Gestoras e seguradoras repensam estratégias para compensar perda na alta renda com varejo e planos corporativos
O vento virou para os fundos de previdência privada aberta. Se de janeiro a setembro de 2024 o setor acumulou captação líquida positiva de R$ 32 bilhões, no mesmo período deste ano o saldo ficou negativo em R$ 31,6 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Gestoras e seguradoras não veem recuperação tão cedo e, como alternativa à perda de atratividade para a alta renda após a mudança no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incide sobre a classe, já começam a rever estratégias, aumentando o foco no varejo, na previdência corporativa e no “rouba monte” dos bancos, que ainda concentram a maior parte dos recursos.
“Vamos entrar no portfólio de quem antes não buscava a previdência achando que era para grandes valores, mas o que perdemos pelo IOF não será recuperado”, avalia o presidente da Comissão de Investimentos da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi), Vinicius Marinho da Cruz. “Não há como compensar. E não tem mágica, serão menos clientes com volumes maiores e mais com volumes menores”, resume Marcelo Flora, sócio do BTG Pactual responsável por canais digitais e principal executivo (CEO) da seguradora do grupo.
O decreto do governo tributou com IOF de 5% aportes acima de R$ 300 mil em 2025 e acima de R$ 600 mil em 2026 nos planos do tipo Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). O ano já havia começado fraco, mas parecia reagir em maio quando, no fim daquele mês, veio a mudança. A reação foi rápida. Somente entre junho e setembro, os saques superaram os depósitos em nada menos do que R$ 27,3 bilhões, ainda conforme a Anbima.
Flora, do BTG, observa que foram muitas mudanças regulatórias a partir de 2024, incluindo a taxação dos fundos fechados exclusivos e a restrição aos fundos de previdência familiares com mais de R$ 5 milhões, culminando com as idas e vindas do decreto do IOF - o texto original de maio foi substituído por outro com ajustes em junho, sustado pelo Congresso e revalidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julho. “Quando se adiciona incerteza num ambiente de juro a 15%, vemos a renda fixa isenta crescendo muito de participação no portfólio dos clientes.”
Gabriel Escabin, chefe da área de previdência e seguros do BTG, conta que, entre junho e agosto, teve perda de cerca de 25% na captação média, enquanto o mercado como um todo sofreu com recuos de até 85% e muitas instituições tiveram captação negativa. Victor Bernardes, diretor de vida e previdência da , diz que algumas seguradoras têm até 70% de sua captação bruta concentrada no perfil de cliente impactado pela medida do IOF. “Cerca de 40% da arrecadação do ano acontece no último trimestre, e foi um ano perdido em função das incertezas.”
Para o executivo da , a alta renda deixará de ver a classe como instrumento de eficiência tributária. “O problema não são as saídas de recursos. Os resgates existem sempre e são legítimos. O problema é que entrou muito pouco”, diz. Segundo ele, agora, será preciso fazer um trabalho para que os fundos de previdência sejam usados para construção de patrimônio, não só pela isenção de impostos. O executivo lembra que tradicionalmente os aportes no VGBL são concentrados em altos valores, e agora isso terá de ser revisto, uma mudança de comportamento que leva tempo. Por isso, ele não espera reação no ano que vem e talvez nem em 2027.
Bernardes vê o mercado se voltando às classes B e C, em que, afirma, a é forte, assim como na previdência corporativa, que responde por mais de 10% das reservas da empresa. Dados da FenaPrevi mostram que, da captação bruta do setor, 91% são para planos individuais e 7%, coletivos.
Quando se adiciona incerteza num ambiente de juro a 15%, vemos a renda fixa isenta crescendo muito” — Marcelo Flora
Também na Icatu Seguros os planos empresariais são relevantes, mas a seguradora agora quer difundir o instrumento para pequenas e médias como ferramenta para atração e retenção de profissionais. “Temos mais de 400 grupos econômicos na Icatu, com uma reserva bem relevante em previdência empresarial, mas ainda é muito pequena perto do universo que poderia ser”, diz Henrique Diniz, diretor de produtos de previdência.
Nos planos individuais médios, prossegue ele, há muito o que explorar, já que são cerca de 11 milhões de investidores apenas. A Icatu iniciou neste mês um projeto para qualificar corretores de seguros a orientar clientes em investimentos em previdência privada. “A iniciativa não nasceu por isso, mas ajuda muito a diversificar nossos canais e base de clientes.”
]De acordo com Diniz, a indústria pós-IOF vai olhar mais para o cliente que faz a contribuição mensal para aposentadoria, com recorrência, e visa ao médio e longo prazo de forma a diversificar a carteira e para planejamento familiar, como pagar a faculdade de filhos, por exemplo, beneficiando-se do diferimento fiscal pela tabela regressiva. “Ficou mais clara a importância desse segmento.” Para ele, a jornada agora é de educação. “Temos de reconstruir a visão da previdência junto ao investidor, é um trabalho de médio prazo.”
Marinho, da FenaPrevi, diz que, antes do IOF, o movimento de acumulação já vinha caindo em 2025, num cenário de juros altos e famílias com orçamento mais apertado. Também a concorrência dos produtos incentivados, como debêntures com isenção de Imposto de Renda, comenta, reduziu a entrada de recursos. Relatório da entidade mostra que os aportes totalizaram R$ 111,2 bilhões entre janeiro e agosto de 2025, queda de 15,2% quando comparado ao mesmo intervalo do ano passado. Do montante, 91,5% foram para planos VGBL. “Tem gente pagando o IOF porque ainda vê vantagens, as pessoas não se afastaram totalmente.”
Escabin, do BTG, diz que, por ser uma seguradora nova, tem uma fonte de captação forte via portabilidade. Na média do mercado, a fatia é pequena, girando em torno de 3% a 4% ao ano. “Temos procurado crescer nos planos individuais e na previdência corporativa. Temos serviços voltados ao RH das empresas, e a previdência se insere aí. No geral, nos mantemos otimistas com o crescimento do negócio”, afirma.
Fonte: Valor (23/10/2025)

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