Para algumas famílias, investir para os filhos é uma forma de oferecer oportunidades que os pais não tiveram
Mas, num país marcado pelo endividamento e pela desigualdade, ensinar a lidar com o dinheiro começa muito antes da primeira aplicação
Aos 4 anos, Elisa ainda não entende termos como títulos indexados à inflação ou juros compostos, mas já tem uma conta em seu nome e um dinheiro separado para seu futuro educacional. A iniciativa partiu de sua mãe, Isabela Marto, que já investia por conta própria e decidiu criar uma reserva para a filha assim que a rotina pós-parto permitiu.
A intenção, porém, não virou investimento imediatamente. “Desde que ela nasceu eu pensava em montar uma reserva para ela, mas o tempo na maternidade voa e eu só consegui começar aos 4 anos dela”, conta.
Hoje, o dinheiro tem um objetivo principal — ajudar a financiar o ensino superior da menina —, mas não é uma promessa de futuro com destino obrigatório. Se os planos da filha mudarem, a mãe admite ter flexibilidade para a reserva. “Se ela precisar para outra coisa, não vejo problemas”.
Mais do que garantir uma faculdade, Marto quer transmitir um aprendizado que, segundo ela, faltou na própria infância: a importância de guardar e investir. “Que ela aprenda a fazer o dinheiro trabalhar para ela, ao contrário do que foi comigo”.
A experiência de Marto ajuda a ilustrar uma preocupação que vai além da formação de patrimônio. Para algumas famílias, guardar dinheiro para os filhos também significa tentar interromper ciclos de insegurança financeira e ampliar as possibilidades de escolha na vida adulta.
Esse movimento, impulsionado também pela criação de produtos financeiros desenhados sob medida para o ciclo de vida dos filhos, acompanha o crescimento do número de crianças e adolescentes que já têm investimentos no Brasil. De acordo com a B3, menores de idade já acumulam um patrimônio de R$ 3,5 bilhões na bolsa brasileira, um avanço de 58% em cinco anos.
Na renda variável, são mais de 60 mil investidores menores de idade que já são sócios de empresas listadas na bolsa, seja com posições em ações, fundos imobiliários, ETFs, BDRs e outros ativos negociados no mercado.
Os números mostram uma presença crescente dos jovens no universo dos investimentos. Não significa, porém, que todas as famílias tenham condições de formar uma reserva para os filhos — nem que o acesso aos produtos financeiros seja suficiente para garantir educação financeira.
Investimento para crianças cresce, mas o acesso ainda é desigual
O avanço também aparece no recorte de gênero. Em cinco anos, o número de meninas investidoras aumentou 72%, passando de 14,3 mil para 24,5 mil. Entre os meninos, a alta foi de 50%, de 24,1 mil para 36,3 mil.
Segundo a B3, embora ainda representem uma parcela menor da base, as meninas já respondem por quatro em cada dez investidores de até 17 anos.
Os dados ganham ainda mais relevância em uma sociedade na qual as mulheres ainda enfrentam desigualdades salariais. O contato mais cedo com o dinheiro pode contribuir para que meninas desenvolvam familiaridade com decisões financeiras, embora o acesso aos investimentos, por si só, não elimine essas diferenças.
Paralelamente, no Tesouro Direto, em que a maioria também é de meninos, o número de investidores menores de 18 anos já ultrapassa a marca de 100 mil titulares.
Investidores do Tesouro menores de idade com posição no mês de agosto/26
| Faixa Etária | Homens Investidores | % do total de Investidores Homens | Mulheres Investidoras | % do total de Investidoras Mulheres | Total geral | % do total geral de Investidores |
| Até 17 anos | 71.230 | 2,98% | 42.711 | 3,50% | 113.941 | 3,16% |
Parte dessa tração recente vem do Tesouro Educa+, título público lançado em 2023 com foco específico no financiamento educacional. Segundo a B3, já são 12,9 mil investidores de até 17 anos, com saldo mediano de R$ 2,5 mil.
