Como uma estratégia de expansão alavancada levou à perda de ativos, valor e relevância, transformando a recuperação judicial em um mecanismo de adiamento do ajuste estrutural
A história da Oi é inseparável do processo de privatização e de transformação das telecomunicações no Brasil e explica como escolhas estruturais produziram um dos maiores e mais complexos colapsos corporativos já vistos no País.
A empresa surge em 1998, no processo de privatização do Sistema Telebrás, quando o governo brasileiro decidiu dividir a estatal em operadoras regionais para atrair capital privado e acelerar a universalização dos serviços. Na época, o país arrecadou US$ 4 bilhões com a transição.
No leilão, a Telemar (futura Oi), arrematou um dos maiores grupos estatais de telefonia da época, a Tele Norte Leste, com um ágio ínfimo de 1%, superando operadoras como a Telefônica e se consolidando como uma gigante. Desde o início, a companhia nasce com forte apoio estatal indireto já previsto no processo de privatização: financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), participação de fundos de pensão de estatais e com um arcabouço regulatório que lhe garantia receitas estáveis no serviço de telefonia fixa, até então dominante.
Durante os anos 2000, a Telemar, que só viria a ser Oi em 2007, passou a perseguir uma estratégia agressiva de consolidação. Em vez de se limitar à sua área original, a empresa avança sobre outros mercados, movimento facilitado por mudanças regulatórias que flexibilizaram algumas restrições impostas na privatização.
O vôo de Ícaro
E então, em 2008, a Oi inicia sua estratégia de expansão. Primeiro a compra da Brasil Telecom para ampliar sua presença nacional, mas incorporando também passivos relevantes e uma estrutura operacional complexa. Poucos anos depois, em 2013, tenta dar um salto internacional com a controversa fusão com a Portugal Telecom. A operação, apresentada como a criação de uma “campeã lusófona”, revelou-se desastrosa: além de problemas de governança, a PT estava exposta ao calote do Grupo Espírito Santo, cujo empréstimo de 1 bilhão de euros nunca foi pago.
Claro, à época o calote ainda não era factível, nem previsto, e a fusão ocorreu porque parecia resolver problemas de dívidas e fragilidade financeira de ambos os lados. Porém, isso contaminou o balanço da Oi de forma tal a nunca conseguir se recuperar. A aventura internacional se encerrava com perdas bilionárias. Em 2015, os ativos portugueses foram vendidos para a Altice, e a PT virou MEO, mantendo o nome antigo apenas para o B2B.
Esse ciclo de expansão deixou uma herança pesada: ao mesmo tempo em que o mundo migrava da telefonia fixa para serviços móveis e de dados, a Oi carregava uma estrutura de custos elevada, obrigações regulatórias típicas de uma concessionária e uma dívida que crescia mais rápido do que sua capacidade de geração de caixa.
A roda de Samsara
Em junho de 2016, a situação tornou-se insustentável. A Oi entrou com pedido de recuperação judicial no Brasil com cerca de R$ 65 bilhões (US$ 12 bilhões) em dívidas, no maior processo do tipo já registrado no país até então. No pedido, foram incluídas diversas empresas do grupo, como Oi Móvel, Portugal Telecom International Finance (PTIF), Copart 4 e 5 Participações e a holding holandesa Oi Brasil Holdings Coöperatief, que funcionava como veículo financeiro internacional.
O primeiro processo de recuperação judicial se estendeu por quase seis anos e adotou uma série de soluções extremas. Para tentar sobreviver, a Oi passou a vender praticamente todos os seus ativos estratégicos. Como parte do processo de recuperação, ao final de 2020 sua operação de telefonia móvel, justamente o segmento de maior crescimento do setor, foi vendida por cerca de R$ 16,5 bilhões (cerca de US$ 3 bilhões) para um consórcio formado por Vivo (Telefônica), TIM e Claro.
A aprovação do negócio pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) redesenha o mercado brasileiro. Ainda que tenham sido impostos uma série de remédios concorrenciais, isso reduziu o número de grandes operadoras móveis no Brasil de quatro para três, aumentando a concentração consequentemente.
Em paralelo, a Oi também se desfez de sua infraestrutura de fibra óptica, dando origem à V.tal, empresa controlada por fundos internacionais e especializada em redes neutras. Também vendeu torres de telecomunicações para grupos como a Highline. Essas operações geram caixa no curto prazo e permitem cumprir parte do plano de recuperação, mas com um efeito estrutural: a Oi perdeu controle sobre os ativos que sustentavam sua capacidade futura de competir. Ao sair do negócio móvel e da infraestrutura, a empresa se transforma em um operador residual, dependente de contratos e com margens cada vez mais comprimidas.
Em dezembro de 2022, a Justiça declarou encerrada a primeira recuperação judicial. Formalmente, a Oi havia cumprido o plano aprovado. Na prática, no entanto, a empresa emerge menor, mais frágil e sem um modelo de negócios claro. Poucos meses depois, em março de 2023, a realidade se impõe novamente. Com dificuldades para honrar obrigações correntes e um passivo ainda estimado entre R$ 40 bilhões e R$ 44 bilhões (cerca de US$ 8 bilhões), a Oi entra em um segundo processo de recuperação judicial.
