quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Fundo de Pensão: Diretor Presidente da Abrapp diz que poupança é a alavanca do desenvolvimento



É preciso criar arcabouço que permita aos fundos ampliar sua participação em investimentos produtivos sem abrir mão da prudência atuarial

Falar sobre indústria no Brasil é falar do motor que gera empregos, inovação e riqueza. Mas também é falar de um setor que, há décadas, enfrenta dificuldades para financiar sua expansão e modernização. O crédito bancário, em geral caro e de curto prazo, continua sendo a principal fonte de recursos, o que restringe a capacidade das empresas de investir com visão de futuro. O mercado de capitais, apesar dos avanços, ainda é restrito e pouco acessível a empresas de médio porte. Some-se a isso a instabilidade econômica, que eleva riscos e afasta investimentos de longo prazo. O resultado é um círculo vicioso: a indústria perde fôlego e o país perde dinamismo. 

De outro lado, o Brasil dispõe de uma poderosa ferramenta para ajudar a reverter esse quadro: a poupança previdenciária. Os fundos de pensão, que reúnem o esforço de milhares de trabalhadores ao longo de décadas, representam o maior centro de poupança estável e de longo prazo do país. Mais do que volumoso, esse capital é paciente. Ao contrário do capital especulativo, os fundos de pensão trabalham com horizontes de 10, 20 ou 30 anos, porque sua missão é garantir aposentadorias futuras. É exatamente esse horizonte que a indústria brasileira precisa para investir, crescer e se modernizar. 

A equação parece simples: de um lado, um setor produtivo ávido por crédito de longo prazo; de outro, fundos de pensão que buscam aplicações seguras, estáveis e rentáveis. O desafio está em criar as pontes. 

O caminho do meio passa por reformas regulatórias e institucionais. É preciso criar um arcabouço que permita aos fundos ampliar sua participação em investimentos produtivos sem abrir mão da prudência atuarial. Isso implica limites claros de alocação, transparência nos critérios de escolha, fortalecimento da governança e estímulo à profissionalização dos gestores. Veículos específicos, como fundos de investimento em participações (FIPs) de infraestrutura e debêntures incentivadas, já são exemplos de instrumentos capazes de alinhar interesses públicos e privados. Além disso, mecanismos de mitigação de risco - como seguros de crédito, garantias estatais ou participação subordinada do BNDES - poderiam reduzir a assimetria entre a natureza de longo prazo dos projetos e a necessidade de liquidez e segurança dos fundos. 

Outro ponto essencial é a previsibilidade macroeconômica. Nenhum fundo de pensão se engajará em projetos de 20 anos se o ambiente regulatório for instável ou se as regras de previdência mudarem abruptamente. Estabilidade fiscal, marcos regulatórios claros para setores como energia e saneamento e respeito à autonomia dos fundos são condições indispensáveis para mobilizar esses recursos em larga escala. 

Nada disso será eficaz sem transparência e governança sólidas. A credibilidade dos fundos é justamente o que permite que atuem como protagonistas do desenvolvimento sem abrir mão de sua função principal: garantir aposentadorias futuras. Governança robusta, profissionalização da gestão e regras claras são condições essenciais para dar segurança aos participantes e confiança ao mercado. 

O Brasil já demonstrou, em experiências anteriores, que é possível mobilizar recursos previdenciários para grandes projetos produtivos. A participação em empresas de energia e infraestrutura mostrou o potencial de transformar poupança em investimento estratégico. Por isso, o novo desenho precisa unir ousadia e prudência: abrir espaço para o investimento produtivo, mas dentro de limites técnicos, transparentes e sustentáveis. 

O país tem diante de si uma oportunidade rara: transformar a maior fonte de poupança de longo prazo já existente, a previdência complementar, em combustível para o crescimento da indústria e da infraestrutura. Parte da solução já está pronta; falta visão estratégica para conectar esses dois mundos. 

Se conseguirmos aproximar de forma estruturada a indústria e os fundos de pensão, alinhando segurança, rentabilidade e desenvolvimento, daremos um passo decisivo para recolocar a indústria no centro do crescimento econômico. Mais do que guardiões da poupança dos trabalhadores, os fundos podem ser alavancas do futuro: instrumentos de prosperidade, competitividade e inclusão para o Brasil.  

Fonte: Valor (28/10/2025)

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