terça-feira, 28 de abril de 2026

IA: Quanto mais IA no trabalho, mais a Inteligência Emocional (IE) será valorizada, diz Daniel Goleman, papa da IE

 


Considerado o papa da IE, o psicólogo americano entende que sempre haverá pessoas de carne e osso orientando, gerenciando, convencendo e inspirando no ambiente profissional


Vide entrevista com Daniel Goleman, psicólogo, jornalista científico e escritor americano.

Quer saber mais sobre inteligência emocional? Fale com o papa da IE. 

Aos 80 anos, o psicólogo, jornalista científico e escritor americano Daniel Goleman é a personalidade a ser consultada quando a questão é lidar com as próprias emoções e com as emoções dos outros. Goleman não foi o pai da ideia, mas quem a divulgou com mais sagacidade, a começar pelo livro Inteligência Emocional, publicado em 1995 e traduzido para 40 idiomas desde então.

O subtítulo da primeira edição em inglês era “Por que isso pode ser mais importante do que o QI”. A ideia era sugerir que podemos ter sucesso nas nossas relações cotidianas aprendendo a lidar com outro quociente, o emocional, aparentemente mais democrático do que uma medida numérica draconiana.

Da publicação do best-seller para cá, Goleman estruturou o tema, passando a sustentar a inteligência emocional sobre quatro pilares: autoconsciência, autogerenciamento, empatia e sociabilidade. Algo como conhecer-se, saber lidar com as próprias emoções, reconhecer as necessidades do outro e, então, se relacionar. Não demorou para ser absorvido por lideranças e educadores dedicados a promover práticas de gestão, desempenho e inovação no mundo empresarial.

O americano também mergulhou na ciência da meditação, lançando livros em que mostra como a prática pode alterar a conformação cerebral e ajudar a focar no que importa. Não estranha, portanto, ter ele colaborado com o Dalai Lama. Os dois assinaram obras juntos, como Emoções que curam e Como lidar com emoções destrutivas, em que unem sabedoria budista e neurociência.

Outro ponto para o qual o psicólogo voltou seu olhar é a “ecointeligência”, a avaliação do ciclo de vida completo de um produto, desde a extração de matéria-prima até o seu descarte final. Para ele, a transparência radical da cadeia de produção ajuda o consumidor a fazer escolhas – eis aqui o aspecto emocional –, o que forçaria as empresas a melhorar seus processos.

Inquirido, nas palestras que faz mundo afora, sobre como a inteligência emocional pode lidar com a artificial, Goleman lançou neste ano um livro que passa por esse convívio. Chama-se Optimal: Como atingir o desempenho máximo nas equipes e na liderança, e a parceria, desta vez, foi com Cary Cherniss, professor e diretor do programa de psicologia organizacional da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. Eles defendem, entre outros pontos, que a inteligência emocional continuará sendo um diferencial, à medida que a automação e a inteligência artificial avançam. O real sempre irá se sobrepor, na visão deles.

É o que Goleman esmiúça na entrevista a seguir, feita com ele a partir de Nova York. Ele será um dos palestrantes internacionais do São Paulo Innovation Week, festival global de tecnologia e inovação realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. O evento acontece entre 13 e 15 de maio, no Pacaembu e na Faap. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Confira, abaixo, os principais trechos da conversa:

Considerando a inteligência emocional como um campo do conhecimento científico, qual é a maior inovação relacionada à área?

Acredito que a maior inovação na inteligência emocional é a extensão do conceito com relação às competências no ambiente de trabalho. A inteligência emocional possui quatro pilares: autoconsciência, autogerenciamento, empatia e habilidades sociais. No aspecto do autogerenciamento, uma das competências mais esperadas de profissionais de alto desempenho é a capacidade de adaptação, o que considero extremamente importante nesta era da inteligência artificial. A adaptabilidade é uma habilidade aprendida com base na inteligência emocional. Se você entrar em pânico ou ficar ansioso, não conseguirá se adaptar.

Você escreveu um livro sobre foco. Qual é o papel da atenção para alcançar o sucesso? As pessoas estão mais distraídas do que nunca?

A atenção se tornou uma mercadoria. Nossa atenção é capturada pelas mídias sociais. As pessoas que operam essas mídias contam quantas pessoas estão olhando para qualquer coisa e usam essa informação para vender anúncios. Em outras palavras, nossa atenção é algo que as pessoas estão comercializando.

Mas acredito que a autoconsciência, que é o primeiro aspecto da inteligência emocional, permite que você administre sua atenção e não se distraia. Existem maneiras de aprender a melhorar sua capacidade de concentração. É como aprender qualquer outra habilidade. Você pode, por exemplo, concentrar-se na sua respiração e, sempre que perceber que sua mente está divagando para outra coisa, simplesmente trazê-la de volta para a respiração. Isso fortalece os circuitos cerebrais que controlam sua atenção. E, quanto mais você consegue controlar sua própria atenção, menos vulnerável você fica à influência de outras distrações, como as redes sociais.

Há uma percepção geral de que o medo vem permeando cada vez mais nossa relação com o mundo. Alguns atribuem isso à violência e à insegurança; outros lembram que o medo é muitas vezes usado para manipular comportamentos. Como gerenciar as reações em relação a isso?

