quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Comportamento: A demência vai assumir uma importância enorme no Brasil como causa de incapacidade, diz pesquisadora

 


Em entrevista ao Estadão, diretora do banco de cérebros da USP, Claudia Suemoto, fala sobre avanços e limitações das pesquisas sobre a demência

O que banco da USP com mais de 5 mil cérebros revela sobre os casos de demência no Brasil.

Entrevista com Claudia Suemoto, Diretora do banco de cérebros da USP e professora da FMUSP.

Diretora do banco de cérebros da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o maior acervo da América Latina, com mais de 5 mil encéfalos, a médica geriatra Claudia Suemoto é referência nos estudos de demência no Brasil. O biobanco vem conduzindo pesquisas sobre as causas e características da demência no País e tem, entre suas descobertas, achados sobre a área do cérebro onde se inicia o acúmulo de proteínas associadas à condição e sobre a prevalência de diferentes tipos de demência entre a população brasileira.

Na direção do biobanco desde 2022, Claudia e colegas se debruçam agora sobre outras frentes de trabalho. O grupo acabou de receber um financiamento internacional de U$ 1,2 milhão (R$ 6,8 milhões) para ampliar o acervo do banco e pesquisar possíveis causas genéticas para a demência.

Outro financiamento, este vindo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), tem como objetivo estudar o cérebro de pessoas com mais de 90 anos para entender quais fatores desencadeiam os sintomas das demências e quais mecanismos protegem o indivíduo, permitindo que, mesmo com o acúmulo de proteínas associadas à condição, mantenha suas capacidades cognitivas.

Claudia é formada em Medicina pela USP e fez seu doutorado na mesma instituição, onde hoje é professora. Tem mestrado e pós-doutorado pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e acumula diversos prêmios ao longo da carreira. Em 2016, ganhou o Para Mulheres na Ciência, promovido pela L’Oreal, Unesco e Academia Brasileira de Ciências. Em 2022, recebeu o prêmio Ewald W. Busse Research Award in the Biomedical Sciences por sua contribuição para os estudos em envelhecimento.

Em entrevista ao Estadão, a especialista detalha as principais descobertas do banco de cérebros da USP e fala sobre os avanços da ciência nessa área, os limites das teorias atuais sobre Alzheimer e dos mais recentes tratamentos e as estratégias de prevenção que já podem ser aplicadas com o conhecimento que temos hoje.

Para ela, a descoberta de um medicamento eficaz contra o avanço da condição esbarra na complexidade das causas, ainda não completamente compreendidas. Ela destaca que pesquisas do biobanco mostraram que, especialmente entre idosos, a demência costuma ter múltiplas causas, o que dificulta que uma única terapia resolva o problema.

O tema ganhou destaque nos últimos anos, com a aprovação das primeiras terapias anti-amiloide, que foram lançadas cercadas de controvérsias. Embora seja a primeira classe de medicamentos que atua diretamente na limpeza das placas de proteína beta-amiloide no cérebro, os benefícios clínicos são modestos e há risco de efeitos colaterais graves.

Para Claudia, embora ainda tenhamos muitas perguntas sem resposta, as pesquisas científicas sobre a demência vêm avançando de forma acelerada. “Eu sou extremamente otimista, eu acho que a partir do momento que a gente entender o que faz com que essas proteínas se acumulem e qual a ordem certa, a gente vai chegar a uma melhor resposta.” Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Qual é a importância de ter um banco de cérebros tão diverso como o da USP para as pesquisas sobre demência?

Primeiro, é importante para a gente tentar entender o contexto da demência observando o que acontece no Brasil. A gente sabe que quanto mais a gente estuda, mais proteção a gente tem contra os sintomas da demência. A gente chama isso de reserva cognitiva. É um fato. Mas essas evidências anteriormente vinham de países ricos, onde a média de escolaridade é de 12 anos nos Estados Unidos e de 16 anos na Europa, por exemplo. A nossa média de escolaridade aqui no banco de cérebros é de apenas quatro anos. E (fomos pesquisar) se ter poucos anos de escolaridade confere alguma proteção em relação a demência. Descobrimos que sim. Em relação às pessoas que nunca estudaram, que, na nossa coleção, são 20% de analfabetos, ter quatro anos já confere certa proteção.

