Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no País, com cerca de 400 mil vítimas todos os anos
Um estudo feito com mais de 2 milhões de pessoas no mundo todo analisou o impacto dos cinco fatores clássicos de risco cardíaco na expectativa de vida. Eles são: hipertensão, colesterol elevado, peso fora do ideal, diabetes e tabagismo.
Os resultados mostraram que chegar aos 50 anos livre de todos eles pode impactar na longevidade. Nas mulheres, a média foi de 13,3 anos a mais livres de doenças cardiovasculares, enquanto os homens ganharam em média 10,6 anos. Já em relação à sobrevida geral, a diferença chegou a 14,5 anos para mulheres e 11,8 anos para homens, na comparação com pessoas que apresentavam todos os fatores de risco.
Publicado no ano passado no The New England Journal of Medicine, o estudo inclui dados de 39 países dos seis continentes.
Para o cirurgião cardiovascular José Cícero Stocco Guilhen, o estudo reforça a importância da prevenção precoce, considerando que doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil e fazem cerca de 400 mil vítimas todos os anos. “A prevenção não é só para idosos e precisa ser agressiva antes e durante a meia-idade”, avalia.
Por trás dos cinco fatores de risco cardíaco
Para o cardiologista e assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) Pedro Duccini, os dados chamam atenção porque essas condições clássicas são silenciosas. “Hipertensão, colesterol, diabetes e obesidade não apresentam sintomas no início, mas alimentam um processo inflamatório dos vasos”, explica.
A seguir, veja como cada uma delas se relaciona ao risco cardiovascular.
- Hipertensão arterial
A estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que mais de um bilhão de pessoas no mundo tenham hipertensão arterial.
“Quando a pressão está alta, é como se o coração estivesse sempre empurrando o sangue através de um tubo estreito e rígido”, explica Duccini. Na prática, isso desgasta o sistema cardiovascular.
“A hipertensão provoca microlesões na parede arterial”, explica Guilhen. Isso favorece a rigidez dos vasos, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC) e arritmias.
No estudo, o controle da hipertensão foi a medida que mais se associou a anos adicionais livres de doença cardiovascular.
- Colesterol elevado
Segundo o Ministério da Saúde, quatro em cada dez brasileiros têm colesterol alto. O excesso, especialmente do LDL – o colesterol “ruim” – favorece a inflamação e a formação de placas nas artérias.
“Os fatores de risco estão associados, por diferentes mecanismos, ao aumento da aterosclerose, que é a deposição de gordura e a inflamação que ocorre na parede das nossas artérias”, diz Talia Dalçóquio, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês.
A aterosclerose está ligada à maior parte dos eventos cardiovasculares, incluindo infarto e AVC, diz a especialista.
- Peso fora do ideal
Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, 68% dos adultos no País têm Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 25 kg/m². Isso quer dizer que quase sete em cada dez brasileiros estão acima do peso normal e podem ser classificados com sobrepeso ou obesidade.
No entanto, quem está muito abaixo do peso ideal não está livre de complicações. Em um estudo dinamarquês, pessoas com IMC abaixo de 18,5 kg/m² (baixo peso) apresentaram uma probabilidade quase três vezes maior (2,73 vezes) de óbito em comparação com os indivíduos com IMC entre 22,5 e 24,9 kg/m².
Duccini explica que o peso fora do ideal é fator de risco para doenças cardíacas devido aos efeitos sobre o metabolismo. “Peso alto ou muito baixo desregula os hormônios, tornando o coração mais vulnerável às doenças”, diz.
Para Guilhen, o excesso de peso facilita o efeito cascata: “Ele se associa à inflamação sistêmica e puxa outros fatores, como diabetes e hipertensão”.
- Diabetes
O Atlas da Federação Internacional de Diabetes (IDF) posiciona o Brasil em sexto lugar no ranking de nações com mais pessoas com a condição no mundo. No País, são mais de 16 milhões de casos.
“O açúcar alto lesa o vaso de forma muito semelhante ao colesterol: também gera processo inflamatório da parede do vaso sanguíneo e forma placas de gordura com mais facilidade”, sintetiza Duccini.
Guilhen adiciona o fato do diabetes acelerar o envelhecimento vascular. “Ele piora a função endotelial (ou seja, afeta o endotélio, que reveste a superfície interna dos vasos sanguíneos), aumenta o estresse oxidativo e acelera a aterosclerose”, elenca.
- Tabagismo
“O cigarro é como uma substância corrosiva nas artérias”, resume Duccini. Segundo o cardiologista, os produtos de tabaco danificam o revestimento dos vasos, deixando-os mais suscetíveis a entupimentos e coágulos (trombose).
Talia, por sua vez, ressalta que parar de fumar entre 55 e 60 anos foi a mudança associada ao maior ganho de anos de vida no estudo publicado no The New England Journal of Medicine.
“O impacto que parar de fumar causa na melhora da saúde é impressionante”, constata. E conclui: “Quanto mais cedo e melhor controlarmos esses fatores de risco, maior será o benefício”.
Mudanças que atenuam o risco cardiovascular
Duccini destaca que a literatura traz alguns pilares pensados para manter a saúde cardiovascular, os chamados "Life’s Essential 8“.
O primeiro pilar é a alimentação balanceada. “Baseada na clássica dieta do Mediterrâneo, é uma alimentação rica em leguminosas, frutas, proteína magra e gordura insaturada”, detalha. Ele engloba ainda evitar alimentos ultraprocessados, além do açúcar adicionado.
Outro ponto é a atividade física. “Fazer 150 minutos semanais de uma atividade aeróbica é o que a OMS hoje recomenda como o mínimo”, enfatiza. Além disso, a qualidade e a regularidade do sono também entram na lista.
Os cinco pilares restantes dialogam diretamente com os principais fatores de risco cardíaco: não fumar e manter o controle do peso, do colesterol, do açúcar e da pressão arterial.
Fonte: Estadão (20/01/2026)
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