terça-feira, 13 de maio de 2025

TIC: Estações móveis de telefonia celular clandestina na mão de bandidos são nova forma de disparar golpes por SMS

 


Equipamento, capaz de disparar milhares de mensagens de texto, estava no banco traseiro de um carro revistado pela Polícia Militar de São Paulo

Em julho de 2024, o acaso revelou à polícia uma nova forma de crime: o disparo de SMS fraudulentos por uma Estação Rádio Base (ERB) clandestina. O equipamento, capaz de disparar milhares de mensagens de texto, estava no banco traseiro de um carro revistado pela Polícia Militar por estar com os faróis apagados à noite, em uma avenida de São Paulo. Apenas em 2025, a Anatel recebeu dez denúncias em três estados de possíveis casos semelhantes, que são investigados pelas autoridades.

As ERBs são usadas para conectar os celulares a centrais de controle das operadoras de telefonia. A “unidade móvel do golpe”, como foi batizada pela Polícia Civil de São Paulo, circulava de oito a 12 horas em vias movimentadas da capital, como a Faria Lima e a Paulista. Instalada no banco de trás, bloqueava o sinal dos celulares do entorno e disparava as mensagens em intervalos de segundos. Textos como “compra não autorizada” ou “sua conta foi bloqueada” induziam vítimas a clicarem em links maliciosos. Elas terminavam com os celulares invadidos e as contas bancárias saqueadas.

— Quem faz sabe bastante de telecomunicação. Não é um aventureiro — diz o delegado Alexandre Bento, da 42º Delegacia de Polícia, acrescentando que o equipamento é montado com peças de outros existentes. — É um “catadão” de peças desviadas de operadoras de telefonia. Algumas coisas eles trazem de tecnologia da China, mas no geral o produto é montado no Brasil. É um Frankenstein.

Desde julho, pelo menos outros quatro aparelhos foram encontrados em São Paulo, em locais como a Avenida Anchieta e o bairro Tatuapé, tanto em carros como em imóveis. Em janeiro, uma ERB ilegal foi apreendida pela Polícia Civil em um apartamento no 19° andar de um prédio no Morumbi. O aparelho mirava quem passava pela Marginal Pinheiros. Um homem de 24 anos estava no local e foi preso em flagrante pelos policiais.

Segundo o delegado, as investigações mostraram que o equipamento, instalado na sacada do imóvel, disparou entre 40 mil e 50 mil mensagens em três horas a partir do apart-hotel. Os SMS chamavam a atenção das vítimas com textos sobre milhas de viagens e irregularidades na carteira de habilitação.

— Esses aparelhos são controlados de forma remota por meio de aplicativos. Quem estava no apartamento ficava lá só tomando conta. Não operava nada nem tinha nenhum conhecimento. Se bobear, nem sabia que era ilícito — diz Bento, que afirma se tratar de uma operação criminosa cara. — O equipamento é vendido aproximadamente por R$ 100 mil. Nesse caso específico, o garoto recebia R$ 5 mil por semana, além dos R$ 7 mil pelo aluguel de dez dias do apart-hotel.

Sorte para detectar

O caso chegou ao conhecimento da Anatel após uma operadora notar que seu sinal caía constantemente em uma área da capital. Uma equipe foi enviada e localizou o prédio de onde o sinal bloqueador era emitido. A Polícia Civil obteve um mandado de busca e apreensão e entrou no apartamento onde o sistema estava montado.

Para a superintendente de Fiscalização da Anatel, Gesileia Teles, o equipamento, em sua versão móvel, tem um alcance inferior ao instalado em um ponto fixo. A tecnologia, explica ela, é difícil de ser detectada, principalmente em um veículo.

— É mais ou menos um golpe de sorte (detectar a fraude). Você não consegue localizar o equipamento pequeno que está em um carro ou em cima de uma moto. Não conseguimos monitorar o espectro em todas as ruas do Brasil — admite.

Segundo o delegado Bento, o grau de conhecimento necessário para operar o sistema e os valores envolvidos evidenciam que uma organização criminosa está por trás dos equipamentos.

— Não estamos lidando com amadores. Eles não teriam fôlego para investir. Percebemos que o grupo que comete esse crime é o mesmo desde o início. Eles descobriram essa tecnologia pela qual conseguem atingir uma gama muito maior de pessoas com investimento menor de tempo — descreve o delegado.

Os investigadores chegaram até uma loja online de Maceió que anunciava produtos similares às ERBs apreendidas. As diferentes versões vendidas prometiam alcançar um raio de até 3km e disparo de 60 mil SMS diários. O dono do site Digital Atendimento alegou que não trabalhava mais com o produto e que a plataforma apenas anunciava o item, conta Bento.

— Chegamos aos desenvolvedores. Eles fizeram essa tecnologia, mas não obtiveram a homologação da Anatel. A ideia inicial era colocar na porta de lojas e shoppings para fazer propaganda. Quando viram que não deu certo, mudaram de ramo. Mas alguém “abraçou” esses equipamentos, viu como funcionavam e passou a utilizá-los para o crime.

O site foi multado em R$ 330 mil pela Anatel pela venda de produtos não autorizados. Procurada, a empresa não se manifestou.

Em fevereiro, a Anatel criou um grupo de trabalho para tratar do problema. A agência se concentra em definir os critérios necessários para uma denúncia e a analisar os aparelhos apreendidos. Gesileia acrescenta que a Anatel atua para impedir a entrada de produtos não homologados pelas fronteiras.

— Os que pegamos trabalham com rede 2G, mas podemos ter equipamentos com 3G ou 4G — afirma a superintendente, para quem o usuário dessa tecnologia comete um crime que não se caracterizava nas versões tradicionais dos golpes por SMS. — Antes, eles usavam a própria rede da operadora. Eram clientes que compravam pacotes de SMS massivos. Com a ERB fake, não são assinantes de ninguém e derrubam o sinal de qualquer um que esteja passando.

Além de ser uma infração administrativa, o uso de radiofrequência não autorizada é considerada atividade clandestina de telecomunicação. A pena é de detenção de dois a quatro anos, aumentada pela metade em caso de danos a terceiros, além de multa de R$ 10 mil.

Estelionatos, como os golpes por mensagens de texto, superaram os casos de roubos e furtos no país, segundo a edição do ano passado do anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O movimento foi intensificado na pandemia de Covid-19. Também no ano passado, uma pesquisa do Datafolha apontou que 26% dos brasileiros sofreram alguma tentativa de golpe financeiro por mensagem ou ligação.

O prejuízo com crimes virtuais e roubos de celulares foi calculado pelo levantamento em R$ 186 bilhões. Para o professor da FGV Rafael Alcadipani, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os estelionatos virtuais reduzem os riscos de criminosos:

— Têm pena menor, e é mais difícil ser preso por esse crime. Além disso, a nossa polícia está na época analógica.

Fonte: O Globo (12/05/2025)

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