quarta-feira, 20 de maio de 2026

Idosos: Cuidado, 'É um ano atípico, com um pico precoce de influenza', diz infectologista

 


Com o número de casos crescendo, os municípios que ainda não haviam ampliado a vacinação para todos os maiores de 6 meses, estão fazendo

Não é impressão sua. Não são só as crianças que você conhece que estão faltando às aulas, ou só no seu trabalho que todo mundo anda tossindo e com dor no corpo. Estamos em plena epidemia anual de gripe. E, esse ano, tudo está pior.

Os números comprovam: segundo o último boletim Infogripe, da Fiocruz, “todas as unidades federativas apresentam alta incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)”. Os culpados são o vírus influenza e o vírus sincicial respiratório (VSR).

Assim, os municípios que ainda não haviam ampliado a vacinação para todos os maiores de 6 meses, como São Paulo, estão fazendo. A capital paulista abriu ontem a imunização para todos.

O infectologista, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Renato Kfouri, concorda que 2026 tem sido um ano atípico para a gripe, explica o que aconteceu de diferente e dá as dicas sobre a vacinação.

A campanha de vacinação contra gripe começou em 28 de março, mas na maior parte do país, seguindo orientação do Ministério da Saúde, era só para os grupos prioritários, por que?

70% a 80% dos óbitos, a depender do ano, acontecem nos grupos prioritários. Quando você olha para os números de mortes, essas são as principais vítimas, por isso se foca e se insiste muito nas coberturas desses grupos.

E a abertura para o resto da população?

Há fatores que fazem com que essas questões sejam definidas. Um deles é a velocidade de entrega das vacinas. A produção é sempre um desafio no Brasil, porque o Instituto Butantan, que faz hoje 100% das nossas vacinas, tem uma limitação e não consegue entregar a quantidade total de doses de uma vez, vai entregando aos poucos. Então, se abrirmos a vacinação para todo mundo logo de cara, não vai ter vacina. Por isso é preciso começar pelos grupos prioritários. O Brasil compra 70 milhões de doses. Se levar em conta que somos 215 milhões, é mais ou menos um terço da população [os menores de 6 meses não podem tomar]. Não temos vacina para todos, então a estratégia, a princípio, é vacinar o público-alvo. O objetivo da campanha é diminuir hospitalização e morte. Consequentemente, vacinar os grupos prioritários, 70 milhões de pessoas. Como, nos últimos anos tivemos dificuldade de alcançar 100% de cobertura vacinal desse público, chega um momento que se disponibiliza para todo mundo.

Mas nesses quase dois meses o vírus circula e contamina mais pessoas, algumas até vulneráveis. Essa situação não cria um impasse sobre quando liberar?

Acho que sim. Não costumamos ter uma temporada tão precoce de influenza. Geralmente começa a circular no final de abril, maio. Mas tivemos um pico de influenza A em abril e, agora, um pico de influenza B, com o número de casos explodindo, sendo que a temporada de B geralmente acontece do meio para o fim do inverno. Esse é um ano atípico, com o vírus circulando muito precocemente e uma taxa de transmissão mais alta do que a habitual. Então, em relação a 2026, você tem razão. Estamos liberando a vacina para todo mundo, a despeito de querermos priorizar o grupo de maior risco, de uma maneira mais tardia. Não porque está tarde, mas porque o vírus chegou cedo.

O Rio tem outra estratégia. Quando recebeu a vacina, desde 28 de março, ela já foi ofertada para toda a população. Como encara isso?

Se você já recebe 1 milhão de doses e libera para todo mundo, em teoria, está deixando um velhinho sem vacina. Realmente, temos constatado ano a ano que não conseguimos vacinar 100% do público alvo. Se você assume que você não vai vacinar mesmo, que não tem como, libera para todo mundo.

Nos últimos anos tem sobrado vacina de gripe?

Usamos quase todas as 70 milhões de doses. Metade no público-alvo e outra metade nos outros dois terços, quando abre a vacinação. Também fazemos vacina de rotina durante o ano, como para o calendário da gestante ou para a criança que completa 6 meses. Isso tem feito com que as sobras, acredito, tenham sido muito pequenas, se é que existem.

