ao menos adiados — com cuidados iniciados muito antes.
Hoje, ela acompanha pacientes em recuperação após internações, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e cirurgias. Segundo a médica, o tratamento vai muito além da prescrição de medicamentos e depende de uma atuação integrada entre diferentes profissionais, como fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.
“Médico não faz nada sozinho”, afirmou. “Meu trabalho não se faz sem a fisioterapia, sem a psicologia, sem a enfermagem e sem a assistência social.” Para Bruna, esse cuidado multiprofissional é essencial para recuperar a funcionalidade dos pacientes e preservar sua autonomia.
A médica destacou ainda o papel da atenção domiciliar do SUS, onde atua acompanhando pacientes após a alta hospitalar. Além do cuidado clínico, as equipes orientam sobre benefícios sociais, direitos garantidos pelo sistema de saúde e articulam uma rede de apoio para dar continuidade ao tratamento.
Embora reconheça os desafios para garantir acesso rápido a todos os serviços, Bruna afirma que o objetivo segue sendo oferecer um cuidado integral. “É um propósito você pegar aquele paciente, às vezes totalmente alheio à saúde dele, numa situação ruim, e trazê-lo para o cuidado. É um trabalho bonito, apesar das dificuldades”, disse.
Kalache, por sua vez, disse que ainda faltam mudanças na forma de encarar o envelhecimento, seja na rede pública ou na privada. “Não dá para dizer que estamos preparados”, declarou o médico, que defendeu o fortalecimento da atenção primária e dos serviços de acompanhamento das famílias.
“O envelhecimento da população exigirá cada vez mais redes de cuidado estruturadas e acessíveis, com foco em temas como progressão das demências, ampliação das estruturas de acolhimento ou mesmo a solidão”, complementou Kalache, que é autor do livro A revolução da longevidade.
Envelhecimento não depende apenas de escolhas individuais
Ao explicar o conceito de envelhecimento ativo, desenvolvido durante sua atuação na Organização Mundial da Saúde (OMS), Kalache ressaltou que envelhecer bem não significa chegar à velhice sem doenças. Segundo ele, muitas pessoas convivem com condições crônicas e, ainda assim, podem manter autonomia, participar da sociedade e ter qualidade de vida quando recebem o cuidado adequado.
“Você pode ter hipertensão, diabetes, um problema osteomuscular, uma depressão. Tudo isso pode ser controlado”, afirmou. “Eu não quis chamar de envelhecimento saudável. Eu quis chamar de envelhecimento ativo.”
Para o gerontólogo, o envelhecimento ativo se sustenta em quatro pilares: saúde, aprendizagem ao longo da vida, participação social e segurança, entendida como proteção social e condições materiais básicas para viver.
Kalache também chamou atenção para o “idadismo” — preconceito baseado na idade —, que pode limitar oportunidades de trabalho, participação social e acesso a cuidados de saúde. Segundo ele, combater esse tipo de discriminação é um dos principais desafios diante do envelhecimento da população brasileira.
Ele também defendeu uma mudança na divisão das responsabilidades relacionadas ao cuidado. “Essa tarefa ainda recai predominantemente sobre as mulheres, e será necessário ampliar a participação dos homens para atender às demandas de uma população cada vez mais longeva”, declarou.
Corpo e cérebro envelhecem juntos
Se Kalache apontou a aprendizagem ao longo da vida como um dos pilares do envelhecimento ativo, Bárbara Perpétuo destacou que manter o cérebro estimulado também faz parte desse processo.
Representando o Método Supera, empresa voltada à estimulação cognitiva, ela defendeu que investir em educação e aprendizado contínuo pode contribuir para preservar a autonomia e a qualidade de vida ao longo dos anos.
“Não basta viver mais, as pessoas têm que viver bem, com vida”, afirmou. Para Bárbara, a educação tem papel central nessa construção.
“A educação é a base. Ela que promove a transformação para a gente viver melhor”. Segundo a executiva, a estimulação cognitiva ajuda as pessoas a manterem a independência, o senso de propósito e a capacidade de enfrentar as etapas comuns do envelhecimento.
Fonte: Estadão (06/08/2026)
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