O papel protege o poder de compra com rentabilidade atrelada à variação da inflação (IPCA) acrescida de uma taxa de juro real fixa. Na fase de recebimento, o valor é convertido em parcelas mensais ao longo de cinco anos, conforme as condições e a data de conversão escolhida.
Já no Tesouro RendA+, voltado à construção de renda complementar no futuro, são 6,7 mil investidores nessa faixa etária, com saldo mediano de R$ 3,12 mil.
Embora os produtos tenham finalidades diferentes, ambos podem integrar estratégias de planejamento de longo prazo. A escolha, no entanto, depende de vários fatores, como os objetivos da família e o prazo disponível.
Como ensinar os filhos a lidar com dinheiro desde cedo
Para Camila Antunes, o planejamento financeiro da filha Luísa, de 12 anos, não se resume ao valor acumulado para o futuro. A mãe escolheu o Tesouro Educa+ para ajudar a financiar os próximos passos da menina, mas procura transformar o dinheiro em assunto cotidiano desde cedo.
Luísa já sabe da existência do dinheiro guardado e participa da administração dos recursos. "Ela tem uma conta, com cartão de débito e faz uma aplicação do dinheiro todo mês”, conta a mãe. Ela também participa de conversas rotineiras sobre gastos "dos mais caros às besteirinhas".
A motivação de Antunes é quebrar um ciclo vivenciado em sua própria infância, apostando que autonomia financeira e tomada de decisão se aprendem na prática. Para isso, desde cedo, ela cita que conversa com a filha sobre estabilidade, importância dos estudos e sobre o dinheiro, coisa que não teve acesso quando mais nova.
“Na minha infância meus pais não tiveram estabilidade financeira, e não fizeram boas escolhas. Desde que comecei a investir penso que ela terá uma tranquilidade maior em relação a isso", diz ela.
Quando pensa na relação que gostaria que Luísa tivesse com o dinheiro na vida adulta, Antunes resume o desejo em uma expressão: “a melhor possível”. Isso significa, segundo ela, saber fazer boas escolhas e procurar o melhor caminho, tanto nos estudos quanto nos gastos.
Quando começar
Especialistas apontam que o fator tempo é um dos maiores aliados dessas estratégias. Cinthia Galeskas, planejadora financeira, ressalta que quando existe espaço financeiro para começar quando a criança é um bebê, é como se os pais tivessem menos dificuldade. Isso se deve em razão dos “juros compostos”, em que os rendimentos se acumulam sobre o montante acumulado.
Segundo Matheus Pertile, responsável pela gestão de negócios de plataformas digitais do BTG Pactual, recém-nascidos contam com uma janela de até duas décadas pela frente, o que viabiliza carteiras com maior tolerância a oscilações em busca de prêmios reais mais robustos. Em contrapartida, quando o planejamento se inicia na pré-adolescência, a janela de acumulação fica menor.
Em uma simulação com rentabilidade real hipotética de 5% ao ano acima da inflação, aportes mensais de R$ 100 desde o nascimento somam aproximadamente R$ 34,5 mil aos 18 anos. Para chegar ao mesmo valor começando apenas aos 10 anos de idade, o desembolso mensal precisaria triplicar, alcançando cerca de R$ 300 por mês, segundo Pertile.
A simulação evidencia o efeito do tempo, mas não deve ser interpretada como uma obrigação de começar a investir assim que uma criança nasce. A capacidade de poupar varia de família para família, assim como as despesas e as prioridades ao longo da vida.
Galeskas também adverte que acumular capital não substitui a formação prática da criança. Uma reserva construída pelos pais não garante, sozinha, que o jovem saberá administrar o patrimônio quando tiver acesso a ele. A maneira como a criança aprende a lidar com escolhas, limites e consequências também importa.
“Ela [a criança ou adolescente] vai ter também as próprias escolhas e isso vai demandar a educação financeira e a responsabilidade com o dinheiro”, diz ela.
Dando um passo atrás
Para Galeskas, antes de definir quanto aplicar para os filhos, os pais precisam avaliar a própria situação financeira. “Eu gosto da ideia de começar o quanto antes com o que for possível. Se formos esperar acumular um grande dinheiro, há grande chance de gastar com outras coisas”, ressalta.
