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Para uma parcela das pessoas acima de 50 e 60 anos, a maturidade traz a oportunidade de realizar sonhos
O significado de “envelhecer” está em transformação. Para parte da população, a percepção de maturidade no mundo contemporâneo engloba a possibilidade de um período de liberdade, sonhos e realizações.
O sucesso do time sueco de e-sports Silver Snipers (Atiradores Prateados, em tradução livre) é um exemplo da ressignificação do envelhecimento. O grupo formado exclusivamente por aposentados ganhou notoriedade em 2018 e tem hoje uma média de 74 anos. O membro mais experiente completou 82 em 2025.
Os Silver Snipers dominam o jogo de tiro Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO), transmitindo partidas e competindo em grandes palcos digitais. Com o game, eles exercitam a estratégia e a coordenação motora.
Jogadores como Oivind Toverud e Monica Indefors, cujos codinomes digitais são Windy e Teen Slayer respectivamente, utilizam a plataforma para combater o isolamento. Nas redes, o grupo estabelece conexão com milhares de fãs pelo mundo.
No Brasil, também há uma série de idosos apaixonados pelo mundo dos jogos. Assim é a realidade da paranaense Maria de Lourdes de Souza, de 73 anos, conhecida nas plataformas digitais como “Dona Maria Gameplays”. A rotina é agitada: a influenciadora faz duas lives por dia, de segunda a sábado, e transmite sua atuação nos videogames para mais de um milhão de seguidores no TikTok.
Maria conta que começou a produzir conteúdo em 2022, durante a pandemia de covid-19, para complementar a renda. A primeira aposta foi a culinária, mas um seguidor sugeriu que a cuidadora aposentada se aventurasse no mundo dos games. Com carisma, ela viralizou naquele mesmo ano e hoje celebra o sucesso on-line enquanto se diverte diariamente com centenas de jogadores.
“Minha relação com os videogames é prazerosa. Quando não estou gravando, estou no meu quarto jogando. Muita gente pede para jogar comigo. Sempre marco com os meus fãs. Na internet, todo mundo me abraçou. Me sinto tão confortável e amada”, avalia.
Um levantamento de 2025 aponta o maior interesse dos idosos brasileiros por games. De acordo com a pesquisa Cultura nas Capitais, realizada pela JLeiva Cultura & Esporte em parceria com o Datafolha, 20% das pessoas com mais de 60 anos acessaram jogos eletrônicos nos 12 meses anteriores ao questionário, colocando a categoria à frente de atividades como ir ao teatro (18%) e visitar bibliotecas (15%). Embora a leitura se mantenha no topo das preferências gerais (51% ), um a cada cinco idosos acessa jogos on-line.
Mas os novos interesses vão muito além dos games.
Desde jovem Sandra Paixão Velloso praticava atividades físicas diversas, como aulas de luta e corrida. Mas uma canelite severa há cerca de dez anos levou a dançarina de 67 anos a procurar uma nova modalidade esportiva.
O pole dance entrou na vida da carioca como uma surpresa: ela buscava algo “mais desafiador” do que a rotina da musculação e se encantou com o potencial atlético da modalidade.
O engajamento de Sandra com o pole dance se intensificou após a aposentadoria. Em pouco tempo, a atleta trocou as aulas por treinos focados e decidiu mergulhar no mundo das competições. Aos 60, a dançarina encarou seu primeiro campeonato na categoria 50+, um feito que rapidamente a levou a pódios internacionais.
“Na segunda competição, fui campeã pan-americana. A vitória foi um presente de 61 anos no dia do meu aniversário”, relembra. A partir dessa conquista, o esporte se tornou meio para a realização de novos sonhos: participações em campeonatos mundiais nas modalidades Pole Sport e Pole Exótico.
“Nesse esporte há disciplina, treinamento, força, vontade e não só a sensualidade. Ao se comprometer com o pole e não desistir no meio do processo, vem a autoestima. Fazemos coisas que nunca imaginamos ser capazes, como estar lá em cima de cabeça para baixo”, detalha.
Sandra é categórica ao afirmar que o pole dance também é para mulheres maduras.
“No primeiro momento, é desafiador, mas o pole é um ambiente acolhedor. É um esporte para todo mundo, desde que haja perseverança. O ‘envelhecer’ está no parar de sonhar”, avalia ela, que dá mentorias para mulheres sobre a importância de abraçar novos desafios na maturidade.
O ‘envelhecer’ está no parar de sonhar - Sandra Velloso Paixão, campeã de pole dance após os 60 anos
Trilhas radicais
A história de Marineth Huback também desafia a noção de que a maturidade implica desacelerar. A carioca de 88 anos descobriu o montanhismo e o rapel aos 59. No ano seguinte, se aventurou nas alturas pela primeira vez.
Ao longo de quase três décadas de atividade ininterrupta, Marineth escalou mais de 125 montanhas, e mantém uma rotina que inclui tai chi e musculação.