Outra coisa: nós temos muitos encéfalos de pessoas com cognição normal. Isso é muito importante pra gente entender como a doença de Alzheimer, por exemplo, começa. Uma pesquisa em desenvolvimento pela pesquisadora Renata Leite mostra que tem pessoas no nosso banco com 35 anos, 30 anos, já com alguns sinais de depósitos de proteínas relacionados à doença de Alzheimer. Isso mapeia para a gente quando é o início, e é um chamado para a prevenção precoce.

Pelo fato de a gente ter muitos encéfalos com cognição normal, a pesquisadora Lea Grinberg, que fundou o banco e hoje está na Mayo Clinic (EUA), começou a olhar onde a doença de Alzheimer começa, e percebeu depósitos de proteína tau, que é uma das proteínas relacionadas ao Alzheimer, no tronco cerebral antes de ter acometimento do hipocampo (área do cérebro responsável pela formação e consolidação de novas memórias). Essa pesquisa redefiniu onde a doença começa e tem implicações clínicas. A gente sabia que muitas pessoas têm alterações de sono e depressão alguns anos antes de ter demência, e a gente não entendia muito bem. A gente achava que era fator de risco. Mas se você começa a ter depressão e alterações de sono na velhice, provavelmente já pode ser algum sinal de doença degenerativa nessas regiões. Então tem muita gente tentando estudar essas regiões do tronco cerebral para avaliar métodos diagnósticos específicos para essa região, tentando diagnosticar pacientes mais jovens com a doença pré-clínica no começo, que talvez sejam alvos mais eficientes para a terapia.

Outra coisa que eu acho muito importante em termos de descoberta são as causas de demência no Brasil. A gente sabe que a principal causa de demência é a doença de Alzheimer. Nos países ricos, de 60 a 80% dos casos são demência de Alzheimer. Aqui também é a principal causa, mas é relativamente menos importante, com 50% dos casos. Isso porque a gente tem uma segunda causa bastante comum, mais prevalente provavelmente em países de baixa e média renda, que é a demência vascular. E ela é prevenível porque a gente sabe 100% a causa, que é pressão alta, diabetes, colesterol alto, obesidade.

E a gente tem no nosso banco uma diversidade étnica que a gente não tem fora: 31% dos nossos casos são de indivíduos que a família identificou como preto ou pardo. A doença de Alzheimer é relativamente mais comum em indivíduos reportados como brancos, e a demência vascular é mais comum em indivíduos pretos e pardos.

Falando sobre o futuro, quais pesquisas vocês estão fazendo agora? Quais são as principais frentes?

A gente está na era de classificar as doenças, então eu vejo uma pessoa com demência, eu coloco na caixinha do Alzheimer, eu vejo outra pessoa com demência, eu coloco na caixinha da doença de Lewy. Mas a gente mostrou aqui, em mais de um trabalho, que, principalmente em pessoas mais velhas, é mais comum que ela tenha duas, três, quatro causas de demência. Isso tem implicações clínicas porque, numa era que eu vou lá e removo uma proteína específica, por exemplo, a proteína beta-amiloide, eu resolvi talvez só parte do problema. Então a co-patologia traz para a mesa a complexidade do tratamento. Então, provavelmente um tratamento, principalmente de uma pessoa mais velha com doença de Alzheimer, vai envolver várias drogas para diferentes causas, porque é muito comum que as causas se associem.

Vocês acabaram de receber um financiamento substancial internacional. Poderia falar um pouco sobre essa pesquisa?

Estamos com um projeto que está sendo financiado pela Alzheimer’s Association, que é a Associação Americana de Alzheimer. É um grant substancial que chama Capacity Building in International Dementia Research, que foi dado para dois pesquisadores de países de baixa e média renda, e a ideia é melhorar a nossa capacitação de pesquisa. É um grant de U$ 1.250.000 (R$ 6,8 milhões) por cinco anos, e a ideia é que a gente aumente nossa coleção de cérebros para 6 mil e que também faça análise genética desses casos. Então, a gente vai conseguir entender melhor, com mais casos, tudo isso que a gente conversou, outros fatores de risco e causas de demência, mas também vai entender as causas genéticas.

