quinta-feira, 14 de maio de 2020

TIC: Acesso limitado à internet e manutenção da data do Enem prejudicam estudantes carentes



Mesmo com suspensão de aulas presenciais, Inep manteve o calendário do exame, cujas inscrições começaram nesta segunda-feira (11)


Aberta nesta segunda-feira (11) em meio a polêmicas e pedidos de adiamento, a plataforma do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) já somava mais de 1 milhão de inscrições até 18h do mesmo dia, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). No entanto, uma indicação do Tribunal de Contas da União (TCU) pode mudar os planos do instituto, que apesar da suspensão das aulas presenciais pela pandemia do novo coronavírus, havia se negado a alterar a data do exame.

No despacho publicado em 4 de maio, segundo o jornal Folha de São Paulo, o ministro  Augusto Nardes, do TCU, diz que a pandemia do novo coronavírus tem profundos reflexos na educação e indica existir necessidade de alteração do calendário da prova. Para especialistas, a manutenção da data acentua a desigualdade de oportunidades na educação.

A prova está marcada para acontecer, na versão impressa, nos dia 1º e 8 de novembro, e na versão digital nos dias 22 e 29 do mesmo mês. Nas primeiras 18 horas, o site do Inep já havia recebido 937.547 inscrições para o Enem Impresso e 75.798 para o exame digital. 

Se antes a estudante Camilly Oliveira Mendes, de 17 anos, contava com apenas cinco horas semanais de aula em um pré-Enem gratuito - além das regulares na escola - para se preparar para a prova, agora ela precisará recorrer às apostilas que usou no ano passado para revisar os assuntos, e sozinha. A menina, que está matriculada no terceiro ano do ensino médio em uma escola pública de Belo Horizonte, não tem acesso suficiente à internet para assistir aulas on-line.

Camilly é um dos milhões de candidatos que podem ter seu desempenho prejudicado neste ano pela pandemia. “Eu já estou sem aula direito há mais tempo por conta de greve, não teve tempo de ver nada, então desde antes já estava sem saber o que iria acontecer, esperando algum terceiro dizer o que fazer”, conta. A adolescente sonha cursar Ciências Sociais e já se inscreveu para a edição deste ano do Enem.

Além dela, jovens do Morro do Papagaio, também na capital, precisaram contar com a ajuda de professores de um pré-Enem popular para pagar o acesso à internet e continuar estudando durante a pandemia. O local oferece aulas gratuitas, mas precisou interromper o atendimento presencial. Quando começaram a ministrar as aulas pela internet, os professores foram surpreendidos com a informação de que a maioria dos alunos não tinha acesso à rede. Os docentes, então, se juntaram para pagar a conexão desses alunos.

Para Jana Rabelo, professora de redação voluntária no local, as aulas on-line ajudam a reduzir de certa forma as desigualdades, mas não são suficientes quando se trata de alunos ainda mais carentes. “Deveria ser papel do governo garantir o acesso à internet, criar hotspots, locais de acesso, o que não dá é para fingir que está tudo igual”, defende.

O professor de redação Fabrício Miguez também considera equivocada a decisão de manter a data das provas. “Ela só vai reforçar todas as desigualdades que a gente já tem, justamente porque algumas escolas particulares estão fazendo ensino remoto, mas o ensino público está parado e eles não estão conseguindo progredir”, afirma.

Adiamento
Desde o início da pandemia, a hashtag #AdiaEnem ganha espaço nas redes sociais em uma tentativa de sensibilizar o Ministério da Educação para o problema que a desigualdade traz nesse aspecto. Em contrapartida, o MEC passou a veicular uma campanha na qual jovens afirmam que uma geração de profissionais estaria perdida caso o Enem fosse adiado.

Em uma reunião com senadores na última semana, o ministro da pasta, Abraham Weintraub, chegou a afirmar que o Enem não foi feito para corrigir injustiças. “Me parece incoerente para um ministro da Educação ter essa visão utilitarista da educação como se ela servisse apenas para formar trabalhadores e não para promover a ascensão social, a cidadania e a igualdade de direitos”, critica Jana, que se posiciona inteiramente a favor do adiamento do exame.

De acordo com Miguez, o caráter prejudicial da manutenção das provas do Enem na data prevista se estende a todos os alunos, mesmo os que estão tendo acesso a aulas on-line. “A tecnologia aproxima o professor do aluno, mas ao mesmo tempo afasta porque não há aquele contato, então os alunos mesmo no ensino remoto não se sentem confiantes”, relata.

“Se esses alunos privilegiados socioeconomicamente já estão com dificuldades, não se sentem seguros, imagine aquele que não têm as mesmas condições de vida?”, indaga Jana.

Questionado, o Inep não respondeu sobre a possibilidade de oferecer programas para viabilizar o acesso a alunos com menos recursos e nem comentou sobre o despacho do TCU até o fechamento desta edição.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Este blog não se responsabiliza pelos comentários emitidos pelos leitores, mesmo anônimos, e DESTACAMOS que os IPs de origem dos possíveis comentários OFENSIVOS ficam disponíveis nos servidores do Google/ Blogger para eventuais demandas judiciais ou policiais".