Levantamento mostra como os brasileiros estão se preparando para a aposentadoria, quanto confiam no INSS e quais estratégias usam para garantir renda após o fim da carreira
A aposentadoria pode parecer distante para quem está no início ou no meio da carreira, mas a forma como o profissional organiza a vida financeira durante os anos de trabalho pode determinar quanto tempo ainda precisará permanecer no mercado - e com que padrão de vida poderá deixar de trabalhar.
Uma pesquisa da seguradora Icatu Seguros, em parceria com a Conversion, mostra que 95% dos entrevistados afirmam ainda não ter recursos suficientes para a aposentadoria. Quase metade está no início da preparação ou sequer começou a se organizar, enquanto outra parcela relevante já conseguiu formar alguma reserva, mas considera o patrimônio distante do necessário.
O levantamento ouviu 500 pessoas de todas as regiões do Brasil, com diferentes situações profissionais. A amostra foi composta por 60% de mulheres e 40% de homens, a partir de 18 anos. ]
Para 92% dos participantes, o INSS será insuficiente, total ou parcialmente, para manter o padrão de vida desejado. Ao mesmo tempo, 62% dizem não possuir previdência privada.
A previdência social, segundo Henrique Diniz, diretor de Previdência da Icatu Seguros, é base essencial para a aposentadoria dos brasileiros. Mas, para manter o padrão de vida e garantir mais segurança no futuro, ele reforça que é importante que cada pessoa tenha também uma estratégia de planejamento individual.
"A aposentadoria precisa ser construída muito antes do último dia de trabalho”, afirma.
A pesquisa ajuda a mostrar que ainda existe uma distância entre reconhecer a importância de se planejar financeiramente para o futuro e colocá-la em prática.
Para reduzir essa distância, Diniz afirma que é preciso um trabalho contínuo de diferentes atores:
- seguradoras, tornando os produtos cada vez mais acessíveis e ampliando os canais de distribuição;
- empresas, ao incluir a previdência entre os benefícios oferecidos aos colaboradores;
- imprensa, contribuindo para ampliar o acesso à informação e manter o tema presente no dia a dia das pessoas
"Quanto mais próximo e compreensível esse assunto se tornar, maiores são as chances de as pessoas começarem a se planejar mais cedo", afirma Diniz.
O problema não é apenas guardar dinheiro
O estudo sugere que a dificuldade está também em transformar o objetivo abstrato de “se aposentar” em uma conta concreta.
Só 28% dos entrevistados dizem saber com precisão quanto precisarão receber mensalmente no futuro. Outros 58% têm apenas uma estimativa aproximada, enquanto 14% não sabem calcular o valor.
“O brasileiro sabe que precisa se preparar, mas muitas vezes não consegue transformar essa preocupação em uma estratégia financeira estruturada. É nesse ponto que orientação, educação financeira e acesso a soluções adequadas fazem diferença”, afirma Diniz.
Quando o assunto é onde colocar o dinheiro, investimentos considerados de menor risco, como CDB e Tesouro, aparecem como a estratégia mais adotada, seguidos por poupança e imóveis. A previdência privada ocupa uma posição mais distante.
A busca por segurança também aparece na maneira como os brasileiros imaginam utilizar o patrimônio depois de parar de trabalhar. A maioria prefere transformar os recursos acumulados em pagamentos mensais, enquanto uma parcela menor gostaria de fazer retiradas conforme a necessidade - e poucos optariam por receber tudo de uma só vez.
“Durante muito tempo, a previdência foi vista quase exclusivamente pela ótica da acumulação. Hoje, cresce a percepção de que o grande objetivo do planejamento financeiro é transformar patrimônio em renda previsível, capaz de sustentar a vida na aposentadoria”, diz Diniz.Geração X chega mais perto da aposentadoria sem estar preparada
Se para os profissionais mais jovens ainda existe tempo para corrigir a rota, a situação é mais delicada entre aqueles que já avançaram na carreira.
Na Geração X, formada no estudo por pessoas entre 45 e 60 anos, 70% ainda não se consideram financeiramente preparados para se aposentar. Apenas 5% afirmam já ter condições financeiras de deixar de trabalhar.
Já as outras gerações variam neste quesito: 31% da Geração Z e 31% da Geração X começaram a se preparar, mas ainda têm pouco acumulado. Entre Millennials, são 20%; entre Boomers, 9%.
O levantamento mostra ainda que não existe uma única estratégia entre as gerações. Os mais jovens demonstram maior preferência por manter flexibilidade sobre o patrimônio: a Geração Z é a que mais gostaria de sacar o dinheiro aos poucos, no próprio ritmo.
Mulheres chegam ao futuro em situação mais vulnerável
A desigualdade também aparece quando os resultados são separados por gênero.
Entre as mulheres, 29% ainda não começaram a se preparar financeiramente para a aposentadoria, mais que o dobro dos 14% registrados entre os homens. Elas também aparecem menos na previdência privada: 23% utilizam essa estratégia, diante de 33% dos homens.
Há ainda uma diferença na busca por orientação. Embora as conversas sobre aposentadoria sejam concentradas principalmente dentro da família para ambos os gêneros, homens recorrem com maior frequência a assessores, planejadores, consultores financeiros e corretores de seguros ou previdência.
A consequência é que a aposentadoria também pode reproduzir desigualdades construídas durante a trajetória profissional: quem teve menos capacidade de poupar ou menos acesso a planejamento chega ao fim da carreira com menor margem para decidir quando parar.
Quanto maior a renda, maior a preparação
A renda familiar é outro divisor importante. Entre as famílias que recebem até R$ 1 mil por mês, quase dois terços ainda não começaram a se preparar para a aposentadoria. Entre aquelas com renda superior a R$ 28 mil, essa proporção cai para apenas 3,2%.
]A diferença fica ainda mais evidente na previdência privada. Nenhum entrevistado da menor faixa de renda declarou possuir o produto. A proporção cresce progressivamente e chega a 71% entre as famílias que ganham mais de R$ 28 mil mensais.
As respostas abertas ajudam a explicar por que o planejamento não depende apenas de renda. Cerca de 40% indicam algum nível de desconhecimento sobre previdência privada, enquanto experiências negativas com o setor financeiro e desconfiança também aparecem como barreiras. A influência familiar, por outro lado, tem peso importante na decisão.
“O desafio do país não é apenas ampliar o acesso a produtos financeiros, mas tornar o planejamento de longo prazo mais compreensível, acessível e conectado à realidade de cada pessoa”, afirma Diniz.
No fim, os dados mostram que planejar a carreira já não significa pensar apenas no próximo emprego, promoção ou salário. Também envolve uma pergunta que costuma ser adiada por décadas: quando chegar a hora de parar de trabalhar, o patrimônio construído ao longo da vida será suficiente para permitir essa escolha?
Fonte: Exame (08/10/2026)


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