“Estou há quase 30 anos escalando. É onde me encontro. Onde encontro Deus. A melhor coisa que fiz na vida foi casar com as montanhas”, vibra.
“Nunca senti etarismo nas escaladas, mesmo quando fazia o curso com os mais jovens. Nós fazíamos muitas atividades juntos. Hoje, sou a escaladora mais antiga do Rio de Janeiro”, ressalta com orgulho.
Estou há quase 30 anos escalando. É onde me encontro. Onde encontro Deus. A melhor coisa que fiz na vida foi casar com as montanhas - Marineth Huback, praticante de montanhismo
Marineth entende o montanhismo como um compromisso com a qualidade de vida, e atualmente compõe o Centro Excursionista Brasileiro (CEB), que conta com membros de todas as idades. O clube é o mais antigo do Rio de Janeiro, com 105 anos. Muitos idosos são engajados em passeios com trilhas, segundo ela.
“Não me interessa viver muito. Quero viver bem. A terceira idade do Brasil está vivendo mais, porém vivendo mal. Se for para ficar assim, não me interessa. Quero chegar bem até onde puder.”
Intercâmbio 50+
O sonho da dentista Adriana Bellinetti Silva é conhecer o mundo e o fim de um ciclo de vida abriu espaço para começar a realizá-lo, porém um obstáculo a paralisava: a paulistana só dominava o português. Em setembro, aos 57 anos, ela fez então um intercâmbio de quatro semanas em Malta, na Europa, com objetivo de aprender a língua inglesa.
Além dos estudos, a experiência proporcionou contato com estrangeiros, atividades extracurriculares, como andar de caiaque e aprender a fazer o tradicional licor de limão italiano (limoncello), e amizades para a vida toda. Mesmo com medo de embarcar na primeira aventura sozinha, a iniciativa mudou sua percepção de independência após a viuvez.
“Não sabia nada de inglês e aprendi um pouco. O que mais valeu a pena foi sentir a liberdade de saber que posso ir sozinha. Agora, que venham os próximos! Quero aprender cada vez mais a língua para manter contato com as pessoas que conheci de outros países”, afirma.
Na escola de idiomas Education First (EF), aproximadamente 800 alunos com mais de 50 anos realizaram intercâmbio entre 2017 e 2025, e o interesse é crescente. Em 2024, 125 estudantes com esse perfil tiveram a experiência no exterior. Em 2025, até novembro, foram 194 e a projeção para 2026 é de 250 intercambistas 50+.
Gerente da EF Brasil, Denis Buzzi ressalta que não há “idade perfeita” para viver uma experiência de aprendizado internacional e que o mercado tem buscado desconstruir a percepção de que os programas são voltados apenas para adolescentes. “O medo e a insegurança vêm do desconhecimento”, diz.
Atualmente, o inglês é o idioma mais procurado pelos estudantes acima de 50 anos na EF, e os dois principais destinos são Nova York e Malta.
Segundo Buzzi, com o intercâmbio, esses alunos percebem que “ainda podem fazer coisas que achavam não ser mais capazes” e desenvolver novas habilidades, fatores que contribuem para a autoconfiança. “A idade não é um fator limitador.”
Vidas singulares
“O primeiro pilar para envelhecer de forma saudável é mudar nossa visão sobre o envelhecimento”, defende o geriatra Milton Crenitte, diretor técnico do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR). “Trabalhar contra o preconceito ajuda a maneira como a gente sente e pensa a própria idade. Garantir saúde e longevidade é trabalhar o etarismo presente dentro de nós e da sociedade.”
Crenitte rejeita uma visão homogênea da população madura. Ele prefere dizer que existem “velhices”, defendendo o direito à vida plena e singular.
“Muitos colocam as pessoas 60+ em uma mesma caixa, como se fossem todos iguais, mas elas são singulares, com sonhos, afetos e desejos completamente diferentes”, pontua. Um dos principais papéis da geriatria, diz o médico, é justamente honrar essas particularidades.
Para ele, é preciso “garantir vida aos anos do envelhecimento”. Isso inclui promover o engajamento social e o senso de propósito, essenciais para a saúde física e mental na velhice. Um idoso mais engajado tem uma sensação de solidão menor e chances reduzidas de adoecer emocionalmente devido à entrada em um “ciclo virtuoso”: o sentimento de satisfação pessoal estimula a participação social e os hábitos saudáveis, como atividade física.
Professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em longevidade, Anita Neri enfatiza a crescente liberdade e aceitação na terceira idade. “As pessoas estão vivendo mais tempo com possibilidade de serem ativas, terem vidas felizes e se envolverem em projetos pessoais inovadores.”
“Os idosos estão sendo constantemente estimulados a gostarem de si da forma que são”, explica Anita. “Não há mais regras rígidas sobre como devem se vestir, agir ou ser. Eles são muito mais livres do que já foram no passado.”
Fonte: Estadão (18/01/2026)
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