A gente tem alguns estudos também, principalmente em indivíduos brancos, mostrando quais são as causas genéticas das demências, tanto Alzheimer quanto outras. E toda vez que a gente tenta transpor esse perfil genético para populações mais miscigenadas, ele não funciona bem. Então, é muito importante que a gente entenda causas genéticas específicas em populações específicas.

A gente também recebeu um financiamento agora da Fapesp para estudar as pessoas que faleceram com 90 anos ou mais. Morrer com 90 anos ou mais no Brasil já é totalmente fora da curva e a gente quer entender, do ponto de vista cerebral, como essas pessoas estavam, se têm ou não neuropatologia, se têm ou não sintomas, como é que a pessoa pode estar lotada de patologia, não ter nenhum sintoma, e quem são essas pessoas que têm 90 anos ou mais e morrem com o cérebro limpo. A gente tem todas essas perguntas que eu acho que são extremamente importantes para entender o desenvolvimento cerebral, principalmente desenvolvimento cerebral saudável.

E essa pesquisa já foi iniciada? Quais os próximos passos?

Nós temos mais de 400 pessoas com mais de 90 anos no banco que morreram desde 2004 (quando o biobanco foi criado). A gente acabou de publicar quem são essas pessoas. Infelizmente, morrer com 90 anos ou mais e vir para esse banco (significa que) são normalmente pessoas com incapacidade funcional e demência. Das pessoas que vieram para cá, apenas duas das 400 eram totalmente independentes para atividades instrumentais mais complexas de vida diária e quase 60% tinha demência. Agora o próximo passo é fazer a neuropatologia desses casos. A gente já tem cerca de 200 analisados, falta metade ainda.

E quando a gente deve ter os primeiros resultados?

Esse financiamento da Fapesp é de dois anos, então devemos ter os resultados em 2027.

Tivemos uma certa decepção com os resultados das medicações mais recentes lançadas para Alzheimer. Apesar de limparem as proteínas beta-amiloide do cérebro, não costumam ter um resultado significativo na condição do paciente. Qual é o maior desafio atual de estudar Alzheimer e demências no geral e por que é tão difícil encontrar um tratamento efetivo para a doença?

Eu acho que existe a ideia de que nós estamos estudando muito e temos muitas decepções, mas o Alzheimer é uma doença nova, ela foi descrita há pouco mais de cem anos, diferentemente de outras doenças que estão aí, como a doença cardiovascular, infarto. E nós estamos construindo tudo que a gente conhece perante o paradigma que Alois Alzheimer descobriu lá atrás, em 1906. Aqui, a doença é secundária a duas proteínas, a beta-amiloide e a tau, mas a gente não entende bem o que dá o trigger (gatilho) para essas proteínas se acumularem. E eu acho que essa é a grande descoberta.

Tem também um paradigma de que primeiro a gente acumula a proteína beta-amiloide, depois a gente acumula a proteína tau, mas a gente teve essa semana uma discussão aqui, com todos os neuropatologistas, que a gente vê que tem 30% dos casos que têm tau antes da beta-amiloide, então a gente não entende exatamente a ordem e o que inicia esse processo.

Até recentemente a gente não media essa doença em pessoas vivas. A gente fala muito de tratamento, mas a grande revolução dos últimos cinco, dez anos é você diagnosticar doença de Alzheimer em pessoas vivas. A gente está falando de exame de líquor, que foi o que realmente começou, depois medicina nuclear, com o PET amiloide e o PET tau e, mais recentemente, biomarcadores sanguíneos. Então, é toda uma revolução muito recente.

Eu sou extremamente otimista, eu acho que a partir do momento que a gente entender o que faz com que essas proteínas se acumulem e qual a ordem certa, a gente vai chegar a uma melhor resposta. Essas drogas novas, a terapia anti-amiloide, só foi possível ter algum resultado, mesmo que modesto, porque a gente conseguiu identificar pessoas com doença muito inicial.

