Smartwatches e apps prometem mais controle e bem-estar, mas, sem contexto, podem gerar culpa e abalar a saúde mental
Nunca tivemos tanto acesso a dados sobre o próprio corpo. Frequência cardíaca, qualidade do sono, passos, calorias, níveis de estresse. A promessa é sedutora: medir mais para viver melhor. Mas, na prática, o uso de relógios inteligentes e outros wearables vem revelando um paradoxo: aquilo que deveria promover saúde e autocuidado pode, em alguns casos, alimentar ansiedade, autocobrança e até perda de autonomia.
“O monitoramento contínuo é bastante útil quando ajuda a ampliar a consciência e orientar mudanças realistas de comportamento”, afirma Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-Estar. “Mas ele se torna problemático quando passa a ocupar um lugar central na regulação emocional da pessoa.”
No consultório, a endocrinologista Alessandra Rascovski tem visto um fenômeno cada vez mais comum: pacientes angustiados por causa de métricas. “Eu achei que dormi bem, mas o relógio disse que não”, relatam alguns. Para a especialista, que também é autora do livro Atmasoma - O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor (EV Publicações), o ponto crítico é quando o dado passa a competir com a percepção. “A tecnologia pode ser uma grande aliada. Ela mostra tendências, ajuda a acompanhar padrões e, quando bem interpretada, favorece decisões mais conscientes. O problema começa quando o número vira julgamento. Quando o score vira identidade. Quando o aplicativo passa a ditar o humor do dia”, avalia.
Zoldan observa que esse deslocamento pode vir acompanhado de sinais claros de alerta: dependência dos dados para decisões simples, irritação diante de indicadores ruins e uma necessidade constante de desempenho. “A pessoa deixa de usar os indicadores como referência e passa a ser usada por eles”, afirma.
A lógica da performance - tão presente no trabalho e na vida social - invade o cuidado com a saúde. Metas diárias deixam de ser guias e passam a funcionar como cobranças. Não bater o número esperado pode gerar uma culpa desproporcional, enquanto bons resultados oferecem uma sensação momentânea de validação.
A ilusão de controle
“A quantificação da saúde traz uma sensação de objetividade, mas pode induzir a uma ilusão de controle”, explica Zoldan. “E nem tudo que é relevante clinicamente é mensurável, e nem tudo que é mensurável é clinicamente relevante”, destaca.
Isso se torna especialmente problemático quando métricas são interpretadas de forma isolada. Oscilações normais - como uma noite mal dormida ou uma variação na frequência cardíaca - podem ser vistas como sinais de algo grave. O resultado é um ciclo de hipervigilância e ansiedade, fenômeno que alguns especialistas associam à “cybercondria”, ou seja, a preocupação excessiva com a saúde a partir de dados e informações fragmentadas.
O cérebro viciado em métricas
Segundo Alessandra, cada notificação ativa o sistema de recompensa do cérebro. “Existe um componente dopaminérgico envolvido na busca por números melhores, círculos fechados, metas cumpridas. O cérebro gosta de completar tarefas”, explica.
A questão é que esse mecanismo pode levar à hipervigilância, que é algo prejudicial à saúde. “Quando usamos wearables de forma contínua, sem critério, podemos cair em uma lógica de controle excessivo. Em vez de escuta corporal, passamos a depender de validação algorítmica. Em vez de perceber como nos sentimos, esperamos o gráfico nos dizer”, alerta.
No caso específico do sono, os efeitos podem ser ainda mais evidentes. Segundo Rogério Santos da Silva, coordenador do núcleo de tecnologia da Academia Brasileira do Sono, o monitoramento pode ser útil para criar consciência sobre hábitos, como regular horários ou reduzir estímulos à noite, mas deixa de ser benéfico quando gera ansiedade ou comportamentos rígidos (tentar “forçar” o sono para melhorar números é um exemplo).
“O sono é um processo biológico espontâneo - quanto mais tentamos controlá-lo de forma excessiva, mais ele tende a se desorganizar”, afirma.
Um dos fenômenos associados a esse cenário é a ortossonia, isto é, a busca obsessiva por um sono “perfeito” com base em métricas. Entre os sinais de alerta estão checagem constante dos dados, ansiedade antes de dormir, frustração frequente com resultados considerados inadequados e desvalorização da própria percepção de descanso.
Além disso, embora os dispositivos tenham evoluído, eles ainda oferecem estimativas - não diagnósticos. “Métricas como ‘sleep score’ devem ser vistas como aproximações, e não como avaliação clínica”, diz Silva. Para questões como suspeita de insônia, apneia ou outros distúrbios, esses dados são insuficientes e a avaliação por um especialista é fundamental.
Como usar a tecnologia a seu favor
Para que os wearables sejam aliados - e não fontes de pressão -, o ponto de partida é mudar a forma de usá-los. Em vez de tratar as informações como verdades absolutas, o ideal é encará-las como referências que ajudam a identificar padrões ao longo do tempo. Como destaca Silva, esses dispositivos devem ser vistos como “ferramentas auxiliares, não como árbitros absolutos.”
Na prática, isso significa priorizar tendências, e não se prender a oscilações pontuais; evitar a checagem constante ao longo do dia; e flexibilizar metas, entendendo que o corpo não funciona de forma linear. Um dia ou outro fora do padrão não define sua saúde.
Outra estratégia importante é selecionar apenas algumas métricas realmente relevantes, em vez de acompanhar tudo ao mesmo tempo - o excesso de informação tende a confundir mais do que ajudar. Também é recomendável criar momentos sem monitoramento. “O descanso mental também faz parte do cuidado”, afirma Alessandra.
No fim, o uso equilibrado passa por integrar os dados com a percepção subjetiva. “A tecnologia pode ser uma ferramenta de autoconhecimento, desde que não se torne fonte de ansiedade. Se gerar culpa, comparação ou perfeccionismo, vale se perguntar: isso está ampliando minha consciência ou estreitando minha liberdade? Nenhum relógio substitui a capacidade de sentir o próprio corpo. Cuidar da saúde não é se vigiar. É se escutar”, enfatiza a endocrinologista.
Fonte: Estadão (16/05/2026)
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