quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Planos de Saúde: Após forte alta, planos de saúde podem perder usuários em 2025



A  ANS está propondo mudanças em algumas regras do setor que, na visão, de analistas e operadoras, vão encarecer o preço do convênio médico.


Após cinco anos de crescimento no número de usuários de planos de saúde - período em que houve um incremento de 4,4 milhões de contratos - impulsionado pela pandemia da covid-19, o setor deve patinar neste ano. A maior parte do mercado acredita que não haverá expansão, podendo ocorrer até queda em algumas estimativas.

Mesmo entre os mais otimistas, o crescimento é menor do que o registrado nos últimos anos. Essa deterioração reflete uma combinação de fatores, como piora nas taxas de desemprego e juros altos, operadoras priorizando aplicar reajustes para manter a rentabilidade e questões regulatórias e setoriais.

Segundo estimativas do Santander, o setor pode perder neste ano 358 mil clientes - esse volume é próximo do que as operadoras ganharam em 2020, primeiro ano da pandemia, quando houve um incremento de 393 mil usuários. Esse cenário chama atenção porque mostra a curva de desaceleração, que começou a ser sentida há dois anos, avançando para o território negativo.

Os analistas do Citi esperam que o ano termine com uma pequena queda ou, no máximo, seja mantido o atual patamar. Na mesma linha, a consultoria Arquitetos da Saúde acredita que não haverá crescimento este ano no setor que, atualmente, conta com 51,5 milhões de usuários de planos de saúde. Já o Itaú BBA projeta aumento entre 250 mil e 500 mil convênios médicos e a Abramge, entidade do setor, prevê um acréscimo de 600 mil vidas neste ano - em ambos os casos, é um incremento menor do que o registrado em 2023 e 2024 (até novembro), quando houve um aumento de 733 mil e 705 mil usuários, respectivamente.

A desaceleração vem aumentando ano a ano. Mas, caso as projeções de retração ou crescimento menor se confirmem, a mudança de ritmo no setor será muito mais brusca.

Preço dos planos de saúde seguirá subindo duas vezes acima da inflação, dificultando acesso”— Caio Moscardini

“O mercado de assistência médica deve contrair, com o ambiente macroeconômico sendo um obstáculo. Estimamos uma taxa de desemprego aumentando de 6,3% em 2024 para 6,8% em 2025. Além disso, o preço dos planos de saúde continuará subindo duas vezes acima da inflação geral, dificultando o acesso”, disse Caio Moscardini, analista do Santander. O banco projeta IPCA de 5,55% neste ano e inflação médica de 9%.

Na visão de Vinícius Figueiredo, do Itaú BBA, os últimos meses de 2024 mostraram uma expansão relevante que não deve se romper de forma repentina nos seis primeiros meses desse ano, mas pode haver uma deterioração no cenário macroeconômico no segundo semestre que, por sua vez, pode reduzir a base de pessoas com planos de saúde. “Não esperamos crescimento zero em 2025, talvez a regressão comece no segundo semestre, refletindo em 2026”, disse.

Já a Abramge, associação das operadoras de planos de saúde, tem uma visão mais otimista. Nas projeções da entidade, o setor terá um aumento de cerca de 600 mil usuários neste ano. Ainda assim, é um crescimento menor do que o registrado em 2023 e 2024 (até novembro), quando o incremento foi de 733 mil e 705 mil, respectivamente.

“Estamos projetando esse crescimento com base num aumento de 2% no PIB e geração de emprego entre 1,2 milhão e 1,6 milhão. Ponderamos que esse número pode sofrer alterações diante das mudanças regulatórios em discussão atualmente que podem elevar o preço do plano de saúde e reduzir o acesso ”, disse Gustavo Ribeiro, presidente da Abramge.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) está propondo mudanças em algumas regras do setor que, na visão, de analistas e operadoras, vão encarecer o preço do convênio médico.

Uma dessas propostas é a limitação da coparticipação em 30% no valor de cada procedimento médico, sendo que essa cobrança não poderá ser aplicada para terapias crônicas, oncologia, hemodiálise e alguns exames preventivos. A soma dos pagamentos com copartipação não poderá ser superior a 30% de uma mensalidade ou ultrapassar 3,6 mensalidades do plano de saúde no ano. Nos últimos anos, as operadoras e empregadoras vêm aumentando a fatia da coparticipação para obter um reajuste menor.

Em paralelo, há a questão do preço do plano de saúde, cuja inflação médica sobe, em média, duas vezes mais do que o IPCA e, neste ano, as operadoras ainda vão priorizar a aplicação dos reajustes, mesmo que num patamar menor do que o efetivado em 2024 - o aumento nas mensalidades dos planos de saúde foi um dos fatores que pesaram na inflação do ano passado, que ficou acima da meta.

Após um prejuízo operacional, acumulado de quase R$ 15 bilhões em 2022 e 2023, as operadoras passaram a ter como prioridade a reajustar preços mesmo que a medida represente a perda de clientes. Esse movimento continua em 2025.

Moscardini, do Santander, pondera que a queda prevista neste ano, de 385 mil usuários, não significa que a estrutura hospitalar vai ficar ociosa, mas mostra a dificuldade que o setor tem em ultrapassar a barreira dos 25% da população brasileira atendida por saúde privada. O Brasil nunca consegui atingir mais de 26% da população com convênio médico. Em suas projeções, o país conseguirá atingir 25,5% em 2034, considerando um crescimento médio anual (GAGR) de 1% entre 2026-2034.

Entre 2015 e 2019, o setor vinha em queda. Em 2020, primeiro ano da pandemia, retomou o crescimento motivado pelo receio da população em ficar sem plano de saúde. No ano seguinte, as operadoras reduziram preços tendo em vista que a inflação médica foi menor. Com isso, houve um aumento relevante de pessoas com o benefício. No acumulado de 2021 e 2022, cerca de 2,5 milhões de pessoas adquiriram um convênio médico, sendo que parte relevante adquiriu produtos de baixo custo.

No entanto, em 2022, os custos médicos dispararam devido ao aumento de uma nova variante da covid (delta) e à população retomando consultas e exames médicos, que foram interrompidos nos dois primeiros anos da pandemia.

Parte relevante dos planos de saúde contratados nos primeiros anos da pandemia foi de produtos mais baratos, o que acabou gerando um descasamento entre receita e despesas médicas. Além disso, nessa época, a ANS mudou algumas regras, permitindo, por exemplo, a realização de um número ilimitado de terapias a pacientes com transtorno do espectro autista (TEA). Hoje, a despesa com essas terapias (fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia e terapia ocupacional) nas operadoras ultrapassa os gastos com tratamentos oncológicos.

Fonte: Valor (03/02/2025)



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