As notícias que chegam do mundo, sem falar no que está acontecendo na nossa vida pessoal, nos dão muitos motivos para ter medo. No entanto, não é uma emoção saudável. Se você sente muita ansiedade ou medo, essas são emoções negativas e distrações perturbadoras. O medo que opera a partir do medo, isto é, a ansiedade imaginária que se junta ao medo real, é sempre autodestrutivo.

A questão é: como você pode gerenciar esse sentimento? Eu acho que a resposta é dupla. Uma é parar, olhar para o medo e iluminá-lo, tentando entender de onde vem. A segunda é cultivar emoções positivas – por exemplo, a equanimidade, a serenidade mental. É manter-se imperturbável, não importa o que aconteça. Quanto mais você praticar o exercício de atenção que descrevi, mais fácil será resgatar essa serenidade quando precisar.

De acordo com a Associação Internacional de Gestão do Estresse (ISMA), o Brasil tem a segunda maior incidência de burnout no mundo, ficando atrás apenas do Japão. Por que, na sua opinião, existem tantos casos de síndrome de burnout? O ambiente de trabalho se tornou mais exigente do que nunca? O padrão de resiliência mudou?

Quando seu local de trabalho está lhe causando estresse, há duas questões. Uma é: você pode mudar algo sobre sua situação? Consegue fazer com que a organização torne o ambiente menos tóxico, diminuindo as pressões sobre você? Muitas vezes a resposta é não.

A segunda questão é: o que posso fazer para gerenciar minhas próprias reações a uma situação estressante? É aí que entra a resiliência. Se você praticar, por exemplo, a atenção à sua respiração, e praticar isso todos os dias, você se tornará menos propenso a ter uma reação de estresse. Se tiver, ela tende a ser menos intensa e você se recuperará mais rapidamente.

A definição técnica de resiliência é o tempo que você leva para se recuperar do pico do seu estresse. Portanto, quanto mais você pratica o oposto, que é o relaxamento e o foco, mais rapidamente você se recuperará. A inteligência emocional se torna muito, muito útil nesse sentido, porque ela ensina como ter mais emoções positivas, independentemente da situação. E também ensina como transformar emoções negativas para que elas não sejam tão tóxicas.

A inteligência artificial pode vir a substituir a inteligência emocional?

Acredito que a IA pode imitar a inteligência emocional, mas não é a mesma coisa que uma pessoa real. Penso que, quanto mais a IA estiver presente no ambiente de trabalho, mais valorizada será a inteligência emocional ou as habilidades interpessoais, pois sempre haverá pessoas de carne e osso ajudando, gerenciando, orientando, convencendo, influenciando, inspirando e motivando. E tudo isso exige um certo nível de inteligência emocional.

Levando a inteligência emocional para o ambiente familiar, muitos pais reclamam que seus filhos não amadurecem. Geralmente, isso tem a ver com assumir responsabilidades. Como o senhor definiria maturidade?

Os pais são os primeiros tutores de inteligência emocional de qualquer criança, seguidos pelos amigos na escola. Existem muitos programas, tenho certeza de que em português também, sobre inteligência emocional que podem ser indicados a partir dos 5 anos até a universidade. E esses programas, os melhores, ensinam todo o espectro de habilidades e o fazem de uma maneira apropriada para o desenvolvimento.

Os pilares da inteligência emocional, na verdade, falam sobre maturidade. Ser mais autoconsciente, conhecer-se a si mesmo, como disse o filósofo grego Sócrates, é parte disso. Ser capaz de gerenciar suas emoções de forma responsável é a segunda parte. Quanto mais você consegue fazer isso, mais maduro você é. Sintonizar-se com as pessoas ao seu redor, a terceira parte, e juntar tudo isso para ter relacionamentos eficazes define uma pessoa madura.

A geração Z, os nativos digitais, apresenta níveis mais altos de ansiedade e depressão do que outras gerações. Como essa situação pode ser revertida usando a inteligência emocional?

As ferramentas de inteligência emocional são projetadas para ajudar a diminuir a ansiedade e tornar as pessoas mais resilientes sob estresse. Então, eu diria que a própria essência da inteligência emocional deveria ajudar os nativos da geração Z, se eles a levassem a sério e a colocassem em prática.

Os brasileiros são vistos como muito emotivos, mas isso, em certo aspecto, sugere uma falta de racionalidade nas decisões. O senhor concorda com isso?

Fico muito impressionado com a expressividade emocional dos brasileiros. Acho isso muito revigorante e maravilhoso. E não concordo que, por serem tão emotivos, não consigam tomar boas decisões.

Inteligência emocional é uma habilidade ou um dom?

Ambos. Não importa o dom que você tenha ou não tenha, você sempre pode desenvolvê-lo. Você sempre pode melhorar se sabe o que fazer, se sabe como tentar. A inteligência emocional é aprendida e pode ser desenvolvida em qualquer fase da vida.

Estamos nos tornando mais inteligentes, emocionalmente falando?

Espero que sim, mas não tenho certeza disso. Veremos.

Fonte: Estadão (25/04/2026)

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