Leilão do 6G pode ocorrer já em 2026, e os primeiros projetos-piloto são esperados até 2032 no Brasil
Primeiro, vieram as redes analógicas 1G. Em seguida, o 2G perdeu espaço para o 3G ao trocar o foco de voz para dados. O 4G introduziu o streaming em alta velocidade, e o 5G trouxe a hiperconectividade, prometendo latência ultrabaixa e internet em todos os dispositivos. Agora, o 6G desponta no horizonte, integrado com inteligência artificial generativa capaz de “sentir” e “enxergar” o ambiente, permitindo respostas em tempo real e destravando inovações em áreas como transporte, agronegócio e indústrias.
No futuro, a nova rede de sexta geração permitirá inovações até hoje restritas a filmes de ficção científica e a laboratórios, como experiências imersivas, holografias e sensoriamento, em um mundo onde tudo poderá ser medido, acompanhado e previsto.
Em julho, o governo já começou a discutir o uso dessa nova tecnologia no Brasil com entidades do setor. A rede 6G já está em fase de padronização, com os primeiros testes em andamento na Coreia do Sul, Estados Unidos, China e Europa. A estimativa é que os primeiros modelos e soluções comecem a ganhar forma comercial no mundo por volta de 2030.
Além das novas experiências, especialistas e o próprio governo, por meio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), acreditam que o 6G vai acelerar a conectividade industrial, ao permitir a conexão entre máquinas. Um leilão de frequência poderá ocorrer já em 2026, e a expectativa no Brasil é que, em entre 2031 e 2032, comecem os primeiros projetos-piloto em ambientes corporativos, na indústria 5.0 e em cidades inteligentes.
Integração com satélites
Em outra frente, a Anatel também pretende integrar as futuras redes móveis de 6G com os sistemas de satélites, a fim de expandir a cobertura da rede móvel para áreas remotas. Jesper Rhode, sócio da Tr4nsform Consultoria, diz que a fronteira entre fibra óptica e banda larga sem fio praticamente sumiu. Conexões móveis já entregam velocidades comparáveis às das redes cabeadas.
— O recado é claro: antes de saltar para o 5,5G (dez vezes mais atual que o 5G atual) ou o 6G, precisamos ampliar a cobertura e elevar a qualidade onde ela já existe. A lacuna de conectividade pesa muito no campo. Os indicadores mostram que as áreas cobertas por 4G ou 5G saltaram de 18,7% para 33,9% entre 2023 e 2024, mas dois terços do território rural continuam descobertos — analisa.
Segundo Rhode, o futuro da conectividade será uma integração do 6G com as redes de satélites e a IA.
— As novas redes vão se fundir com as mega constelações de satélites. A Starlink, com milhares de unidades a 500 quilômetros de altitude, já soma números expressivos de clientes. Outros projetos (como a própria Amazon e empresas da Ásia e Europa) querem conectar diretamente celulares comuns às suas redes. Assim, a tríade IA-6G-satélites pavimenta um futuro em que fronteiras físicas importam menos e a conectividade se torna tão onipresente quanto a eletricidade. Satélites, redes 6G e chips avançados estão redesenhando a economia global e, mais cedo que tarde, também vão redesenhar o nosso cotidiano — prevê Rhode.
Sensores inteligentes
Assim, as teles já iniciaram os testes com as novas redes e começam a estudar as aplicações do futuro. Empresas de satélites também ampliam suas apostas. Leandro Gaunszer, diretor-geral da Viasat no Brasil, lembra que a cobertura de satélite vai ajudar a levar conectividade a setores estratégicos como transporte, agronegócio e manufatura, mesmo em áreas remotas:
— Haverá ainda o uso de tecnologias como sensores inteligentes e automação, impulsionando a produtividade e a transformação digital do Brasil, onde antes era impossível.
Silmar Palmeira, diretor sênior de Produtos na Qualcomm América Latina, diz que a evolução das redes vai transformar empresas e consumidores com veículos autônomos e conectados, gestão de tráfego inteligente, logística em tempo real, automação de máquinas agrícolas e robótica colaborativa, por exemplo.
— As redes 6G estão em desenvolvimento e deverão se tornar realidade globalmente em 2030. Isso vai abrir caminho para inovações revolucionárias.
