sábado, 6 de julho de 2024

Aposentadoria: Entre as 2 grandes ameaças, mudança climática e planejamento da aposentadoria, uma vc. pode resolver



Existem ao menos duas ameaças reais que pairam sobre o futuro da população, mas para a qual a maioria das pessoas prefere dar de ombros, em vez de iniciar o plano de defesa e contenção de danos desde já

Talvez a explicação seja nossa dificuldade de lidar com problemas que somente vão nos afetar anos à frente.

A primeira delas é a mudança climática, que infelizmente só ganhou parte da atenção que deveria no Brasil, recentemente, por um motivo triste: a tragédia vivida no Rio Grande do Sul.

As chuvas que alagaram o Estado materializaram, para os negacionistas de sempre e para aqueles que ainda não tinham real noção do problema, como as coisas devem se suceder nas próximas décadas.

Para nos protegermos dessa ameaça, contudo, não basta que cada um faça sua parte. É preciso que todos reajam como sociedade, e que governos e empresas tomem iniciativas complementares às da população comum, para garantir a redução da emissão de gases de efeito estufa e a interrupção do aumento da temperatura média da Terra.

Para a segunda ameaça de longo prazo, as más notícias são que o governo já deixou claro que não vai te ajudar (pelo contrário) e, também neste caso, as pessoas não têm noção do tamanho do problema. A boa notícia é que dá para resolver por sua conta (com algum sacrifício), sem que seja necessário mobilização social.

Estou falando do planejamento da aposentadoria. É um problema global, dada a combinação de aumento de expectativa de vida (que é uma boa notícia) com mudança de pirâmide etária, que inviabiliza os modelos de previdência públicos em que os mais jovens bancam a aposentadoria dos mais velhos, como é o INSS no Brasil. A maior longevidade também tirou do mapa, não só por aqui, os planos de previdência com benefício definido polpudos do passado, daqueles em que o trabalhador tinha uma boa remuneração garantida para a velhice, mas que invariavelmente se mostraram inviáveis financeiramente.

O resultado é que estamos no “modelo cada um por si” quando se fala de aposentadoria. Mas, como disse, as pessoas não se deram conta da ameaça que está pela frente.

De acordo com a pesquisa da Anbima, enquanto 41% dos trabalhadores da ativa espera não depender do INSS na aposentadoria, 93% das pessoas que já chegaram nessa fase da vida declaram que dependem da previdência pública para sobreviver. E a realidade é a mesma entre os respondentes das classes A e B: metade dos que não se aposentaram esperam não precisar contar com o INSS, mas 92% daqueles que já penduraram as chuteiras informam que a previdência pública faz parte do seu sustento.

Uma parte dessa discrepância se explica para crença de que o seu “eu do futuro” vai conseguir guardar mais dinheiro do que o seu “eu de hoje” - da mesma forma que é “mais fácil” começar o regime ou os exercícios físicos na semana que vem, e não hoje.

A chance de o plano não dar certo, como se sabe, é grande.

Saindo da estatística para um caso real, no último domingo pela manhã peguei um carro de aplicativo. Na conversa, o motorista me contou que foi diretor de uma multinacional, mas que perdeu o emprego aos 52 anos e não conseguiu mais se recolocar. Agora com mais de 60 anos, ele desistiu de procurar emprego na carreira antiga.

Talvez ele tenha achado que o INSS poderia bancar seu padrão de vida e que isso só não tenha ocorrido pelas sucessivas reformas da Previdência - e tenha certeza de que virão outras. Mas pode ser que ele tenha achado que dava para conseguir “começar a guardar dinheiro depois”, ou que ele até tenha guardado algum dinheiro, mas não o suficiente, dado que esse “suficiente” é muito mais dinheiro do que as pessoas imaginam.

Para ajudar a dar essa noção para quem ainda não fez a conta, recorri a um simulador que em breve estará disponível para os leitores do Valor.

Para usar um número redondo, calculei quanto precisaria economizar a pessoa que deseja uma renda de R$ 10 mil por mês durante 30 anos (em valores reais). Se sua meta for maior, de R$ 20 mil por exemplo, basta dobrar os valores. Se for menor, de R$ 5 mil, divida por 2.

Como taxa real de juros (acima da inflação), considerei os 4,75% ao ano que o Banco Central diz agora que seria o juro neutro do país em seus modelos. A tributação foi de 15% sobre os rendimentos.

Chegamos então ao valor “suficiente” que precisa ser acumulado uma pessoa obter essa renda mensal de R$ 10 mil por 30 anos: R$ 2,25 milhões.

É muito dinheiro para a maioria dos bolsos.

E uma variável chave para medir a dificuldade para se chegar lá é quanto tempo a pessoa tem pela frente de hoje até a aposentadoria. Se forem 20 anos, por exemplo, ela teria que guardar R$ 6,5 mil por mês numa aplicação com esse rendimento real para alcançar o objetivo. Se o tempo for de 40 anos, o esforço cai para R$ 2,2 mil.

Outro componente que mexe na equação é a pessoa aprender a investir melhor, e conseguir montar uma carteira que lhe dê retornos mais altos e consistentes no tempo.

Ao repetir o exercício com uma taxa real de 6,75%, a economia mensal necessária cai para R$ 4,5 mil para quem tem 20 anos até se aposentar, e para R$ 1,2 mil para quem tem 40 anos.

Se você acredita que vamos conseguir escapar da primeira ameaça como sociedade, é bom agir desde já para que a segunda não seja um problema. E que na sua aposentadoria o domingo seja um dia de descanso.

Fonte: Valor e Fernando Torres (03/07/2024)

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