segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Idosos: Fazer exercício é especialmente importante em duas fases da vida para evitar demência, diz estudo

 


Especialistas explicam como a atividade física beneficia a saúde cerebral

A prática de exercício físico pode fazer bem ao cérebro nas diferentes fases da vida. Contudo, um novo estudo sugere que o hábito tende a ser especialmente decisivo em dois momentos: na meia-idade e na velhice.

Publicada no JAMA Network Open, a pesquisa analisou dados de aproximadamente 4,3 mil participantes, todos acompanhados por décadas. Como resultado, os cientistas apontaram que há menor risco de demência em pessoas mais ativas na faixa dos 45 anos até os 88 anos.

Para a geriatra Claudia Suemoto, professora na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do banco de cérebros da USP, a meia-idade é, possivelmente, “o principal momento para se proteger da demência”. Mas o mais surpreendente do estudo, em sua visão, é mostrar a relevância do exercício até a terceira idade. Esses achados, avalia a médica, reforçam que continuar ativo até mais tarde na vida traz ganhos para a saúde cerebral.

A pesquisa é baseada em dados coletados do Framingham Heart Study, um estudo de longo prazo, iniciado em 1948 nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram os mesmos participantes em três fases da vida: dos 26 aos 44 anos, dos 45 aos 64 e dos 65 aos 88.

Impacto em relação ao Alzheimer

O estudo destaca que a redução do risco de demência dos 45 aos 88 anos também foi observada especificamente em relação à doença de Alzheimer.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, hoje, no Brasil, 1,2 milhão de pessoas vivem com a condição. Em relação às demências de um modo geral, a estimativa é que o número de casos passe dos 5 milhões em 2039, segundo dados do Relatório Nacional sobre a Demência.

Claudia explica que, quanto mais estímulos os neurônios recebem, maior tende a ser a manutenção da reserva cerebral. Tal reserva, segundo a professora da USP, consiste em um conjunto de neurônios e conexões que tornam o cérebro mais resiliente aos processos neurodegenerativos.

Para Daniel Vicentini, educador físico e coordenador do grupo de interesse em atividade física e longevidade da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), o estudo mostra uma vantagem das pessoas mais ativas em comparação a quem é sedentário. “Exercício não garante que alguém nunca terá demência, mas aumenta a chance de adiar o início e diminuir o impacto funcional (da doença)”, explica.

Fase estratégica da vida

A meia-idade é um período estratégico, não só segundo o estudo, mas também segundo os especialistas ouvidos pela reportagem.

Nessa etapa da vida, o terreno biológico começa a ser preparado para o que pode aparecer décadas depois em termos de saúde. “É justamente nessa fase que se acumulam condições como hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo e depressão”, alerta Vicentini. São condições capazes de reverberar no cérebro. Daí a importância de manter hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática de exercícios.

Já na terceira idade, segundo ele, mesmo com perdas cognitivas iniciais, o cérebro é capaz de manter a capacidade de adaptação. Para proteger ao máximo suas funções, o estilo de vida segue essencial. “A atividade física melhora a circulação cerebral, o sono, o humor e a interação social”, descreve.

O coordenador da SBGG ainda pondera que, enquanto na meia-idade o foco é evitar que o problema se consolide, a prioridade na velhice é atrasar e reduzir o impacto da demência.

Claudia diz que já existem estudos de neuroimagem associando atividade física a um maior volume cerebral, além da preservação de estruturas ligadas à memória e às funções executivas.

Além disso, ela enfatiza que o exercício físico estimula a liberação de substâncias neuroprotetoras. Como exemplo, a geriatra cita pesquisas brasileiras que mostram o aumento da irisina, uma molécula associada à atividade física e que pode ter papel na proteção contra a demência.

Segundo ela, esses efeitos ajudam a explicar por que o exercício não atua apenas nos músculos e no sistema cardiovascular, mas também diretamente no cérebro.

Exercícios aeróbicos ou de força?

Embora o estudo do JAMA Network Open não tenha avaliado tipos específicos de exercícios, os especialistas concordam que a combinação tende a ser a estratégia mais promissora.

“Hoje, entendemos que a atividade física deve envolver exercício aeróbico, mas também exercício resistido e de equilíbrio, pensando em prevenção de demência”, ensina Claudia.

Essa abordagem aparece em estudos como o FINGER, realizado na Finlândia, que demonstrou melhora no desempenho cognitivo através da combinação de diferentes tipos de exercícios, boa alimentação, estímulo cognitivo, atividades sociais e controle de fatores de risco cardiovascular.

O modelo já foi replicado em outros países, como os Estados Unidos, onde é chamado de estudo POINTER, e está em andamento na América Latina, segundo Claudia.

Já Vicentini aponta que é importante pensar em práticas que façam sentido para a vida real. “Começamos com metas pequenas, exercícios simples em casa ou perto de casa, e vamos aumentando conforme se ganha confiança”, explica.

As adaptações devem considerar o gosto de cada pessoa. “Se ela odeia academia, talvez começar com dança, caminhada na praça ou exercícios em casa seja muito mais eficaz”, sugere.

Qual é o ‘mínimo eficaz’?

Quando se fala em prática de exercício físico, não há um tempo mínimo pensado apenas para a prevenção da demência, segundo Vicentini. Contudo, as recomendações gerais seguem sendo uma boa referência.

Por isso, ele destaca as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS): pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, associados a exercícios de força e equilíbrio.

“O que os estudos sugerem é que os maiores benefícios aparecem em quem se aproxima dessas faixas, não em quem faz só um pouquinho de forma esporádica”, diz.

Ainda assim, na prática clínica, a regra é adaptar. “O mínimo eficaz é sempre ‘mais do que a pessoa faz hoje’ e algo que seja sustentável no longo prazo”, finaliza.

Fonte: Estadão (12/02/2026)

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