De acordo com médico, há muitas armadilhas nessa abordagem, que pode gerar mais incertezas do que tranquilidade
Detecção precoce. Tranquilidade. Controle sobre a própria saúde. Um exame de rastreamento que oferecesse esse trio de benefícios pareceria altamente desejável — e é exatamente essa a premissa do marketing cada vez mais disseminado que incentiva as pessoas a fazer uma ressonância magnética de corpo inteiro.
Um número crescente de centros privados e especializados em ressonância magnética, com fins lucrativos, além de influenciadores nas redes sociais, vêm promovendo a ideia de que, com uma única ressonância magnética de corpo inteiro (MRI, na sigla em inglês para magnetic resonance imaging), pessoas preocupadas com a saúde podem detectar cânceres ocultos ou outras ameaças silenciosas antes mesmo do surgimento de sintomas. Mais de 100 mil americanos já passaram por esse tipo de exame de imagem, segundo um comentário publicado online em 6 de maio de 2026 pelo JAMA.
Mas os anúncios não destacam as muitas armadilhas dessa abordagem, movida mais pela demanda dos consumidores do que por evidências médicas, afirma James Brink, chefe da radiologia do Massachusetts General Hospital, afiliado à Harvard University.
Esses exames de ressonância magnética pagos do próprio bolso são caros e podem gerar mais incertezas do que tranquilidade. Também é fundamental entender que a ressonância magnética de corpo inteiro não consegue detectar todos os tipos de câncer, nem substituir exames validados, como mamografia ou colonoscopia, ressalta Brink.
“Existe ciência de verdade por trás do rastreamento de doenças, e muito estudo é dedicado a avaliar tanto seus benefícios quanto seus riscos”, diz ele. “A ideia de usar uma tecnologia extremamente cara, como a ressonância magnética, para rastrear inúmeras condições sem aplicar esse mesmo rigor científico cria muitos riscos.”
Falta de precisão
A ressonância magnética produz imagens do corpo usando um grande ímã e ondas de rádio. Fazendo o escaneamento da cabeça até a pelve ou as coxas, a ressonância magnética de corpo inteiro pode potencialmente revelar alguns tipos de câncer, aneurismas (dilatações perigosas nas paredes das artérias) ou anormalidades em órgãos. É importante destacar, porém, que ela não foi projetada para avaliar de forma abrangente nenhum órgão específico, observa Brink.
Os exames de ressonância recomendados clinicamente costumam incluir múltiplos “subexames” para esclarecer situações como presença de líquido, cicatrizes ou condições dos vasos sanguíneos em um órgão — muitos deles utilizando contraste, procedimento que envolve a injeção de um corante que destaca estruturas e as torna mais visíveis.
Mas a ressonância magnética de corpo inteiro não oferece esse nível de precisão, em parte porque não utiliza contraste, explica Brink. “Qualquer ressonância de um órgão sobre o qual temos preocupações é personalizada para examinar esse órgão de forma muito detalhada”, afirma. “A ressonância de corpo inteiro não faz isso. Ela observa todos os órgãos de maneira mais superficial.”
Os perigos do sobrediagnóstico
Mesmo quando uma ressonância magnética de corpo inteiro revela algo incomum, muitas — talvez a maioria — dessas descobertas não têm relevância para a saúde das pessoas. Chamadas de achados incidentais (e frequentemente apelidadas de “incidentalomas”), essas irregularidades inesperadas incluem cistos ou nódulos benignos, e a maioria é inofensiva, diz Brink.
Mas encontrar anormalidades que nunca causariam dano pode, por si só, provocar prejuízos. Os incidentalomas frequentemente levam a uma sequência de exames complementares, consultas com especialistas, biópsias e outros procedimentos que, além de caros, podem gerar ansiedade desnecessária e até complicações perigosas, afirma Brink.
Também não se deve ignorar o fato de que um exame de ressonância “limpo” não significa necessariamente que a pessoa esteja totalmente saudável. Se alguém deixa de fazer exames respaldados por evidências, como mamografia, colonoscopia ou outros testes estabelecidos, em favor de uma ressonância magnética de corpo inteiro de valor duvidoso, pode acabar deixando passar alterações importantes. “Pode haver uma falsa sensação de segurança”, afirma.
Estratégias mais inteligentes
No fim das contas, mais informação nem sempre significa algo melhor, diz Brink, e uma ressonância magnética de corpo inteiro tem maior probabilidade de levar a preocupações e intervenções desnecessárias do que de revelar um problema realmente ameaçador à vida.
“Quando exames de imagem não são indicados, eles criam mais problemas do que benefícios”, afirma. “Acredito firmemente que devemos seguir os rastreamentos apoiados pela ciência.”
Para quem quer cuidar melhor da saúde, Brink recomenda alternativas mais inteligentes do que a ressonância magnética de corpo inteiro, como seguir as recomendações de rastreamentos baseados em evidências — entre eles mamografia e colonoscopia — e cultivar uma relação de longo prazo com um médico de confiança na atenção primária.
“Trabalhe junto ao seu médico para garantir que quaisquer sintomas sejam devidamente investigados”, orienta.
Uma exceção rara
Quem mais se interessa por fazer uma ressonância magnética de corpo inteiro? Principalmente os chamados “worried well” — pessoas saudáveis, mas muito preocupadas, que buscam garantias de que estão bem —, diz Brink.
Mas, embora o exame eletivo tenha valor questionável para a maioria das pessoas, Brink afirma que existe um grupo que talvez possa se beneficiar: indivíduos que testaram positivo para determinados genes conhecidos por representar um risco muito elevado de desenvolver múltiplos tipos de câncer.
Ainda assim, “eu continuaria preferindo trabalhar com um conselheiro ou profissional de saúde para personalizar o rastreamento com exames que façam sentido para a condição daquela pessoa”, afirma o especialista. “Não vejo valor em uma ressonância magnética de corpo inteiro que contorne o sistema tradicional de saúde.”
Fonte: Estadão (25/05/2026)
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