sábado, 3 de outubro de 2026

TIC: Governo prevê investir até R$ 3 bilhões em novo satélite nacional, cujo controle total ficará nas mãos da Telebras

 


SGDC-2 deve entrar em operação em 2035 e será usado para defesa, soberania de dados e pesquisa

O governo federal prevê investir até R$ 3 bilhões na construção, lançamento e implantação da nova geração do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-2), equipamento nacional que deve entrar em operação em 2035. O satélite será usado para defesa, soberania de dados e pesquisa, podendo ser usado para levar internet a regiões remotas do país.

O início do projeto deve ocorrer já no ano que vem. O Ministério das Comunicações conseguiu incluir as ações relacionadas ao novo equipamento no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) dos próximos anos. A previsão de investimento é de quase R$ 315 milhões nos próximos dois anos, divididos entre Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (R$ 159,7 milhões em 2027) e Telebras (R$ 155 milhões em 2028).

O SGDC-2 deverá entrar em funcionamento 18 anos depois do seu antecessor, o SGDC-1, o primeiro satélite nacional do tipo, que entrou em operação em 2017 após um projeto estimado de R$ 2,1 bilhões — a troca de guarda ocorrerá justamente pelo fim da vida útil do SGDC-1. No entanto, o contexto que envolve o SGDC-2 é muito diferente daquele que envolvia seu “irmão mais velho”.

Desde 2019, quando a SpaceXAI, de Elon Musk, colocou em órbita seus primeiros satélites para conexão à internet, a modalidade ganhou enorme importância estratégica para países — os equipamentos da Starlink foram usados pela Ucrânia no conflito contra a Rússia, por exemplo. Desde então, as nações correram para aumentar suas capacidades de conectividade por sistemas espaciais. O governo enxerga no novo projeto uma oportunidade para reduzir a dependência de sistemas comerciais estrangeiros e ampliar a capacidade do Estado de apoiar ações de defesa, segurança pública, educação, saúde, inclusão digital e desenvolvimento das regiões remotas e de difícil acesso.

— A gente defende o futuro do Programa Espacial Brasileiro para garantir mais soberania digital, mais conectividade nas áreas remotas, principalmente nas áreas de defesa, nos pontos de fronteira e também para monitorar toda a nossa terra rara de mineração crítica. É importante que a gente consiga executar o futuro do Projeto Espacial com o novo SGDC — diz ao GLOBO Frederico de Siqueira Filho, ministro das Comunicações.

Atualmente, a Starlink tem mais de 90% do mercado de conexões via satélite da Amazônia legal, o que rende usos antagônicos da tecnologia. Por um lado, o serviço ganhou força no garimpo ilegal, o que forçou um acordo entre a empresa e o Ministério Público Federal (MPF) para coibir a prática. Por outro, a Justiça Eleitoral vai utilizar tecnologia da empresa de Musk para transmitir os resultados das Eleições 2026 em áreas sem infraestrutura convencional de comunicação. A Justiça Eleitoral contratou em março a Hughes, que utilizará terminais conectados aos satélites da Starlink.

A Telebrás procura a parceiros privados para a execução do SGDC-2 — atualmente, ela tem vários parceiros, como Viasat, SES, Hughes, Hispasat, Eutelsat/OneWeb —, mas a estatal brasileira buscará ter controle total do equipamento e de sua operação, já que o projeto parte da ideia de soberania nacional.

Ao contrário dos equipamentos da Starlink, no entanto, o SGDC-2 é um satélite geoestacionário, o que significa que ele fica mais longe da Terra — os aparelhos da Starlink ficam a cerca de 500 km da superfície do planeta, enquanto o SGDC-2 deverá ficar a 36 mil km.

O tempo de latência (o atraso de comunicação entre o planeta e o equipamento) é maior, mas é possível cobrir uma área bem maior do país. Projetos como o da Starlink exigem uma constelação de satélites porque cobrem áreas muito pequenas de território.

O projeto do SGDC-2 exige a cobertura de todo o território nacional, além da Amazônia Azul. Ele vai operar na posição orbital de 57 graus Oeste e deverá priorizar a disponibilidade de serviços para a região Norte, devido a sua alta dependência e comunicação via satélite e escassa infraestrutura terrestre.

Ao fazer uma consulta a fabricantes de satélites e integradores de sistemas, a Telebras indicou que o SGDC-2 terá capacidade entre 80 Gbps e 100 Gbps, o que não seria um salto grande em relação ao SGDC-1, que atinge velocidade de até 60 Gbps. No entanto, o novo equipamento é visto como pilar de um ecossistema de telecomunicações, o que inclui satélites de diferentes órbitas, e não como peça solitária da infraestrutura nacional.

A proposta da Telebras diz que o equipamento deve ser capaz de se comunicar com constelações de satélites de baixa e média órbita, o que poderia ajudar a atender necessidades de comunicação não críticas. Entre os requerimentos está também o suporte a sistemas de inteligência artificial (IA), sensores distribuídos e drones autônomos.

— Soluções privadas e constelações de satélites têm seu papel e ajudam a ampliar a conectividade, mas o Estado brasileiro também precisa preservar capacidade própria em infraestrutura estratégica. É essa combinação que nos permite ampliar a cobertura, fortalecer nossa capacidade tecnológica e garantir soberania digital — diz o ministro de Lula.

Outro objetivo é que o novo satélite ofereça conectividade diretamente para dispositivos (D2D, na sigla em inglês), sem a necessidade de receptores em terra, uma tendência que também começa a ganhar força no mundo, e está sendo testado no Brasil.

— O futuro da conectividade será construído pela combinação de diferentes tecnologias, modelos de negócios e capacidades. O nosso desafio é fazer com que toda essa inovação se traduza em mais oportunidades para os brasileiros, independentemente de onde eles vivam — diz Filho.

A previsão é que o SGDC-2 tenha vida útil de, pelo menos, 15 anos, mas a Telebras estuda projetos com prazos mais curtos, que permitam atualizações constantes de tecnologia. A publicação da RFI (Request for Information) pela Telebras, em julho de 2026, formalizou as diretrizes técnicas preliminares que orientarão o desenvolvimento do projeto.

Fonte: O Globo (01/10/2026)

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