Problema repercute em quem tem Plano com Extensão Nacional da Unimed Crise se arrasta desde migração da carteira de clientes da Unimed-Rio, no ano passado.
Em mais um capítulo da crise que se arrasta desde a migração da carteira da Unimed-Rio, há cerca de um ano, médicos cooperados que atendem usuários da Unimed Ferj relatam atrasos recorrentes no pagamento de consultas e procedimentos.
Sem garantia de que vão receber pelo serviço prestado, há casos de especialistas fechando as portas dos consultórios, o que reduz a rede credenciada disponível aos consumidores do plano de saúde, que têm migrado da Ferj para outras operadoras.
Em tese, pagamentos de consultas, procedimentos e cirurgias são feitos pela Unimed-Rio aos cooperados entre 30 e 45 dias após o fechamento do mês, a partir dos repasses da Ferj, que administra a carteira de usuários e recebe as mensalidades.
Mas segundo médicos ouvidos pelo GLOBO, desde janeiro o cronograma é reiteradamente descumprido. Os procedimentos de abril, que deveriam ser pagos até o dia 27 de junho, ainda estão em aberto.
Já as consultas realizadas em maio, com pagamento previsto para o dia 15 de julho, também não foram depositadas na data. E ainda entra na lista de débitos os procedimentos feitos em maio, cujo prazo de vencimento venceu no último dia 29.
'Revoltante'
— Isso é revoltante porque nos deixa sem nenhuma previsibilidade para honrar não apenas nossas despesas pessoais, mas os próprios custos do consultório. Há vários colegas fechando as portas — lamenta um profissional ouvido sob anonimato.
Com os atrasos nos pagamentos, uma gastroenterologista, que também prefere não se identificar, decidiu alugar o consultório próprio e sublocar horários em outra sala para manter os atendimentos, mas driblando as despesas fixas com condomínio, IPTU e luz.
— Usei tudo o que economizei para a aposentadoria para tentar suportar os custos. Fui além do que podia. Sou cooperada há quase 40 anos e agora estou tendo que distribuir currículo, o que é super difícil na minha idade — relata.
Quem acompanha o comando da cooperativa argumenta que os atrasos não atingem apenas os repasses aos cooperados, mas "todos os compromissos" da Unimed-Rio.
Num comunicado enviado aos médicos nesta semana, a direção afirma que desde que assumiu a gestão sabia "que o caminho da recuperação não seria fácil" e que tem "trabalhado incansavelmente para honrar o compromisso de proteger o CPF de cada um dos sócios". O documento, porém, não dá prazos de quando o cenário financeiro será restabelecido.
Sem citar nomes, a direção da Unimed-Rio ainda diz no texto que tem "negociações estratégicas em curso", mas que atua num "cenário sensível, em um momento em que diversos players do setor tentam fragilizar o sistema Unimed".
"Vivemos um cenário delicado no mercado de saúde suplementar, especialmente no Rio de Janeiro, que há tempos se tornou alvo de grandes grupos do setor. Mesmo diante dessas adversidades, reforçamos que, como parceiros da Ferj, estamos atentos e acompanhando de perto todas as movimentações, sempre com o objetivo de resguardar os interesses, a remuneração e o patrimônio de cada um de vocês", diz o comunicado.
Debandada na base de usuários
Enquanto a crise se prolonga, consumidores desembarcam da Unimed Ferj. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que, desde a migração da carteira em maio de 2024, houve uma queda de 17% no número de usuários do plano. Entre junho do ano passado e maio último, 85,8 mil pessoas deixaram o plano. Fontes da Unimed dizem que não há uma queda vertiginosa na carteira, mas que, no balanço, "sai mais gente do que entra".
Sócio-fundador da consultoria Arquitetos da Saúde, Adriano Londres analisa que esse saldo negativo para a companhia, com mais usuários indo embora do que entrantes, impacta diretamente no equilíbrio econômico-financeiro da operadora.
— O prêmio vai embora e a despesa fica, o que é ruim para os resultados. A conta de alguém que se internou esse mês, por exemplo, só vai ser paga pelo plano ao hospital daqui 120 dias, quando a pessoa às vezes já até deixou a operadora — diz.
Dados não estão disponíveis
Londres ainda observa que pode haver um aumento na sinistralidade da Unimed Ferj, a fatia da receita da operadora que é usada para custear a assistência médica dos usuários:
— E isso tem muito a ver com o que vem sendo noticiado sobre a operadora, que tem sido incapaz de honrar seus compromissos. Quem pode sair sai. Mas o idoso, por exemplo tem muito mais dificuldade de encontrar uma alternativa, ainda mais se for contrato individual, e a carteira fica mais cara.
Hoje, 31,6% da carteira da Unimed Ferj são de idosos, enquanto a média no setor é de 13,4%.
Apesar de as operadoras serem obrigadas a enviar dados de sinistralidade para a ANS, não é possível verificar dados atualizados da Ferj porque a operadora está liberada da determinação desde que firmou um acordo com o órgão regulador em dezembro de 2024. O termo de compromisso flexibiliza as regras e isenta a operadora de sanções até março de 2026 para que a Unimed tente reequilibrar as contas.
O que diz a operadora
Em nota ao GLOBO, a Unimed Ferj afirmou que os atrasos nos pagamentos de honorários médicos e serviços prestados foram pontuais, em função de ajustes no fluxo de caixa, e que está "empenhada em regularizar a situação o mais breve possível".
"A operadora reforça que, desde a assunção da carteira de beneficiários da Unimed-Rio, houve uma melhora no valor da consulta recebida pelos cooperados, o que reflete nosso esforço e compromisso com a valorização do trabalho médico", defende a operadora.
Já sobre a redução no número de beneficiários da carteira, o convênio afirmou que esse movimento "já era previsto e está inserido na estratégia de reestruturação da Unimed Ferj". Isso porque a operadora deixou de vender planos nacionais e está concentrando a atuação na cidade do Rio e em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Fonte: O Globo (05/08/2025)

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