quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Idosos: Joyspan, a nova medida da longevidade que valoriza o prazer de estar vivo

 


Mais do que viver muito e com saúde, a gerontóloga americana Kerry Burnight propõe uma revolução na forma como envelhecemos - com propósito, conexões e alegria genuína

Depois do lifespan (expectativa de vida) e do healthspan (anos vividos com saúde), um novo termo começa a ganhar espaço nas discussões sobre longevidade: joyspan. Criado pela especialista em envelhecimento Kerry Burnight, ele propõe que o tempo realmente bem vivido não se mede apenas em anos, mas em alegria. “Medimos quanto tempo vivemos e quão bem funcionamos, mas não quanta alegria e significado experimentamos ao longo do caminho”, analisa.

Kerry, que lecionou medicina geriátrica e gerontologia por quase duas décadas na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, teve a oportunidade de observar de perto pessoas e suas famílias lidando com a velhice. O que mais a impressionou foram as diferenças radicais na forma como os indivíduos vivenciavam seu próprio processo de envelhecimento. “Para alguns, é uma trajetória frustrante, degradante e dolorosa de declínio cada vez maior. Para outros, há um deleite visível, espiritualidade e alegria em viver suas oitava, nona e décima décadas”, conta.

A partir dessas observações, ela concluiu que “uma vida longa — mesmo com saúde — não significa muito se você não sente prazer em vivê-la”. É aí que entra o joyspan. “O conceito reúne a ciência do envelhecimento com a arte de viver plenamente. Trata-se de acordar com curiosidade, amor e propósito, mesmo diante das mudanças”, explica. E, vale ressaltar que alegria não é simplesmente sentir-se feliz. “É a experiência de contentamento, gratidão e significado, independentemente das circunstâncias externas”.

Os quatro pilares fundamentais

No livro Joyspan: The Art and Science of Thriving in Life’s Second Half (Joyspan: A arte e a ciência de prosperar na segunda metade da vida, em tradução livre), recém-lançado nos Estados Unidos, a autora identifica quatro pilares essenciais que sustentam uma vida longa e plena: crescer, adaptar, doar e conectar. “Cada um desses elementos é inegociável para o bem-estar na longevidade, e qualquer pessoa pode se aprimorar em todos eles”, diz.

Confira o que cada um contempla, segundo Kerry:

  • Crescer significa manter viva a curiosidade, o desejo de continuar aprendendo e se desenvolvendo como pessoa.
  • Adaptar costuma ser o mais desafiador. “À medida que envelhecemos, a vida nos traz perdas e transições - problemas de saúde, aposentadoria, pessoas queridas que se vão. Pode ser tentador nos apegarmos ao que foi”, reconhece. “Mas a capacidade de se curvar sem quebrar é o que nos permite seguir em frente”.
  • Doar envolve oferecer tempo, atenção ou paciência. “Quando trocamos o pensamento ‘como podem me ajudar?’ por ‘como posso ajudar?’, abrimos espaço para propósito e conexão. E todos têm algo a oferecer”.
  • Conectar é considerado o antídoto contra o isolamento. É a dedicação para construir novos relacionamentos e fortalecer os laços aos já existentes.

Duas mentalidades

Independentemente da idade, a especialista acredita que cada pessoa tende encarar o envelhecimento de uma das seguintes formas: como declínio ou como crescimento contínuo.

Segundo Karry, “a primeira acredita que tudo piora à medida que envelhecemos e depois morremos”. Infelizmente, essa é a mais prevalente. Por outro lado, a segunda perspectiva “vê o envelhecimento como um período de progresso contínuo em se tornar quem você é”, reconhecendo não apenas os desafios e perdas, mas também as oportunidades e os pontos fortes que surgem com o tempo.

Em seu livro, ela relata a história de duas vizinhas que simbolizam essas diferentes mentalidades. Dee, de 81 anos, vê a vida como uma sequência de perdas. “Eu a vi na varanda enquanto passeava com os cachorros, e ela me chamou para me contar sobre suas mãos doloridas, as ‘bobagens’ que passam na TV e como o calor a faz se sentir mal. Como vê sua vida como uma queda livre em direção ao abismo, Dee parou de participar ativamente dela: não busca mais se dedicar aos seus antigos interesses, entrar em contato com amigos ou se desafiar. As longas horas passadas em sua poltrona enfraqueceram seriamente suas pernas, o que ela atribui à maldição da velhice”, conta.

Já Joan, 82, é o oposto. Caminha todos os dias, se interessa por novas plantas, livros, exposições. Quando a filha de Kerry foi diagnosticada com um tumor cerebral, Joan percebeu de imediato a sua tristeza, ofereceu escuta, acolhimento e ideias de como lidar com o “novo normal”. “Certa vez, disse a Joan o quanto admiro sua atitude, e ela riu, dizendo: “Acho a vida fascinante. Ainda estou crescendo agora, assim como em todas as outras fases”, conta.

Um exemplo de sucesso

Betty, mãe de Kerry, também é uma fonte de inspiração e tornou-se uma espécie de “case vivo” do conceito de joyspan. Aos 96 anos, é presença ativa nas redes sociais da especialista e inspira seguidores com postagens sobre sua rotina e reflexões. “Ela é vibrante, ri com facilidade e ama profundamente. Mantém a curiosidade pelo mundo, se dedica aos outros, se conecta com as pessoas diariamente e encara o envelhecimento como um aprofundamento da vida”, ressalta.

Mas nem sempre foi assim. A transformação começou quando, no início dos seus 80 anos, decidiu aplicar os princípios que a própria filha estudava. “O que ela ensina às gerações mais jovens é que a alegria não é uma questão de sorte ou genética; é uma prática para a vida toda que exige esforço”, destaca Karry. “Sua vida demonstra que, quando investimos em relacionamentos, generosidade e gratidão, não apenas vivemos mais e com mais saúde, mas também podemos desfrutar plenamente de uma vida longa. Existem milhões de pessoas ao redor do mundo que estão prosperando em termos de longevidade, e é isso que eu desejo para todos”, conclui.

Fonte: Estadão (15/11/2025)

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