terça-feira, 29 de julho de 2025

Idosos: Aposentados e profissionais maduros investem tempo e dinheiro em intercâmbios



De aulas de idiomas a programas que misturam turismo e cursos como de gastronomia e história da arte, interesse por intercâmbio cresce entre quem já passou dos 50, seja para curtir o tempo livre ou para se reciclar para o trabalho.

Desde que chegou aos 50, há 12 anos, a socióloga e professora universitária Rosangela Agnoletto já fez seis intercâmbios no exterior. Estudou inglês nos Estados Unidos, no Canadá, na Irlanda e na África do Sul. Depois, francês em Paris e, na experiência mais recente, viveu dois meses de imersão na Itália aprendendo o idioma do país e tendo aulas de gastronomia e história da arte.

Embarcar rumo a algumas semanas ou meses em outra cultura, seja para aprender uma nova língua ou mergulhar em um assunto específico, é uma experiência ainda muito relacionada a jovens estudantes ou profissionais em início de carreira.

Mas um novo perfil de intercambista ganha força: alunos com mais de 50 anos, que muitas vezes não tiveram condições financeiras na juventude e agora movimentam o setor não apenas para ocupar o tempo livre depois da aposentadoria, mas para se aperfeiçoarem e continuarem ativos no mercado de trabalho.

No ano passado, programas de intercâmbio movimentaram R$ 5,5 bilhões, cerca de 20% acima do registrado em 2023. Os dados são de um relatório anual da Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio (Belta). Estudantes com idade entre 18 e 29 anos seguem sendo a maioria (39,1%), mas aqueles com 50 anos ou mais vêm ganhando espaço — eram 5,7% há três anos, 7% em 2023, e 7,5% no ano passado.

Negócio em expansão

Para Alexandre Argenta, presidente da Belta, uma maior estabilidade financeira, tornando o investimento mais viável do que na juventude, combinada à longevidade cria o “cenário perfeito” para que programas de estudo no exterior se tornem mais atraentes para esta faixa etária. Ele acredita que a tendência deve se manter nos próximos anos: dados do Censo 2022 do IBGE mostraram que a população brasileira está envelhecendo mais rapidamente do que em décadas passadas.

— Hoje a gente vive muito mais. Enquanto no passado as pessoas em torno dos 50 já estavam se preparando para se aposentar, hoje muitos ainda estão buscando aprimoramento profissional, reciclagem, porque são produtivos no mercado de trabalho e procuram outras experiências profissionais e de vida — observa.

Na Student Travel Bureau (STB), uma das maiores agências de intercâmbio do país, o número de estudantes com mais de 50 estudando lá fora subiu 30% em 2024, o dobro do aumento da procura por intercâmbios em geral, que cresceu 15%.

Idiomas lideram como o principal eixo de estudo, destaca Christina Bicalho, vice-presidente da STB, mas outros programas também despertam o interesse dos estudantes mais experientes. Caso de áreas como negócios e tecnologia, com destaque para cursos voltados para inteligência artificial aplicada a diferentes segmentos, como o agronegócio.

A agência tem parcerias com instituições como a London School of Economics, as universidades de Harvard e da Califórnia e o Disney Institute, braço de desenvolvimento profissional da The Walt Disney Company.

— Percebemos um movimento forte de profissionais de várias áreas que precisam ter uma experiência internacional através do intercâmbio, não só para desenvolver novas habilidades acadêmicas, mas também por networking e habilidades de se relacionar com outros países — explica Christina.

Na IBS Americas, especializada em intercâmbios executivos, também aumentou o número de profissionais mais velhos em busca de experiências no exterior. Advogada e professora universitária, Flávia Ungarelli é uma delas. Aos 53 anos, ela embarcou rumo à Universidade de Albany, em Nova York, neste mês de julho para um curso de inglês corporativo, que deve aprimorar sua atuação no Direito Empresarial.

O sonho antigo, cultivado desde a adolescência, acabou adiado pelo instabilidade financeira do início da carreira e o nascimento do filho.

— Pela idade, você se pergunta “será que ainda é para mim?”. Surgem alguns receios, medos de não se encaixar, mas o programa tem sido um divisor de águas. E para as pessoas da minha faixa etária que têm algum tipo de receio ou pensam que o tempo já passou, digo que, pelo contrário: é um período em que você se dedica e investe em si mesmo, e isso é muito rico, tanto profissional quanto pessoal e socialmente — defende.

Coordenador de Novos Negócios numa incorporadora, Elton Lima, de 50 anos, também alimentava o sonho do intercâmbio desde os anos 2000, mas só conseguiu realizá-lo há dois anos, num programa de curta duração em gestão executiva na Universidade de La Verne, na Califórnia:

— Ainda quero fazer um MBA completo nos EUA, mas o curso em La Verne já foi um grande avanço para ampliar meu leque e me ajudar no crescimento profissional, que é mais complicado na minha idade.

Para Mórris Litvak, fundador da Maturi, consultoria especializada em conectar companhias e profissionais com mais de 50 anos, intercâmbios nesse momento da vida são uma aposta na permanência ativa do mercado de trabalho:

— Recebemos relatos de profissionais que voltam com projetos novos, ampliam o portfólio e se reposicionam. Carreiras ficaram mais longas, a tecnologia muda rápido e o etarismo no mercado faz muita gente buscar diferenciais claros. Intercâmbios, cursos e imersões no exterior são uma forma de dizer: “eu continuo aprendendo, me reinventando e estou antenado com o mundo”.

Com a população vivendo mais e de maneira mais ativa, programas específicos para quem tem mais de 50 anos se tornaram um nicho de mercado para as agências do setor, ressalta Argenta, da Belta.

Turismo e educação

Fundada há 18 anos com foco no tradicional público adolescente e jovem adulto, a agência Roda Mundo começou a mudar de rota e olhar para o público sênior há cerca de uma década. Hoje, 80% da demanda é de pessoas com mais de 50 anos, principalmente mulheres de 55 a 60 anos.

À frente do negócio, a diretora Roberta Gutschow conta que os programas mais buscados são aqueles que combinam turismo e educação:

— São programas que combinam aula de idiomas com passeios, aulas de culinária, degustação de vinho... Geralmente mulheres já aposentadas que agora querem viajar, fazer amizades, mas também aprender algo.

Era esse o objetivo de Rosangela nos seis intercâmbios que fez desde que se aposentou. No mais recente, na Itália, passou cerca de 70 dias na casa de uma família local, encarou aulas diárias de italiano e uma agenda intensa de cursos de gastronomia, barista e história da arte, além de passeios e até uma trilha no vulcão Etna. No grupo, tinha um colega americano de 82 anos e uma de 92, lembra.

Rosangela também conta que, vez ou outra, ouve algumas críticas sobre sua empreitada, mas que defende que seus amigos tentem: duas delas, aliás, de 75 anos, foram convencidas. A vontade de estudar fora sempre foi presente, mas, sem condições financeiras na juventude, acabou adiada. O próximo intercâmbio já está nos planos: será na Escócia.

— O intercâmbio me deu independência. É muito mais do que apenas aprender um novo idioma. É uma experiência em que você sai do seu próprio eu, já conhecido, para encontrar outras histórias, e novas versões de si. Saí do lugar de turista para uma experiência de imersão, criei vínculos com pessoas que nunca imaginei — celebra.

Fonte: O Globo (28/07/2025)

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