Seria o caso de aumentar a quantidade comprada?

Eu acho que precisamos melhorar a cobertura. E, de novo, melhorar a cobertura de quem precisa. Se olha a cobertura de gestante, só 30%, 34% das gestantes são vacinadas contra a gripe. Entre os idosos ainda é a melhor cobertura, mas estava batendo 50% ano passado. A motivação a cada ano também varia. Esse ano, com uma temporada mais intensa, com uma força maior de infecção, mais notícias, mais casos circulando, todo mundo pegando, a busca pela vacina é maior. No final desse ano, provavelmente, a cobertura vai ser melhor de que em anos que a temporada é mais tímida. É a percepção de risco. Varia muito.

A vacina que tomada no ano passado ainda funciona? Ou o efeito é quase zero?

É zero. Mesmo que o vírus não mude nada, depois de seis meses, a proteção conferida pela vacina é praticamente zero. É que nem Covid, o efeito dura seis meses, oito meses, no máximo. Por isso que tem que vacinar anualmente. E quando varia o vírus, aí não tem discussão.

Como é definida a vacina, para quais tipos de influenza será feita?

Às vezes você tem um match do que está na vacina, às vezes não tanto. No Hemisfério Norte, quando surgiu esse H3N2 que rendeu muitos casos, não era o H3N2 que estava na vacina, então a efetividade foi muito baixa, menos de 40% nos Estados Unidos. É uma vacina que funcionou mal. Na maioria das vezes acertam, mas quando o pareamento entre o clado do vírus influenza (não falamos variante) se distanciou muito do que está na vacina, a eficácia cai muito naquela temporada. Não existe uma vacina universal de gripe. Ainda corremos atrás das mutações e temos que fazer a vacina com um valor preditivo, para o futuro. A Organização Mundial de Saúde (OMS) determina em setembro: no Hemisfério Sul, a partir do ano que vem, a composição da vacina será essa. Os laboratórios correm para produzir a partir de setembro, outubro, para entregar em fevereiro, março, para os países aplicarem. Ou seja, lá em setembro passado, eles tentaram adivinhar o que ia circular em maio desse ano, entende? Nem sempre acertam.

Aí a vacina não ajuda nada ou ajuda um pouco?

Às vezes deu um pareamento muito bom no H1N1, mas não deu no H3N2, ou não deu no B. O B, por exemplo, que está circulando agora, conversando com alguns virologistas, parece que não é o mesmo que está na vacina desse ano. Mas sempre ajuda um pouco. Não é zero proteção, mas não é a proteção ideal. A eficácia da vacina muda quanto menor ou maior é o distanciamento. Por isso não dá para falar quanto funciona a vacina de gripe: depende do ano, depende do vírus que circulou, depende da vacina que foi feita. Então, usamos sempre uma média dos últimos 10 anos. Na média, para o adulto jovem, é algo perto de 60%. No idoso, a prevenção da doença cai um pouco, mas a eficácia contra hospitalização é sempre mais alta.

Quem estava com algum sintoma de gripe tem que esperar para tomar?

Não, só não pode ter febre. Adiamos a vacinação em quadros febris. Se está com tosse, pode tomar vacina, não precisa esperar melhorar de nada. A vacina não tem nenhum tipo de elemento vivo, nem a doença atrapalha a vacina e nem a vacina potencializa sintoma de doença. Isso é um grande mito. Mas o ideal é tomar o quanto antes, porque a vacina leva pelo menos uns 15 dias para fazer efeito. Então, para quem está tomando a vacina agora, em meio de maio, vai estar protegido em junho. O ideal seria que a gente tivesse vacina para todo mundo o mais cedo possível. Mas todos podem e devem tomar, até porque há mais de um tipo de influenza. O fato de ter tido um não isenta de ter outra vez na mesma temporada, no mesmo ano.

Pode tomar vacina contra gripe junto com outras vacinas? Covid? Dengue?

Com todas. A vacina de influenza não tem contraindicação nenhuma. É uma vacina inativada, não tem componente vivo. Então, vale ver as vacinas que estão em falta no calendário e colocar tudo em dia. É uma oportunidade que não se pode perder.

Fonte: O Globo (19/05/2026)

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