segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Idosos: Estudo avalia como o hábito de ouvir música interfere e reduz o risco de demência; veja descobertas



Uma nova pesquisa conclui que ouvir música regularmente ou tocar um instrumento pode ajudar adultos mais velhos a se protegerem contra o declínio cognitivo

Ouvir música regularmente está associado a um risco menor de desenvolver demência, de acordo com um novo estudo.

No trabalho, publicado em outubro, pesquisadores analisaram dados ao longo de uma década envolvendo mais de dez mil pessoas relativamente saudáveis, com 70 anos ou mais, na Austrália. Pessoas que ouviam música na maior parte dos dias reduziram seu risco de demência em 39% em comparação com quem não ouvia música regularmente, constatou o estudo.

O ASPREE Longitudinal Study of Older Persons acompanhou os participantes para investigar quais fatores estão associados aos riscos de desenvolver várias doenças — e em que medida mudanças no estilo de vida podem fazer diferença.

“Música era uma das áreas em que estávamos interessados”, conta Joanne Ryan, chefe da Unidade de Pesquisa em Neuropsiquiatria Biológica e Demência da Escola de Saúde Pública da Universidade Monash e pesquisadora sênior do novo estudo.

Os pesquisadores coletaram anualmente dados dos participantes e de seus provedores de saúde, e avaliações de função cognitiva foram conduzidas por profissionais treinados.

Eles descobriram que, dos 10.893 participantes, os 7.030 que disseram ouvir música na maior parte dos dias tiveram a maior queda no risco de demência em comparação com pessoas que não ouviam música com tanta frequência. O estudo não especificou o tipo de música.

“Eles também tiveram um risco menor de apresentar um declínio cognitivo mais geral”, explica Joanne. “E também descobrimos que, nesse período, eles tiveram um desempenho melhor — consistentemente melhor — em tarefas de memória e também em um teste global de função cognitiva.”

Joanne ressalta que esse é um estudo observacional e que a pesquisa não pode determinar se ouvir música causou a redução no risco de declínio cognitivo. Pode haver outros fatores associados ao hábito de ouvir música que expliquem a diferença. Mas ela considerou os resultados marcantes.

“Se levarmos nossos achados em conta à luz de outras pesquisas que já foram feitas”, comenta Joanne, “achamos que pode haver um vínculo realmente direto.” Ela aponta o vasto corpo de estudos mostrando que a música pode melhorar o humor e estimular diversas áreas do cérebro, o que beneficia a função cognitiva.

“Eu mesma comecei a ouvir música mais do que ouvia”, conta Joanne. “Eu incentivaria as pessoas a ouvir música, porque se é algo de que elas gostam e também estimula o cérebro, por que não?”

O que acontece no cérebro quando ouvimos música

No Laboratório de Cognição Musical da Universidade Princeton, pesquisadores têm conduzido estudos sobre o que acontece no cérebro das pessoas quando elas ouvem música. Eles descobriram que várias partes do cérebro são ativadas, incluindo áreas motoras, áreas sensoriais, regiões que processam emoções e aquelas envolvidas em imaginar ou divagar. Isso pode ser a chave do poder da música para melhorar a saúde cerebral.

“Uma das coisas que parece ser realmente importante é simplesmente fazer com que todas essas áreas conversem entre si de maneiras significativas”, informa Elizabeth Margulis, diretora do laboratório e pianista treinada, que não participou do novo estudo. “Isso é algo em que a música é excepcionalmente boa.”

Elizabeth destaca que a conclusão do estudo vale tanto para ouvir música quanto para tocá-la. Houve um benefício ligeiramente menor associado a tocar música regularmente — uma redução de 35% no risco de demência — embora os pesquisadores suspeitem que isso se deva ao fato de o grupo de pessoas que tocam música regularmente ser menor que o grupo dos que apenas ouvem.

Uma lição é que não é preciso aprender um instrumento para se beneficiar do engajamento com a música, embora pesquisas já tenham mostrado que fazer aulas pode aumentar a substância cinzenta no cérebro, mesmo em pessoas que não são particularmente habilidosas.

A música também tem uma qualidade transportadora, nota Elizabeth. Se você escuta uma canção que ouviu pela primeira vez em uma certa fase da vida, pode se ver transportado de volta àquele período — especialmente a música que você ouvia na adolescência.

“Essa tende a ser a música que as pessoas mais lembram e à qual associam mais memórias”, diz Elizabeth. Ela acrescenta que a adolescência costuma ser um período em que as pessoas definem quem são, o que dá a essa música um significado especial.

Isso pode ser observado até em pessoas que estão passando por declínio cognitivo ou doenças como Alzheimer.

“Elas podem nem se reconhecer no espelho, não saber onde estão ou como chegaram ali, mas você coloca uma música de quando tinham 14 anos e elas se reconectam com aquele eu que haviam perdido”, destaca o neurocientista e músico Daniel Levitin, que também não participou da nova pesquisa.

De forma anedótica, Elizabeth conta que o efeito parece durar algum tempo mesmo após ouvirem a música. “Elas ficam um pouco mais presentes, um pouco mais capazes de interagir”, nota.

Música como medicina

Levitin escreveu um novo livro, I Heard There Was A Secret Chord: Music As Medicine (Ouvi dizer que havia um acorde secreto: a música como Medicina, em tradução livre), reunindo pesquisas sobre como a música pode ser usada como terapia para questões como depressão, dor e distúrbios neurológicos como Parkinson.

“Ouvir música é neuroprotetor”, afirma Levitin, explicando que isso aumenta a resiliência e protege o cérebro ao criar novas vias neurais. “É um mito que você não produz novos neurônios — ao longo da vida toda, você está criando novas conexões.”

Levitin acrescenta que, embora ouvir músicas do passado possa trazer memórias e conforto, também há benefício em ouvir música nova e se desafiar. Ele também incentiva as pessoas a tocar música.

“Você pode começar a tocar um instrumento em qualquer idade, e não precisa ser o Herbie Hancock”, comenta Levitin. Ele lembra ter dado um teclado para sua avó em seu 80º aniversário e de vê-la praticar quase todos os dias até morrer aos 97 anos. Levitin diz que, para ele, tocar música traz uma alegria imersiva.

“Quando tenho sorte, eu desapareço e a música me toca”, reflete. Mas ele ressalta que simplesmente estar perto de música — seja ouvindo, seja tocando — mostra benefícios. E é algo a que praticamente todos têm acesso. “Isso é o mais bonito”, avalia Elizabeth, sobre como a música é acessível a todos.

Fonte: Estadão e The Washington Post (20/11/2025)

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