quinta-feira, 24 de abril de 2025

Mundo: Fundo de Pensão de Quebec, CDPQ, mira investir em mais energia, transporte e telecom aqui no Brasil



Após compra de R$ 9 bi, fundo de pensão canadense diz que Brasil é destino ‘claríssimo’

Após fechar a compra das linhas de transmissão da Equatorial, em uma operação avaliada em R$ 9,4 bilhões, o fundo de pensão canadense CDPQ (Caisse de Dépôt et Placement du Québec) estuda novos ativos para expandir no Brasil. Além de energia, o grupo avalia investimentos em rodovias, mobilidade urbana, data centers e possivelmente saneamento básico, afirmou, ao Valor, Eduardo Farhat, executivo-chefe que lidera as operações do fundo no Brasil.

“O Brasil é um destino claríssimo para a CDPQ. A gente tem constantemente feito investimentos no país. E a tendência é continuar fazendo mais coisas. O Brasil tem um papel importante na diversificação da carteira da CDPQ. É um país grande e que é pouco correlacionado com as regiões onde o grupo tem as maiores alocações de capital, que são a América do Norte e Europa”, disse ele. Hoje, o fundo tem sob gestão US$ 329 bilhões globalmente.

Com a aquisição anunciada no início de abril, a Verene Energia, empresa de linhas de transmissão do fundo, deverá se tornar uma das grandes companhias do setor no Brasil, e a ideia é seguir ampliando o negócio. “Nosso desejo é continuar crescendo, mas com responsabilidade”, afirmou.

Farhat disse que o grupo sempre estuda os leilões de novas linhas, mas ele também acredita que as oportunidades de aquisições deverão seguir aparecendo no país. “Esse é um mercado razoavelmente líquido. Quando uma empresa quer reciclar capital ou baixar seu nível de endividamento, ativos no setor de transmissão funcionam muito bem. Temos visto a cada ano diversas transações, algumas menores, outras maiores.”

O segmento de geração renovável também interessa muito ao fundo, porém, hoje incertezas regulatórias travam um investimento no mercado brasileiro. “Hoje tem alguns ruídos que a gente precisa entender, até para poder precificar adequadamente. A questão ‘curtailment’ [cortes de geração determinados pelo ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico], por exemplo, é uma variável muito difícil de se lidar, até porque é muito randômica. Então precisamos entender o que vai acontecer nesse setor antes de a gente se posicionar.”

O setor de concessões de rodovias, que hoje vive uma onda de novos leilões, também tem chamado a atenção da CDPQ. Porém, o executivo disse que o grupo tende a buscar sócios com capacidade de operação antes de entrar no segmento no país.

O fundo tem analisando ainda leilões de mobilidade urbana, uma área em que globalmente tem forte atuação. “É um setor que a gente gosta, porque é de muito longo prazo. São retornos mais modestos, mas são bem regulados, têm previsibilidade.”

Questionado sobre sua avaliação da regulação do setor em São Paulo - onde, segundo fontes, o grupo tem estudado projetos que deverão ser licitados neste ano -, Farhat disse ver avanços. “O regulador conseguiu aprender com os leilões passados e ver que tipo de problemas foram criados. Cada vez mais a regulação está caminhando numa direção positiva.”

Não vamos ‘repensar a vida’ com base em eventos de curto prazo. Mas o mundo não será o mesmo” — Eduardo Farhat

O segmento de telecomunicações também poderá ser alvo de novos investimentos do fundo, afirmou. Hoje, a CDPQ já tem uma empresa de fibra óptica, a FiBrasil, que Farhat avalia ser uma consolidadora do mercado. Porém, atualmente o grupo mira outros nichos, como o de data centers.

No caso deste segmento, Farhat avalia que a principal dificuldade tem sido encontrar um ativo com maior previsibilidade em relação ao fluxo de caixa, para que se enquadre no perfil de um investimento de infraestrutura. “O que a gente tem visto na grande maioria das oportunidades em data centers foi uma expectativa de crescimento muito grande, mas com a expansão ainda não capturada. Então pode ser que eu não seja o investidor ideal. Ou pode ser que a gente entre em um segundo momento, em que o mercado esteja um pouco mais maduro”, afirmou.

Em relação às concessões de saneamento, outro mercado que a CDPQ vem estudando, o executivo afirmou que o grupo analisa todos os grandes projetos, mas que ainda não encontrou o sócio ideal para entrar no setor. Questionado sobre como enxerga os avanços da regulação de água e esgoto no país, após o novo marco legal de 2020, Farhat disse que por enquanto tem apenas uma “ótica externa” do negócio, mas que vê avanços relevantes.

Em relação às turbulências globais, o executivo avalia que ainda é cedo para entender os impactos, mas afirma que a CDPQ tem uma visão de longo prazo, e que não deverá haver mudanças de direcionamento em meio a essa incerteza.

“É difícil de acreditar que alguém saiba o que vai acontecer no curto e médio prazo. Existe uma incerteza grande. Isso faz com que a gente mantenha as nossas linhas originais, mas sem açodamento. A gente não deve ‘repensar a vida’ com base em eventos de curto prazo. Mas o mundo nunca mais vai ser o mesmo, né? A gente vai ter um novo rearranjo, que não necessariamente é pior, só é novo. A incerteza causa uma perturbação de curto prazo. Como a gente investe com olhar de muito longo prazo, não faz tanta diferença. A gente prefere manter o nosso norte: transações muito sólidas, foco na indexação de inflação e uma política de ESG [sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança corporativa] que continua fortíssima.”

Fonte: Valor (22/04/2025)


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