quinta-feira, 31 de julho de 2025

Comportamento: Os limites da vida; quantos anos vamos viver no fim do século?

 


Existem algumas inovações que podem nos ajudar a prolongar a longevidade, com qualidade de vida, o máximo possível; confira os principais caminhos

Em 1925, ano de nascimento do jornal O GLOBO, a expectativa de vida era de cerca de 35 a 40 anos. Cem anos depois, esse número praticamente dobrou e o brasileiro vive, em média, 76,4 anos. Esse crescimento foi impulsionado por inovações de vista de saúde pública e sociais.

— O que mais impactou no aumento da expectativa de vida no último século foram as questões do saneamento básico, o surgimento dos antibióticos, o controle das doenças infecciosas por meio das vacinas e o controle e tratamento de doenças cardiovasculares e metabólicas — diz o geriatra Carlos André Freitas dos Santos, da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e PhD em Ciências da Saúde.

Apesar de todo o avanço, cada vez mais a ciência e medicina se dedicam não só em encontrar formas de aumentar a expectativa de vida, mas principalmente a qualidade de vida. Diante disso, a gente se pergunta quanto iremos viver daqui a 100 anos?

— Eu diria que a expectativa de vida humana daqui a 100 anos será de 150 anos, o que pressupõe que não tenhamos decodificado completamente a biologia, mas tenhamos feito algum progresso significativo — diz o microbiologista português João Pedro de Magalhães, que está à frente do Laboratório de Genômica do Envelhecimento e Rejuvenescimento da Universidade de Birmingham, na Inglaterra.

Isso corresponde a um incremento de pouco mais de 20% no que é considerado o “limite” atual de expectativa de vida dos seres humanos, que é de 122 anos. Até hoje, essa idade só foi alcançada oficialmente por uma pessoa. Trata-se da francesa Jeanne Calment, que faleceu em 1997.

Mas a expectativa é que com os avanços da medicina e da ciência, nas próximas décadas, um número maior de pessoas não só alcance esse marco de 122 anos, como o ultrapasse. Para isso, é preciso conseguir alterar um mecanismo inerente da vida humana: o envelhecimento.

O envelhecimento não é só o acúmulo de aniversários comemorados, o aparecimento de rugas, flacidez e cabelos brancos. Tudo isso é consequência de um processo natural do corpo humano, que ocorre em nível celular.

Com o passar do tempo, as células se dividem menos e passam a se acumular no organismo. Nossos cromossomos se contraem e se quebram, os genes ligam e desligam ao acaso, as mitocôndrias se decompõem, as proteínas se desemaranham ou se aglomeram, as reservas de células-tronco regenerativas diminuem, os ossos se afinam, os músculos perdem força, os órgãos tornam-se lentos e disfuncionais, o sistema imunológico enfraquece e os mecanismos de auto reparo falham.

Mesmo que uma pessoa se alimente bem, não fuma, não beba e pratique atividade física regularmente, vai chegar uma hora em que seu corpo irá começar a se deteriorar. Por isso, atualmente, o potencial aumento da expectativa de vida está diretamente associado à capacidade de alterar esse mecanismo. Magalhães acredita que isso é possível.

— Eliminar o envelhecimento está além da nossa tecnologia atual. Quando pensamos no futuro e em mudar a biologia humana alterando nossa genética, é, em teoria, possível evitar que envelheçamos, assim como alguns animais não envelhecem — diz o microbiologista.

Outros especialistas não são tão otimistas sobre a nossa capacidade de expandir ainda mais a longevidade. Eles acreditam que estamos nos aproximando rapidamente, ou já atingimos, um teto de expectativa de vida. Por outro lado, eles julgam possível melhorarmos a qualidade de vida e permanecermos saudáveis por mais tempo.

— Acho que existe uma limitação biológica para o aumento da expectativa de vida. Mas também acho que a evolução nos próximos anos é que poderemos viver de uma maneira melhor, por mais tempo. Então, ao invés de eu me adoecer aos 65, eu vou me adoecer aos 85, por exemplo — avalia o geriatra Carlos André Freitas dos Santos.

Existem algumas inovações que podem nos ajudar nesse caminho de prolongar a longevidade, com qualidade de vida, o máximo possível. Confira os principais caminhos.

Suplementos e medicamentos que aumentam a longevidade

Pesquisadores no mundo todo estão estudando suplementos e medicamentos que podem ajudar a prolongar a vida ao nos manter saudável por mais tempo. Um exemplo é o alfa-cetoglutarato. Esse composto foi capaz de prolongar a expectativa de vida saudável em camundongos e está sendo testado em humanos.

Medicamentos que imitam os benefícios do exercício estão em desenvolvimento e podem ajudar a retardar os efeitos do envelhecimento. Coquetéis de medicamentos estão em desenvolvimento e, no futuro, podem retardar ou reverter alterações moleculares no DNA que influenciam quais genes são expressos à medida que envelhecemos.

Há também trabalhos avaliando o potencial de medicamentos já existentes e em uso. Um deles é a rapamicina, um imunodepressor usado contra o processo de rejeição a órgãos transplantados. Mas esse composto ela também se mostrou eficiente no bloqueio de uma enzima que acelera a divisão celular, um atalho para o envelhecimento e agora, diversos estudos estão em andamento para entender melhor seu potencial nesta esfera. Outro trabalho avalia se a metformina, medicamento amplamente utilizado para controlar o diabetes tipo 2 e a reduzir o risco de câncer, pode ajudar a reduzir a mortalidade em geral.