Ao lembrar que o Brasil já está na expectativa do 5,5G, Atilio Rulli, vice-presidente de Relações Públicas e Institucionais da Huawei , classifica o 6G como a “internet dos sentidos”, em que experiências digitais não se limitarão à imagem e ao som, mas também incluirão tato e percepção sensorial.
Revolução à vista
— Para empresas e consumidores, isso significará uma revolução completa na forma de interagir com o mundo físico e virtual, com aplicações em saúde, mobilidade, educação, entretenimento e indústria. Estamos falando de cirurgias remotas com retorno sensorial e aulas imersivas com realidade aumentada. O principal desafio é garantir que a infraestrutura acompanhe o avanço tecnológico, com planejamento regulatório eficaz e políticas públicas consistentes — diz ele, lembrando que o 6G já é foco de investimento na empresa desde 2017.
Segundo dados da Anatel, o país conta hoje com 266 milhões de linhas móveis em operação, das quais 17,7% são 5G, que permite, em média, velocidade até vinte vezes maior que a rede de quarta geração. O 4G ainda é maioria, com 68,7% do total de usuários — mas por enquanto. A tendência, segundo especialistas, é que o 5G chegue à metade das conexões no fim desta década, já que fabricantes de smartphones vêm ampliando a produção de modelos mais modernos e baratos.
Para André Gildin, especialista do setor e sócio da consultoria RKKG, 6G vai permitir a criação de novas fontes de receita com a ampliação nas empresas de robôs colaborativos, inspeções via IA e utilização de gêmeos digitais (réplicas de sistemas físicos) operando em tempo real.
— No agro, a nova rede permitirá a expansão da agricultura de precisão com uso de drones, sensores e automação avançada, com a utilização mais frequente de robôs agrícolas, que poderão tomar decisões em tempo real, como ajustar plantio e irrigação com base em dados de sensores ambientais. O 6G será a infraestrutura invisível que dará “pernas e olhos” para a IA no mundo físico — afirma.
Para Gildin, a evolução do 4G para o 5G trouxe uma mudança significativa no comportamento de consumo, com novas possibilidades de serviços em tempo real, fomentando inovação em todos os setores da economia. Agora haverá uma mudança ainda maior no contexto dos negócios e da sociedade:
— Estamos saindo do foco na comunicação pessoal para serviços integrados e inteligentes entre organizações e pessoas. Para as empresas, isso significa habilitar operações em tempo real e capacidade de conectar milhões de dispositivos simultaneamente, o que vai melhorar a produtividade em todas as cadeias produtivas. O consumidor verá novos serviços imersivos, como realidade aumentada e virtual em alta resolução, ou seja, melhoria da experiência, junto com satélites, que estão ganhando espaço na conectividade.
Sandro Mendonça, professor do Departamento de Economia do Instituto Universitário de Lisboa, destacou a importância dos próximos três anos para criar os requisitos e padrões para o 6G. Ele diz que os estudiosos brasileiros precisam estar mais perto das grandes comunidades científico-tecnológicas que vão desenvolver o 6G.
— As preocupações estão voltadas à abrangência de cobertura, mas a sustentabilidade e a segurança são os principais temas paralelos no 6G — afirma ele.
Índia, Canadá, Japão e países do Oriente Médio também têm se dedicado ao 6G
— O maior desafio é chegar às novas gerações sem faltar cobertura básica — diz a consultora Ester Lourdes Almeida.
Como Evoluímos até Aqui
Foi a partir do dia 29 de julho de 1998 que o setor de telecomunicações iniciou seus primeiros passos rumo ao futuro. “O mundo disputa a Telebrás”, “O olé dos espanhóis” e “Carioca ainda vai aguardar dois anos por melhorias” foram apenas alguns dos primeiros títulos que ajudam a ilustrar não apenas a privatização do sistema de telefonia brasileiro — que atraiu grupos nacionais, espanhóis, portugueses, italianos e americanos —, mas também o início de uma cobertura multieditorial que se mostrou cada vez mais intensa e importante.