Há especialistas que criticam a teoria da proteína beta-amiloide como principal para explicar o Alzheimer e falam sobre o processo de inflamação como gatilho para a doença. Como está essa discussão hoje?

Que a inflamação está envolvida no processo, ninguém tem dúvida. Uma série de pesquisadores acha que, para você sair de beta-amiloide e começar a ter disseminação de tau, você precisa de neuroinflamação ativada de uma maneira errônea, vamos dizer assim. Tem gente que acredita que o pontapé inicial vem de uma infecção viral. Começou a se falar muito de herpes-zoster desencadeando essa inflamação que desencadearia a beta-amiloide. Então, que a inflamação está envolvida, é bem conhecido, onde ela entra é que seja talvez a maior pergunta. Em termos de estado da arte, a gente está começando a entender a neuroinflamação.

Mas a gente ainda não tem uma resposta, por exemplo, de por que que esses medicamentos que fazem essa limpeza de beta-amiloide no cérebro não têm o benefício clínico esperado, certo?

A gente sabe que esse medicação limpa ou diminui muito a carga amiloide e que essa carga amiloide parece se refletir na diminuição de proteína tau em alguns casos. Então isso, de certa forma, assina embaixo dessa teoria de que a beta-amiloide vem antes. A droga não ataca a proteína tau, mas ela acaba diminuindo também, em menor quantidade. Existe uma melhora clínica, só que ela não é substancial. Ela é estatisticamente significativa, mas, se eu avalio um paciente individual, a maior parte de nós não consegue perceber uma grande diferença. O grande problema é que o medicamento é para uma fase da doença em que os sintomas evoluem muito lentamente, então você não vai ver uma grande diferença no período de um ano e meio. E outra coisa que piora muito a aceitação dessas drogas é que elas têm muito efeito colateral.

Muitas vezes ficamos focados no que ainda não sabemos da doença, mas temos já algumas descobertas sobre como reduzir o risco de demência. Poderia detalhar isso?

A população está envelhecendo e, com isso, o tema ganhou destaque. Todo mundo conhece alguém que tenha demência muito perto porque, com o envelhecimento, que é o principal fator de risco para a demência, você acaba dobrando a frequência da doença a cada cinco anos. Então, você tem 3% de demência com 65 anos. Mas no grupo de pessoas com 90 anos, 50% tem (demência). Então isso traz um alarme.

Nos países ricos, em que a população é mais envelhecida, a demência já é a principal causa de incapacidade e perda de autonomia. Para nós, é a décima causa, mas é uma questão de tempo (para acontecer isso aqui), porque a gente está envelhecendo muito rápido. Demência vai assumir uma importância enorme, não vai ser só comum, vai ser uma causa importante de incapacidade.

Dito isso, a gente não sabe muita coisa. A gente não entende como começa, como continua e o que faz ou não parar o processo. Mas algumas coisas a gente já sabe. Primeiro, a doença começa cedo. E quando a gente tem uma doença que se manifesta na velhice, a gente começa a se preocupar com ela quando a gente fica velho. Mas não é isso. Se você quiser prevenir, eu tenho que começar a prevenir cedo. O principal fator de risco no Brasil é a baixa escolaridade. É um fator de risco que começa na infância porque é uma janela superimportante de produção, diversidade e riqueza de neurônios. Você pode ter acúmulo de proteína, mas você não manifesta porque tem essa reserva cognitiva (formada na infância).

Outros fatores superimportantes de meia-idade são pressão alta, que é um fator importantíssimo no Brasil, diabetes, colesterol alto, obesidade, inatividade física, consumo excessivo de álcool, tabagismo e perdas sensoriais. Perda auditiva na meia-idade, perda visual na velhice, todas elas contribuem para o desenvolvimento de demência. Então, embora a gente não entenda o processo como um todo, há algumas pistas de como moldar o nosso estilo de vida para não ter determinados fatores de risco. E acho que isso é importantíssimo do ponto de vista de saúde pública.

Fonte: Estadão (09/08/2025)

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