Medicamentos para o controle de doenças

Doenças como obesidade, câncer e Alzheimer estão entre os principais inimigos do aumento da longevidade. O surgimento de um novo arsenal de medicamentos capazes de agir nestas condições, como as vacinas para câncer, a nova geração de medicamentos para tratamento da obesidade, e medicamentos para tratar demências, será fundamental não só para estender os anos, mas em especial, os anos com qualidade de vida.

Genética

Diversas frentes dentro da área de genética podem ajudar a prolongar a longevidade nas próximas décadas. Por exemplo, estão em andamento estudos para decodificar e analisar mais profundamente os genomas dos supercentenários estão em andamento e podem fornecer insights úteis sobre o que explica sua longevidade. Um segundo aspecto é o uso de ferramentas de edição genética, como o CRISPR, para o tratamento de doenças consideradas incuráveis, como distúrbios sanguíneos e cegueira hereditária. Um terceiro aspecto diz respeito ao uso de terapias genéticas para ajustar genes ou regular sua expressão para prevenir ou tratar tipos comuns de câncer, doenças autoimunes, diabetes e condições neurológicas.

Transfusão de plasma de pessoas jovens

A transfusão de plasma de pessoas jovens também é um caminho possível para o desenvolvimento de terapias antienvelhecimento. Experimentos em animais mostram que os músculos, cérebros e órgãos de ratos velhos foram parcialmente rejuvenescidos quando compartilharam o sangue de um animal jovem. A lógica do rejuvenescimento estaria na redução de níveis inflamatórios no sangue e na ação de proteínas que abundantes no organismo jovem que, ao entrarem na corrente sanguínea do organismo mais velho, produziriam os efeitos de rejuvenescimento. No futuro, tratamentos que imitam a química do sangue jovem podem prolongar a vida saudável, talvez por décadas.

Eliminar as células senescentes

Evidências preliminares indicam que drogas que destroem células senescentes, que emitem moléculas que aceleram a inflamação e outras características do declínio celular, não apenas melhoram as capacidades físicas de camundongos idosos, mas também prolongam sua vida útil. Mais de uma dúzia de ensaios clínicos estão em andamento visando evitar doenças como osteoartrite e Alzheimer.

Melhora nos níveis de educação formal

Uma medida simples como promover níveis mais elevados de educação ajuda a aumentar a expectativa de vida. A OCDE relatou que em 25 de seus estados-membros, as pessoas com o maior nível de educação podem esperar viver cerca de seis anos a mais do que aquelas com o menor nível de educação aos 30 anos, por exemplo.

Órgãos cultivados em laboratório

Pesquisadores estão tentando desenvolver órgãos em laboratório para resolver a questão do transplante de órgãos. O principal desafio para isso é recriar o complexo sistema de vasos sanguíneos em outros órgãos como rins, fígado e coração. Uma vez que isso for superado, não haverá mais filas para transplante e “substituir” um órgão danificado se tornará algo mais simples e corriqueiro.

Rejuvenescimento do sistema imunológico

O enfraquecimento do sistema imunológico à medida que envelhecemos é o que nos deixa mais propensos a câncer e infecções. Estudos indicam que um hormônio do crescimento, tomado com dois medicamentos antidiabéticos, pode regenerar o timo, uma glândula localizada entre os pulmões que impulsiona esse processo. A expectativa é que uma terapia baseada nessa abordagem possa ajudar a prevenir o câncer e tornar os idosos mais resistentes a infecções, por exemplo.

Reprogramação celular

A reprogramação celular consiste em aplicar uma técnica desenvolvida por Shinya Yamanaka, vencedor do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2012 por seu trabalho em pesquisa com células-tronco, para reverter parcialmente o envelhecimento celular e reparar tecidos. Um realizado pelo biólogo Juan Carlos Izpisua Belmonte mostrou que fazer isso rejuvenesceu camundongos e estendeu sua vida útil em quase um terço. A startup Altos Labs, que tem entre seus investidores Jeff Bezos e o bilionário russo-israelense Yuri Milner, se dedica a essa frente.

Revolução tecnológica

No futuro, nanobots poderão construir sensores e outros dispositivos que ajudarão a dissolver coágulos sanguíneos, combater o câncer e administrar medicamentos precisamente direcionados dentro do nosso corpo.

A robótica avançada e inteligência artificial possibilitarão ter uma estação médica personalizada em casa que realiza verificações matinais de saliva e urina, por exemplo; Em seguida, um aparelho médico projeta e imprime medicamentos para otimizar o metabolismo e o microbioma naquele dia.

Interfaces cérebro–computador, como os implantes cerebrais com a Neuralink, empresa de Elon Musk, podem ajudar pessoas com paralisia a recuperar os movimentos, pessoas com deficiência visual a restaurar a visão, a oferecer novas opções de tratamento para condições como Parkinson, epilepsia, depressão e esquizofrenia e a melhorar funções cognitivas.

Fonte: O Globo (29/07/2025)

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