Apesar da concorrência, nem tudo ocorreu como previam os grupos vencedores, o governo e os consumidores. A cobertura do GLOBO mostrou, já nas semanas seguintes, os desdobramentos de um dos primeiros escândalos do setor pós-privatização, quando o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, foi flagrado num grampo telefônico. A divulgação de diálogos telefônicos, como um em que chamava os antigos acionistas da então Telemar (que se tornaria a Oi e era controlada pelo empresário Carlos Jereissati e o grupo Andrade Gutierrez) de “telegangue”, custou-lhe o cargo. Ele acabou deixando o governo junto com André Lara Resende, então presidente do BNDES, que organizou o leilão. A polêmica levou o Congresso a falar na abertura de uma CPI.
A privatização trouxe também uma enxurrada de ações apresentadas na Justiça contra o leilão e protestos na sede da Bolsa de Valores do Rio. O tom político também já era retratado, com Luiz Inácio Lula da Silva, na época candidato à presidência, comparando o então presidente Fernando Henrique Cardoso a Judas, por supostamente trair o povo brasileiro.
Os rumores de que as empresas que haviam adquirido os lotes da Telebrás pretendiam unir algumas companhias e iniciar demissões também foram alvo da cobertura, levando o próprio presidente do país a fazer um apelo para que as companhias não reduzissem o número de funcionários. Começou ainda a ganhar espaço um outro tema que, nas décadas seguintes, marcaria a cobertura do GLOBO e do setor em diversas editorias: a busca pela defesa dos consumidores.
Durante o processo de privatização, quando ainda não existiam hashtags, a chamada homepage (como era conhecido o endereço na internet) “odeioatelerj” já era alvo de matérias no GLOBO. Em 3 de agosto de 1998, a página já somavam mais de 6,5 mil visitantes. Eles reclamavam dos serviços da companhia carioca, como linhas telefônicas compradas e não instaladas, e aparelhos sem sinal.
Enquanto O GLOBO mostrava os planos das novas companhias no Brasil, o espaço para reportagens com críticas à falta de melhoria nos serviços crescia. Naquela época, os consumidores pagavam pela linha e precisavam aguardar — tempo que, geralmente, era maior que o prometido. Tema de diversas matérias, o assunto foi ganhando importância ao longo dos primeiros anos pós-privatização. Além das páginas da editoria de Economia, o assunto ganhou destaque nas edições do Jornal de Bairros, que constantemente retratavam os orelhões — telefones públicos que foram importante meio de comunicação até o início dos anos 2000 — mudos.
Na seção de “Cartas”, eram centenas de reclamações diariamente. A queixa da leitora Helena Maria Queiroz, de Nova Iguaçu, era direta: “Em novembro, fui ao posto da Telerj no Centro de Nova Iguaçu para reclamar de uma conta de telefone com valor muito acima do que costumo pagar. Fiquei seis horas numa fila para o atendente simplesmente dizer que eu deveria quitar a dívida antes de reclamar.”
No dia 21 de março de 1999, O GLOBO trazia na capa da editoria de Economia o cenário da época: “À espera de melhores serviços.” Dias depois, em sua primeira página, a notícia: “Governo multa Telefônica de SP e Telerj”. Na seção de Defesa do Consumidor, centenas de denúncias sobre o envio de contas para linhas que sequer haviam sido instaladas. Nos anos seguintes, apesar de o número de linhas ter aumentado, eram comuns as críticas pelo pífio desempenho das companhias e pelos preços elevados.
O setor foi ainda motivo de projetos premiados, como o caderno “Retratos do Brasil: exclusão digital”, vencedor do Prêmio Imprensa Embratel, em 2003, por retratar que, apesar do aumento no número de linhas em operação no país, era alto o total de pessoas sem acesso à tecnologia. Depois, em 2007, a série “O barato que dá linha” levou novamente o prêmio Embratel, por retratar os avanços da tecnologia móvel, a partir da chegada do 3G três anos antes, em 2004.
O tema continuou no radar com as fusões e aquisições das empresas, a criação da Supertele, com o lançamento da marca Oi, e, mais recentemente, o desmembramento da companhia para as rivais Claro, Vivo e TIM. O GLOBO também fez cadernos especiais sobre avanços e desafios do setor em 2008 e 2018.
Fonte: O Globo (28/07/2025)
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