quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Idosos: Divorcios grisalhos entre idosos; por que cada vez mais casais ousam recomeçar na maturidade?



Divórcios tardios crescem globalmente, impulsionados por independência financeira, mudança de papéis e a busca por felicidade após décadas de casamento

“Nos separamos por exaustão. Ele tomou a decisão, e a verdade é que eu não me opus. Ele deu o passo que eu não ousava dar”, diz Carolina, que deixou o casamento para trás aos 55 anos, após 33 anos de união. Mãe de dois filhos, ela revela que dar a notícia foi a parte mais difícil. “Senti como se estivesse desfazendo uma família, e isso ainda dói, mas nos recuperamos a cada dia”, afirma. Hoje, após algum tempo, Carolina ousou experimentar um novo parceiro e até mesmo o formato de família recomposta. “Estou feliz e voltei a acreditar no amor”, complementa.

Embora muitos ainda encarem separações tardias com cautela, o chamado divórcio grisalho — termo que faz referência à fase da vida marcada pelo envelhecimento — tem crescido significativamente. Ele descreve divórcios que ocorrem após os 50 anos, geralmente após décadas de casamento. O conceito foi cunhado em 2004 pela Associação Americana de Aposentados (AARP), com base em um estudo pioneiro que detectou aumento constante desses rompimentos nos Estados Unidos. Desde então, diversas pesquisas confirmam que o fenômeno não é isolado, mas sim uma tendência global.

Na Argentina, dados do Registro Civil da Cidade indicam que, até o momento neste ano, 796 casais com mais de 60 anos já se divorciaram. Em 2023, o número foi de 1.516, e em 2024, chegou a 1.621.

Mudanças culturais e independência feminina

Ximena Díaz Alarcón, cofundadora da consultoria Youniversal, afirma que mudanças culturais têm redefinido os trajetos dos relacionamentos: “Hoje, uma pessoa de 50 anos pode facilmente pensar em mais 30 anos de vida e, com esse horizonte, a possibilidade de uma segunda etapa se amplia”.

Na chamada “idade dos cabelos grisalhos”, os motivos das separações não diferem muito de outros divórcios: deterioração do relacionamento e redução da satisfação conjugal. “Ao contrário do passado, muitas pessoas deixam de manter um relacionamento por inércia quando percebem que ele não as representa mais emocional ou vitalmente”, explica Díaz Alarcón.

Outro fator que contribui para o crescimento do divórcio grisalho é a diminuição do estigma social. Hoje, separar-se na segunda metade da vida não gera o preconceito de décadas atrás. Existem redes de apoio e ferramentas digitais que auxiliam nesse processo.

Para as mulheres, a maior independência socioeconômica permite considerar o divórcio como opção viável, embora não seja simples para todas. “Uma pessoa com profissão ou ofício não é a mesma que alguém que nunca trabalhou. Começar um emprego aos 50 pode ser difícil. As conexões sociais ajudam a sair, fazer planos e se sentir viva”, comenta a psicóloga Carolina Damiani. Segundo ela, mulheres mais independentes têm mais facilidade de recomeçar, enquanto outras, com ideais internalizados, enfrentam maior desafio para se recuperar.

No caso de Cláudia, 57 anos, conflitos eram comuns em seu casamento de quase 30 anos. Incentivada pelos cinco filhos, decidiu se arriscar. “O mais difícil é ficar sem parceiro; os filhos crescem e seguem em frente”, admite. Ainda assim, se sente mais tranquila: “A única coisa que sinto falta dele é que ele consertava tudo que quebrava”, brinca, com tom agridoce, “embora hoje meus filhos e eu sejamos muito bons em resolver qualquer coisa”.

Novos caminhos e recomeços

A advogada e coach familiar María Ana Cornu Labat explica que o aumento da expectativa de vida e a mudança nos papéis entre marido e mulher levam à reavaliação de objetivos, vocação e futuro. “O fenômeno do ninho vazio também faz com que os casais questionem se querem continuar em uma situação insatisfatória”, observa.

Segundo Cornu Labat, em casais mais velhos, os motivos de separação seguem padrões semelhantes a outros divórcios, exceto nos casos de violência ou infidelidade. “Muitos só não se divorciam antes porque, como co-pais, funcionam bem operacionalmente. Quando os filhos crescem, não encontram mais um papel a cumprir e percebem que o relacionamento entrou em deterioração.”

Ainda assim, há casos de “segunda rodada” na vida amorosa. Amanda e Diego, por exemplo, se divorciaram aos 53 anos após 30 anos de casamento. Dois anos depois, perceberam que ainda se queriam e reataram, adaptando a rotina às novas circunstâncias: Amanda em seu apartamento, Diego perto dos filhos, com fins de semana juntos. “O amor é uma construção diária, não importa a idade”, afirmam.

Fonte: La Nacion e O Globo (16/09/2025)

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