Pesquisa americana indica que eliminar hipertensão, diabetes e tabagismo desde a meia-idade reduz o risco da condição
Controlar três fatores de risco relacionados à saúde vascular desde a meia-idade pode ser decisivo não só para prevenir infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), mas também para reduzir o risco de demência em uma parcela significativa da população. É o que sugere uma pesquisa publicada no periódico científico JAMA Neurology no último mês de junho.
A pesquisa calculou que entre 22% e 44% dos casos de demência diagnosticados antes dos 80 anos poderiam ser evitados se hipertensão arterial, diabetes e tabagismo fossem eliminados, o que reforça a importância de políticas de prevenção, já que os três fatores de risco são modificáveis com a adoção de um estilo de vida mais saudável e com o tratamento de doenças crônicas.
O trabalho se baseia na coorte Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC), conduzida nos Estados Unidos com 12.280 adultos acompanhados por até 33 anos (entre 1987 e 2020). Os pesquisadores analisaram a presença dos três fatores de risco em diferentes faixas etárias — 45 a 54 anos, 55 a 64 anos e 65 a 74 anos — e calcularam a fração atribuível populacional (PAF), uma medida que estima o percentual de casos de uma doença que poderiam ser evitados se determinado fator de risco fosse eliminado da população.
Os resultados revelaram que o impacto dos fatores vasculares sobre o risco de demência aumenta conforme a idade: na faixa de 45 a 54 anos, 21,8% dos casos foram atribuídos a pelo menos um dos três fatores de risco; entre 55 e 64 anos, esse percentual subiu para 26,4%; e entre 65 e 74 anos, chegou a 44%.
Hipertensão, diabetes e tabagismo já apareceram em estudos anteriores como fatores de risco para a demência. A diferença é que, na mais recente pesquisa, as estimativas de fração atribuível populacional (PAF) para os três fatores de risco vasculares analisados foram bem mais altas do que em trabalhos prévios.
Um dos mais importantes estudos sobre o tema, o da Comissão Lancet de 2024, estimou uma PAF de 6% para esses fatores combinados. A diferença do mais recente estudo se deve, segundo os pesquisadores, ao uso de uma abordagem metodológica que leva em conta a interação e a co-ocorrência entre os fatores de risco, o que estudos anteriores geralmente não consideraram.
Uma outra diferença importante vem da análise por faixa etária. Embora muitos trabalhos anteriores indiquem que o impacto da hipertensão e do diabetes tende a cair após os 65 anos, os autores encontraram PAFs elevadas no grupo entre 65 e 74 anos.
Isso pode estar relacionado tanto ao uso de diretrizes mais recentes para diagnóstico de pressão alta, que ampliam o número de pessoas classificadas como hipertensas, quanto ao fato de que as análises deste estudo se limitaram à demência diagnosticada antes dos 80 anos, período em que o impacto dos fatores vasculares parece ser mais relevante.
Para casos diagnosticados acima dos 80 anos, a contribuição estimada desses fatores foi bem menor: variou de 2% a 8%. A hipótese dos cientistas é que, em pessoas muito idosas, o alto número de comorbidades e a diversidade de causas neuropatológicas tornam mais difícil isolar um único fator como responsável pelo surgimento da doença.
Estudo robusto, mas com limitações
Para neurologistas brasileiros ouvidos pelo Estadão e que não participaram do estudo, a metodologia da pesquisa é sólida e robusta, mas há limitações na interpretação dos achados.
Para Diogo Haddad, head do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, são pontos fortes da pesquisa a amostra grande de participantes (mais de 12 mil pessoas) e os cálculos da PAF por faixa etária. “Isso dá um peso interessante porque eles estudam por subgrupos”, diz.
Para Álvaro Pentagna, neurologista do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or, o estudo apresenta uma metodologia sólida e consegue mensurar o quão importantes são esses três fatores de risco para o desenvolvimento da demência. “Hipertensão, diabetes e tabagismo são fatores de risco críticos para doença cerebrovascular, entao é bem factível que esses três fatores, por si só, sejam tão importantes”, destaca.
Embora a relevância desses três fatores de risco para o desenvolvimento da demência seja incontestável, Haddad chama atenção para algumas limitações do estudo, como o fato de os pesquisadores não terem feito análises considerando outras variáveis presentes na amostra de participantes, como nível de escolaridade, sedentarismo e obesidade, que também são importantes para medir o risco de neuropatologias.
Ele também destaca que não se deve considerar esses resultados aplicáveis a toda população global. “Os achados estão baseados em grandes centros americanos, com participantes específicos. É difícil extrapolar isso pra outras populações. É importante estudar subgrupos e populações específicas. Tenho certeza de que se pegarmos os mesmos dados no Brasil, eles serão completamente diferentes”, diz.
O neurologista também aponta como limitação o fato de o estudo não ter separado os pacientes diagnosticados com demência por subtipo da condição, como Alzheimer, demência vascular, demência por corpos de Lewy. Isso impede a análise de qual subtipo tem maior influência dos fatores de risco vasculares.
Risco pode ser ainda maior para alguns grupos populacionais
No estudo, os pesquisadores identificaram três subgrupos populacionais que seriam ainda mais vulneráveis aos fatores de risco estudados: mulheres, população negra e participantes sem um risco genético aumentado para Alzheimer.
Em mulheres a partir dos 55 anos, o percentual de casos de demência que poderiam ser evitados sem os três fatores de risco (PAF) ficou entre 29,2% e 51,3%. Os pesquisadores não forneceram uma explicação para essa diferença por sexo.
Já em pessoas negras, a PAF variou de 25,5% a 52,9%, algo que os autores atribuem, em parte, à maior prevalência dessas condições nessa população. No entanto, como a maioria dos participantes negros foi recrutada em uma mesma região (Jackson, Mississippi), os autores alertam que não é possível separar com clareza o efeito racial do geográfico.
Em pessoas sem o gene APOE ε4, considerado o principal fator genético de risco para Alzheimer, o PAF foi de 33,3% a 61,4%, sugerindo que o impacto dos fatores vasculares é ainda maior na ausência de predisposição genética.
Como problemas vasculares levam à demência?
Os médicos explicam que os três fatores de risco vasculares estudados lesionam os vasos cerebrais, muitas vezes de forma lenta e silenciosa. Essas lesões contribuem para o risco aumentado de demência. “Eles vão fazendo um dano gradual no encéfalo, interferindo, por exemplo, na retirada da proteína amiloide”, diz Pentagna, referindo-se à proteína que, quando acumulada no cérebro, está associada a um maior risco de Alzheimer.
“Esses fatores todos lesionam o neuroeixo vascular, o endotélio (a camada de tecido que reveste a parede interna dos vasos), os vasos de pequeno calibre. Isso interage diretamente com as vias de neurodegeneração e resulta numa reserva cerebral menor e no acúmulo de lesões que são macro e microvasculares”, explica Haddad.
Segundo Pentagna, problemas vasculares podem ainda atrapalhar o funcionamento do sistema glinfático, uma espécie de “sistema de limpeza” cerebral que funciona durante o sono profundo e tem um papel importante na retirada dessas proteínas relacionadas ao aparecimento de demência.
Os especialistas lembram que, geralmente, esses danos vasculares são lentos e silenciosos. “Pequenos derrames vão se acumulando, desconectando áreas do cérebro, sem causar um AVC típico com os sintomas clássicos como boca torta ou paralisia. É um mecanismo que vai provocando danos de forma silenciosa”, explica Pentagna.
Fonte: Estadão (15/08/2025)

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