Competição entre operadoras tende a favorecer o cliente, via redução de preços e ampliação da cobertura, mas em um nível excessivo, pode comprometer a rentabilidade das empresas, interferir na capacidade de investimentos e afetar a qualidade do serviço.
No fim de agosto, a AT&T comunicou ao mercado a compra das licenças de espectro eletromagnético da operadora americana EchoStar por aproximadamente US$ 23 bilhões. Na prática, o negócio pôs fim à operação de telefonia celular da Echostar, cuja subsidiária Boost Mobile contava com cerca de sete milhões de clientes nos Estados Unidos ao fim do segundo trimestre deste ano.
Quarta maior operadora móvel americana em número de clientes, a Boost estava léguas atrás de suas principais concorrentes neste quesito. A Verizon, por exemplo, tinha 146 milhões de usuários no fim do segundo trimestre, enquanto T-Mobile e AT&T contavam com 130 milhões e 118 milhões de clientes, respectivamente.
A subsidiária da EchoStar vinha sofrendo pressões financeiras e regulatórias por conta de compromissos de cobertura assumidos com a FCC, agência reguladora do mercado de telecomunicações nos Estados Unidos. Sua trajetória guarda semelhanças com a da operação móvel da Oi, adquirida em 2022 pelas concorrentes Claro, TIM Brasil e Vivo.
A Oi era, também, a quarta colocada no mercado brasileiro de telefonia móvel e — pelo menos desde meados da década passada — enfrentava dificuldades financeiras, que resultaram num primeiro pedido de recuperação judicial, em 2016. Em 2021, não participou do estratégico leilão de frequências que seriam utilizadas para a prestação do serviço 5G.
O fato de a Oi Móvel ter sido absorvida pela concorrentes, assim como a Boost, evidencia uma característica do mercado de telefonia móvel voltado ao consumidor final (B2C): “Fatores estruturais levam o mercado a ter uma concentração em torno de três operadoras [de alcance nacional]”, resume Alberto Silva, consultor sênior do Boston Consulting Group (BCG) no Brasil.
Com quatro, cinco ou seis operadoras nacionais brigando por mercado, a rentabilidade cai, os ganhos de escala diminuem e o preço por megahertz nos leilões de frequências tende a subir. “Com três operadoras, a pressão sobre o Arpu [a receita média por usuário] é significativamente menor do que com quatro”, afirma Silva, citando como exemplo a expansão desse indicador a partir da saída de cena da Nextel (em 2019) e da Oi (2022).
Levantamento feito pelo especialista nos sites de relações com investidores das operadoras mostra que, entre 2019 e 2022, o Arpu da operação móvel da Vivo encolheu a uma taxa anual composta (CAGR, em inglês) de 3,5%. Já no período de 2022 a 2024, houve expansão da receita média por usuário (+6,4%) da operadora. O Arpu da TIM Brasil também evoluiu significativamente, na comparação entre os dois períodos. Cresceu 9,7% entre 2022 e 2024, quase três vezes o percentual registrado entre 2019 e 2022 (+3,3%).
Naturalmente, a competição entre operadoras tende a favorecer o cliente, via redução de preços, ampliação da cobertura e melhoria dos serviços. Porém, num nível excessivo, a competição pode comprometer a rentabilidade das empresas a ponto de interferir negativamente na capacidade de investimentos, afetando justamente a expansão de rede e a qualidade do serviço.
Estudo global do BCG divulgado este ano indica que, entre 2020 e 2024, a mediana do retorno total anualizado ao acionista — medido com base nos dividendos pagos e na variação do valor de mercado — foi de aproximadamente 4% para um conjunto de 73 companhias de telecomunicações. Na edição anterior da pesquisa, englobando o período de 2019 a 2023, o indicador estava no patamar de 6%.
Nesse contexto de retorno decrescente, é fácil encontrar exemplos de consolidação do mercado de telecomunicações na Europa e nas Américas. Ente várias outras operações, Silva cita a fusão entre Vodafone e Three em 2025, no Reino Unido; a compra da Masmovil pela Orange no ano passado, na Espanha; e a aquisição da Movistar pela Tigo em 2024, na Colômbia, com aprovação esperada para este ano.
A inegável consolidação do setor não significa que operadoras regionais, de médio porte, estão condenadas à extinção. Silva lembra que provedores brasileiros de acesso à internet têm agregado serviços de telefonia celular a seus pacotes. Mesmo que nem sempre produzam lucros polpudos, esses serviços contribuem para fidelizar o cliente.
Originalmente uma operadora de telefonia fixa, a Algar — baseada no Triângulo Mineiro — segue ampliando sua base de telefonia celular. Ao fim de julho, era a quarta maior do país nesse mercado: tinha 4,66 milhões de acessos móveis, aumento de quase 10% em relação ao mesmo mês de 2024 e de 0,1 ponto percentual em seu “market share”.
Prova de que, num negócio em que a escala é fundamental, ainda há caminhos para os “players” de médio porte conquistarem e manterem sua participação de mercado.
Fonte: Valor (14/09/2025)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
"Este blog não se responsabiliza pelos comentários emitidos pelos leitores, mesmo anônimos, e DESTACAMOS que os IPs de origem dos possíveis comentários OFENSIVOS ficam disponíveis nos servidores do Google/ Blogger para eventuais demandas judiciais ou policiais".