É nesse segundo ciclo que surge um novo elemento central na crise: a Pimco. A gestora americana, uma das maiores do mundo em renda fixa, já era credora relevante da Oi. No novo plano de recuperação, parte da dívida é convertida em ações, mecanismo autorizado pelo Cade. Com isso, fundos ligados à Pimco passam a deter cerca de 35% a 36% do capital social da Oi, tornando-se o maior acionista individual da companhia. Do ponto de vista formal, a operação visava reduzir o endividamento e alinhar interesses entre credores e a empresa. Do ponto de vista prático, ela alterou profundamente o equilíbrio de poder dentro da Oi.
A partir daí, o processo deixa de ser apenas financeiro e passa a ser também societário e judicial. Credores, parceiros e subsidiárias começam a questionar o papel da Pimco. Decisões tomadas durante a reestruturação passam a ser vistas como prejudiciais à preservação do patrimônio da companhia. A Justiça do Trabalho chega a bloquear créditos ligados à gestora, apontando indícios de abuso de poder de controle, gestão temerária e esvaziamento patrimonial, especialmente em relação à Serede, empresa responsável por serviços de rede e manutenção. Magistrados citam gastos considerados incompatíveis com a situação financeira da Oi, como despesas elevadas com consultorias internacionais e estratégias jurídicas no exterior, incluindo discussões sobre Chapter 11 nos Estados Unidos.
A Pimco, por sua vez, nega reiteradamente ter exercido controle ou interferido na gestão operacional da Oi. Sustenta que sua posição foi a de credora que recebeu ações em um processo judicialmente aprovado, e não a de controladora de fato. Ainda assim, o conflito se agrava. A V.tal acusa a gestora de influenciar indicações de administradores e decisões que teriam comprometido contratos essenciais. O ambiente de incerteza afeta diretamente a percepção do mercado e a confiança no valor da companhia.
Em novembro de 2025, a crise atingiu seu ponto mais dramático. A 7ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decretou a falência da Oi S.A., classificando a empresa como tecnicamente insolvente, com patrimônio esvaziado, dívida da ordem de R$ 1,7 bilhão e receita mensal incapaz de sustentar suas obrigações. Hoje o valor de mercado da Oi é residual: cerca de R$ 58 milhões (US$ 10,7 bilhões) em capitalização de mercado, refletindo a perda quase total de valor da empresa após anos de reestruturação, alienação de ativos e deterioração do seu modelo de negócio.
A decisão inclui holdings como a PTIF e a Oi Brasil Holdings, enquanto subsidiárias operacionais, como Serede e Tahto, seguem caminhos judiciais próprios. Dias depois, porém, tribunais de instância superior suspendem a falência, atendendo a recursos de grandes credores e determinando a apuração mais aprofundada das responsabilidades de administradores e acionistas relevantes, incluindo a Pimco.
Pouco antes e logo após esse episódio, a Pimco inicia uma saída acelerada do capital da Oi, vendendo sua participação até zerar a posição. Para o mercado, o movimento funciona como um sinal claro de ruptura: o maior acionista abandona a companhia no momento mais crítico de sua história.
Do ponto de vista mercadológico, o colapso da Oi produz efeitos que vão muito além da empresa: antes de tudo trata-se da prestação de um serviço essencial. A Oi ainda mantém contratos com mais de 4,6 mil entidades públicas e privadas, incluindo órgãos federais, estaduais e municipais, o que impacta diretamente a operação de serviços públicos críticos no Brasil.
Em paralelo a tantos revezes, a Anatel e o TCU (Tribunal de Contas da União) passaram a atuar de forma coordenada para garantir a continuidade dos serviços essenciais. Em novembro de 2025, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou a liberação de mais de R$ 450 milhões em garantias retidas pela Anatel, autorizando o uso dos recursos para custear despesas operacionais imediatas, como o pagamento de salários da Serede.
Paralelamente, o TCU acompanhou as negociações regulatórias envolvendo a adaptação dos contratos de concessão, reforçando a avaliação de que o colapso da Oi extrapola a insolvência empresarial e exige soluções institucionais para mitigar riscos sistêmicos à prestação de serviços, ao emprego e à infraestrutura de telecomunicações.
Sobrevida sem reconstrução
A trajetória da Oi, vista em retrospecto, revela uma combinação de fatores: a expansão por meio de aquisições aumentou o tamanho da companhia, mas também o endividamento, sem gerar ganhos equivalentes de eficiência ou de caixa. Isso deixou a Oi especialmente vulnerável a falhas de governança, às mudanças regulatórias e ao aperto do crédito.
Mais do que uma sucessão de eventos financeiros, o caso Oi revela um padrão de decisões que privilegiou a preservação formal da empresa em detrimento de sua viabilidade econômica. As recuperações judiciais não foram apenas instrumentos de proteção, mas também mecanismos que redistribuíram perdas de forma assimétrica, transferindo o custo do colapso para credores menores e trabalhadores.
Ao manter a companhia operando sem recompor sua base econômica, o processo prolongou a incerteza, destruiu valor e transformou uma crise empresarial em um problema institucional permanente.
Fonte: DPL News (06/01/2026)
Nota da Redação: A questão central atual é saber até quando a quase falida Oi seguirá mandando na Fundação Sistel com seus 5 conselheiros deliberativos que seguem compondo maioria no órgão decisor da Sistel, mesmo sabendo que essa "patrocinadora" nunca contribuiu com qualquer plano, mas só consome superávits do plano PBS-A.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
"Este blog não se responsabiliza pelos comentários emitidos pelos leitores, mesmo anônimos, e DESTACAMOS que os IPs de origem dos possíveis comentários OFENSIVOS ficam disponíveis nos servidores do Google/ Blogger para eventuais demandas judiciais ou policiais".