Grupo de pesquisadores aproveitou um experimento natural para testar hipótese
O aumento da longevidade é a principal causa do aumento dos casos de demência. E a principal demência é a doença de Alzheimer. Sabemos que fatores hereditários e ambientais influenciam no aparecimento, mas sua causa ainda é mal compreendida. Nos últimos anos tem sido demonstrado que vírus que atacam componentes do sistema nervoso, como o vírus do herpes zoster, também contribuem para o aparecimento dos casos de demência. Nas últimas décadas foram desenvolvidas vacinas para o herpes zoster e surgiu a hipótese que talvez essa vacina possa reduzir em parte os casos de demência.
Mas, testar essa hipótese é muito difícil pois envolveria separar por sorteio dois grupos de voluntários, vacinar um dos grupos e observar o número de casos de demência em cada grupo ao longo de 10 anos. Um experimento quase impossível uma vez que a vacina é hoje recomendada para todos os idosos e não seria ético deixar de vacinar um dos grupos.
A novidade é que um grupo de pesquisadores aproveitou um experimento natural para testar essa hipótese e descobriram que a vacina contra herpes zoster reduz a incidência de demência.
Experimentos naturais são experimentos que ocorrem sem serem desenhados por cientistas. Esse é um bom exemplo. Quando a vacina foi lançada, em Wales, na Inglaterra, o sistema de saúde inglês decidiu no dia primeiro de setembro de 2013 que pessoas com 71 anos ou mais deveriam tomar a vacina. E a data de corte foi 2 de setembro de 1933. Se você tivesse nascido antes dessa data seria vacinado, se fosse mais jovem teria que esperar até fazer 71 anos para tomar a vacina.
Essa decisão criou artificialmente dois grupos de idosos: o primeiro grupo com idosos que tomaram a vacina imediatamente aos 71 anos. Os dados dessas pessoas nos sete anos seguintes, dos 71 aos 79 anos, foram obtidos no serviço de saúde inglês. O segundo grupo continha os idosos entre 71 e 79 que não chegaram a tomar a vacina, pois já tinham 79 anos quando o programa foi iniciado em 2013. Os dados desse grupo também foram obtidos no serviço de saúde inglês. A única diferença entre eles é que o segundo nasceu 7 anos antes que o primeiro grupo.
A amostra total foi de 296.603 pessoas, metade em cada grupo. Uma amostra muito grande. Entre as pessoas que não deveriam ter tomado a vacina (grupo 2) somente 0,01% tomaram a vacina. E do grupo elegível para vacinação (grupo 1) 47% foram vacinados, a grande maioria logo que o programa foi lançado.
Comparando o número de casos de demência nesses dois grupos por 7 anos, quando tinham idades entre 71 e 79 anos foi possível investigar se a vacina teria alterado a frequência de aparecimento da demência.
Essa análise cuidadosa demonstrou uma redução de 20% nos casos de demência entre os vacinados, quando comparado aos não vacinados. E foi observado que essa diminuição é um pouco maior entre as mulheres. Esse trabalho primoroso demonstra que a vacina contra herpes zoster reduz realmente os casos de demência entre os vacinados. Mas, infelizmente traz pouca luz sobre os motivos dessa redução.
O importante é que essa vacina já vem sendo recomendada para idosos para evitar os casos de herpes zoster, que são erupções na pele, em diferentes áreas do corpo, extremamente doloridas. Quem teve sabe. Essas vacinas já estão disponíveis no Brasil. Essa descoberta é mais uma razão para tomarmos essa vacina.
Fonte: Estadão (09/05/2025)
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