Ela ressalta, porém, que a chegada de uma criança costuma trazer novas despesas e que nem todas as famílias conseguem se preparar financeiramente para elas
"A gente sabe que quando chega uma criança, chegam vários boletos e a maior parte das famílias não consegue se preparar financeiramente para essa chegada. Então, o primeiro ponto é voltar um passo e a família conseguir ter uma capacidade financeira. A gente busca tudo para a vida da criança quando ela nasce: escola, o futuro dela, mas muitas vezes os pais não têm essa preparação, por exemplo, para uma reserva de emergência. É preciso voltar um pouco”, diz Galeskas.
A orientação é, como diz o ditado, organizar a casa antes de assumir compromissos de investimento que possam comprometer o orçamento. Isso inclui avaliar dívidas, despesas essenciais e a necessidade de formar uma reserva para imprevistos.
Como escolher um investimento para os filhos
Depois de avaliar quanto é possível guardar e por quanto tempo o dinheiro poderá permanecer investido, a família precisa escolher os produtos adequados ao objetivo.
A caderneta de poupança continua presente no cotidiano dos brasileiros pela simplicidade de funcionamento e pela isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas. Sua rentabilidade, no entanto, depende das regras vigentes e das condições econômicas, e costuma perder para outras alternativas também conservadoras, além de não garantir poder de compra real no longo prazo, o que pode ter um impacto relevante no patrimônio acumulado ao longo dos anos, segundo o especialista do BTG.
Entre as opções de renda fixa estão títulos públicos do Tesouro Direto e certificados de depósito bancário (CDBs). Alguns oferecem remuneração vinculada à inflação, enquanto outros acompanham indicadores como o Certificado de Depósito Interbancário (CDI).
A comparação deve considerar mais do que a taxa anunciada. Prazo para resgate, liquidez necessária, perfil de risco dos pais e possibilidade de resgate antecipado também influenciam o resultado.
Títulos atrelados à inflação podem ajudar a preservar o poder de compra no longo prazo. Entretanto, vender um título antes do vencimento pode resultar em uma venda com prejuízo devido à chamada marcação a mercado, que reflete as condições de negociação no momento da venda.
Quando a conta não fecha: educar sem romantizar
Guardar todo mês, no entanto, não é uma opção ainda para boa parte das famílias no Brasil. Em agosto de 2026, o país registrava 83,9 milhões de pessoas negativadas, segundo o Serasa. O endividamento e a inadimplência, somados às despesas com moradia, alimentação, transporte, saúde e educação, restringem a capacidade de poupar de parte dos brasileiros.
Nesse contexto, falar em aportes mensais para o futuro dos filhos pode parecer distante de quem precisa decidir quais contas pagar primeiro. Nestes casos, para Galeskas, a primeira atitude saudável dos pais não é se endividar para abrir uma aplicação no nome da criança, mas cuidar do próprio chão sob os pés.
Para a planejadora, a organização financeira dos próprios adultos também faz parte da proteção que desejam oferecer aos filhos. Construir uma reserva de emergência e planejar a própria aposentadoria pode reduzir a vulnerabilidade da família e diminuir a possibilidade de que os filhos precisem assumir responsabilidades financeiras dos pais no futuro.
”Eu não consigo investir, mas consigo me organizar para não depender dele quando ele começar a trabalhar. Só o fato de estarmos organizados já ajuda”, diz a planejadora.
A educação financeira, portanto, não precisa esperar pela primeira aplicação. Segundo a planejadora, nestes casos, o melhor investimento familiar continua sendo o diálogo aberto sobre o valor do dinheiro, a transparência com a realidade e o exemplo diário de consumo consciente.
“A nossa relação com o dinheiro está presente no dia a dia. As crianças e todos nós aprendemos a lidar com dinheiro com nossas referências. Então, dar bons exemplos, apresentar bons contextos, mostrar o valor do dinheiro, sem romantizar as faltas, o quanto vale o dinheiro da família, o que aquele dinheiro paga e quanto custam as coisas”, descreve.
Fonte: Valor Investre (12/10/2026)

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