Especialistas veem menos concentração em um único produto e mais diversificação da reserva de longo prazo
Tesouro RendA+ acelera o crescimento.
Viver mais deixou de ser uma projeção para se tornar uma realidade. Com a expectativa de vida aumentando e um sistema previdenciário pressionado pelo envelhecimento da população, depender exclusivamente do INSS tende a ser cada vez menos suficiente para manter o padrão de renda depois de parar de trabalhar. Nesse cenário, construir uma reserva para o futuro tornou-se uma necessidade — ainda que o caminho para isso esteja mudando.
Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) mostram que a diferença entre as aplicações e os resgates de planos de previdência (PGBL e VGBL) ficou positiva em R$ 6,4 bilhões no primeiro semestre, cerca de 2% abaixo do registrado no mesmo período de 2025. Apesar desse recuo, o resultado representa uma melhora em relação ao acumulado até maio, quando o saldo positivo de R$ 6,8 bilhões era 29% inferior ao dos cinco primeiros meses do ano passado. Ainda assim, os números continuam indicando perda de ritmo nas novas contribuições do segmento.
Para especialistas, os dados sinalizam uma mudança no planejamento financeiro para a aposentadoria. Juros elevados, mudanças tributárias, orçamento doméstico mais apertado e a ampliação das alternativas de investimento de longo prazo estão levando muitos brasileiros a diversificar a estratégia, combinando diferentes produtos em vez de concentrar toda a reserva na previdência privada.
Segundo Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil Wealth Management, parte dos investidores passou a direcionar novos recursos para títulos públicos, renda fixa e aplicações com maior liquidez, enquanto outras famílias simplesmente reduziram o ritmo das contribuições diante do aumento de suas despesas e do comprometimento de parte da renda para pagamento de empréstimos.
Mizael Machado Vaz, sócio da Itajubá Investimentos, faz leitura semelhante. Para ele, os números da Fenaprevi mostram desaceleração dos aportes, mas não da formação de patrimônio. "Pode estar ocorrendo uma migração para outros investimentos de longo prazo, como o Tesouro RendA+ e instrumentos de renda fixa incentivada, mas ainda é cedo para afirmar que exista uma mudança estrutural no comportamento do investidor."
A própria indústria reforça essa interpretação. Sandro Costa, superintendente de Produtos da Brasilprev, atribui parte da redução das contribuições às mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que passou a incidir em grandes aportes em VGBL, medida que incentivou investidores de alta renda a reorganizar o planejamento das aplicações.
Para a Fenaprevi, o impacto do IOF foi o maior gatilho para a redução dos aportes nos planos de previdência. "Um ano após a tributação do IOF entrar em vigor podemos afirmar que a queda na captação bruta, de fato, é muito maior se considerarmos a trajetória de crescimento consistente que o setor havia conquistado, e que foi interrompida pela imposição da medida", afirmou o presidente da Fenaprevi, Edson Franco.
Rafael Barroso, superintendente sênior da Bradesco Vida e Previdência, no entanto, destaca que o patrimônio da previdência aberta continua crescendo, sinal de que os recursos permanecem direcionados para o longo prazo, ainda que distribuídos de maneira diferente entre os produtos.
Um cardápio maior para a aposentadoria
Até poucos anos atrás, os planos de previdência privada praticamente monopolizavam o planejamento financeiro para a aposentadoria. Hoje, o investidor dispõe de um conjunto maior de instrumentos, com características complementares.
Os fundos de investimento tradicionais oferecem ampla variedade de estratégias e maior liquidez, mas sofrem a incidência do come-cotas e, na maioria dos casos, têm alíquota mínima de 15% de Imposto de Renda. A rentabilidade varia com a estratégia do gestor e do indicador de referência (benchmark), como a Selic ou Ibovespa, por exemplo.
Já os planos PGBL e VGBL continuam concentrando vantagens tributárias importantes para quem investe no longo prazo. Não há cobrança de come-cotas, a tributação pode cair para 10% após dez anos na tabela regressiva e, em regra, os recursos não passam por inventário.
O PGBL ainda permite deduzir da base de cálculo do Imposto de Renda contribuições equivalentes a até 12% da renda tributável anual para quem faz a declaração completa. No VGBL, embora não exista essa dedução, o imposto incide apenas sobre os rendimentos no momento do resgate. A rentabilidade dos planos também depende da estratégia dos administradores dos planos.
Mais recentemente, o Tesouro RendA+, do Tesouro Direto, passou a ocupar espaço na decisão de planejamento para aposentadoria. Lançado em 2023, o título público foi desenhado especificamente para formar uma renda complementar para a aposentadoria. O investidor realiza aportes ao longo da fase de acumulação e, no vencimento, recebe pagamentos mensais corrigidos pela inflação durante 20 anos.
A aceitação do produto vem crescendo rapidamente. Entre junho de 2025 e junho de 2026, as compras saltaram 92%, passando de R$ 355 milhões para R$ 693 milhões. Em março deste ano, os aportes atingiram o recorde de R$ 967,3 milhões. Ao final do primeiro semestre, o volume total (chamado estoque) desses títulos somava quase R$ 15 bilhões, conforme dados do Tesouro Nacional.
Para Barcellos, da Azimut, o RendA+ concorre com a previdência privada apenas parcialmente. Embora tenha o mesmo objetivo de formar renda futura, ele acredita que o título deve funcionar mais como complemento do que substituto dos planos PGBL e VGBL.
Vaz, da Itajubá, concorda. Segundo ele, a escolha deixou de ser excludente. O investidor pode aproveitar as vantagens tributárias da previdência privada e, ao mesmo tempo, utilizar o Tesouro RendA+ para diversificar a carteira destinada à aposentadoria.
A própria evolução dos produtos sugere que essa combinação está ganhando espaço. Entre os maiores fundos de investimento de previdência do país, apenas dois registraram queda do patrimônio líquido na comparação anual (veja quadro no final da matéria). Ao mesmo tempo, três tiveram queda na captação, indicando uma redistribuição dos recursos dentro da indústria, e não um esvaziamento do segmento.
Para Barroso, do Bradesco, o mais importante é que o investidor mantenha uma estratégia consistente de longo prazo, independentemente do instrumento escolhido. Na mesma linha, Costa, da Brasilprev, afirma que o crescimento das alternativas amplia as possibilidades de planejamento financeiro, mas não reduz a importância da previdência privada.
No fim das contas, a discussão já não é apenas escolher entre previdência privada, Tesouro RendA+, fundos ou outros investimentos. Com brasileiros vivendo cada vez mais e um sistema previdenciário oficial que tende a oferecer uma cobertura proporcionalmente menor no futuro, a prioridade é começar a construir uma reserva o quanto antes — mesmo que ela seja formada por diferentes produtos ao longo do caminho.
Fonte: Valor Investe (13/08/2026)
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