sábado, 22 de agosto de 2026

Comportamento: Sociedade médica atualiza tratamento para diabetes tipo 2; veja o que mudou

 


Uma das mudanças principais é que pacientes com diabetes tipo 2 vão tratar a obesidade conjuntamente

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) atualizou as diretrizes de tratamento clínico de diabetes no Brasil. A mudança principal nas decisões é que, agora, pacientes com diabetes tipo 2, o mais comum entre os diagnosticados, terão de tratar a obesidade conjuntamente. Até então, o tratamento da obesidade era opcional em tal condição.

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— Saímos do foco de apenas controlar a glicose para também olharmos para o controle do peso e riscos para os rins e coração. O estilo de vida saudável é fundamental, mas a ideia é também indicar medicamentos que possam ajudar no controle da obesidade e do diabetes, além de prevenir outras complicações, como o infarto, a insuficiência cardíaca e a doença renal associadas ao próprio diabetes — explicou Marcello Bertoluci, coordenador de Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Entre os medicamentos que podem ser utilizados estão os agonistas do GLP-1, como o Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

— Quando o paciente começa a ter sobrepeso, ou quando já há alterações metabólicas, mesmo antes de apresentar diabetes tipo 2, há estudos mostrando que esses medicamentos são muitos úteis para a remissão do quadro, protegem contra a progressão da doença renal e reduzem a incidência de infarto— disse Bertoluci.

O médico afirma ainda que o combate ao excesso de gordura no tecido adiposo deve ser realizado por toda a vida.

— Quando o paciente já apresenta estados mais avançados das complicações do diabetes, com lesões em órgãos como coração e rim, além destes medicamentos, se somam outros (inibidores do SGLT2) que precisamos usar para proteger a progressão da doença — diz.

Entre os órgãos mais afetados estão rins, pâncreas, artérias coronárias e artérias cerebrais, fígado e coração. Os principais problemas estão relacionados à insuficiência cardíaca, infarto agudo do miocárdio, AVC perda da função renal e progressão do próprio diabetes tipo 2 para necessidade de uso de insulina.

O diabetes é uma condição crônica onde existe resistência à insulina associada a um grau variável de deficiência da produção de insulina pelo pâncreas. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta 14% da população adulta global, cerca de 828 milhões de pessoas. No Brasil, o percentual de 12,9% equivale a cerca de 19,9 milhões de indivíduos, com base nos números do Censo Demográfico de 2022, do IBGE.

Os tipos mais comuns de diabetes são o 1 e o 2. O primeiro é uma doença autoimune onde o organismo produz anticorpos contra o próprio pâncreas destruindo as células que produzem insulina e levando a uma deficiência muito grave, onde a necessidade de seu uso é vital. No segundo há uma participação da obesidade junto com fatores genéticos que em conjunto causam resistência à ação da insulina e progressivamente uma deficiência, que pode ser evitada. Ambas levam a complicações crônicas que podem ser evitadas com o controle da glicemia e dos fatores de risco. A obesidade a hipertensão e o colesterol são os principais.

A pesquisa Vigitel, divulgada pelo Ministério da Saúde no início deste ano, mostra que 12,9% dos adultos brasileiros têm um diagnóstico de diabetes. O número, referente a 2024, revela um aumento de 134,5% em relação à primeira edição do levantamento, feita quase 20 anos antes, em 2006. Na época, a prevalência da doença era de 5,5%.

Gestantes

Outra mudança nas diretrizes apresentada pela sociedade é a recomendação de anticoncepcional para mulheres com a hemoglobina glicada acima de 9. Segundo Lenita Zajdenverg, coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD, um em cada seis nascidos vivos são filhos de mães com hiperglicemia na gravidez, o que eleva o risco de malformações fetais.

— É claro que a decisão de ter um filho é da mulher, mas aquelas que tiverem uma hemoglobina glicada acima de nove e que estão na possibilidade de engravidar, devem ser aconselhadas a não engravidar pelo aumento significativo do risco de malformações e outras complicações gestacionais — afirmou Zajdenverg.

Nestes casos, é preferível postergar a gestação até que o nível esteja abaixo de 6. Outra mudança é em relação a mulheres com diabetes tipo 1 ainda não grávidas que estejam com dificuldades de manter o controle glicêmico, a indicação é de uso de sistemas automatizados de infusão de insulina.

— Temos evidências de que o uso de sistemas automatizados pré-gestacional melhora o desfecho da gestação por melhorar o controle glicêmico — afirmou a médica.

Zajdenverg também disse que as mulheres com diabetes tipo 2 e que usam medicamentos agonistas GLP-1 precisam trocar de medicação antes da gestação para outros mais seguros.

— Existem estudos observacionais que mostram que o uso do agonista no primeiro trimestre da gravidez não aumentou risco de malformações, entretanto são medicamentos que ainda não estão autorizados para uso na gestação e devem ser substituídos por medicamentos seguros que no caso, na gravidez, é a insulina — disse.

Alternativa da China sem canetas

Grupo de pesquisadores da Universidade Normal do Leste da China encontrou técnica para alterar bactéria para reduzir impactos da diabetes

Pesquisadores chineses desenvolveram um probiótico geneticamente modificado capaz de detectar picos de glicose no sangue e liberar automaticamente um hormônio redutor de açúcar, com desempenho comparável ao do medicamento Ozempic em testes com animais. O estudo foi publicado na revista Nature.

A equipe responsável pertence à East China Normal University, em Shanghai. Os cientistas já registraram patentes para a tecnologia e iniciaram a ampliação da produção para atender aos padrões farmacêuticos exigidos nos mercados dos Estados Unidos e da Europa.

O composto, batizado de GIFT (glucose-sensing and functional response probiotic), foi criado a partir da inserção de um gene regulador sensível à glicose em uma cepa de Escherichia coli. A bactéria modificada passa a expressar o peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), hormônio também reproduzido por medicamentos como Ozempic e Wegovy.

Segundo os pesquisadores, o sistema funciona como um mecanismo de liberação que age apenas quando necessário, o que reduziria o risco associado à administração prolongada de doses desnecessariamente altas. “Nosso medicamento vivo baseado em probióticos permite dosagem terapêutica em resposta aos níveis de glicose no sangue em tempo real, fornecendo uma plataforma programável, de administração oral, de detecção e resposta para terapia metabólica sem necessidade de transplante”, escreveram os autores no artigo publicado na Nature.

O tratamento busca reproduzir um processo que ocorre naturalmente no organismo: ao detectar aumento da glicose, o corpo aciona uma cadeia de respostas hormonais que estimula o pâncreas a liberar insulina e reduz a quebra das reservas de glicose. Em pessoas com diabetes tipo 2, esse mecanismo é prejudicado pela resistência das células à insulina, mantendo os níveis de açúcar elevados no sangue.

Medicamentos agonistas de GLP-1 já aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos para tratamento de diabetes tipo 2 e emagrecimento podem causar efeitos colaterais, e sua administração em dose diária fixa nem sempre corresponde à necessidade momentânea de insulina do organismo.

Testes preliminares em camundongos e em macacos diabéticos indicaram que o mecanismo funciona conforme previsto, sem sinais de efeitos nocivos. Estudos anteriores citados no artigo também associaram produtos de fermentação, como o ácido butírico, à regulação da glicose e da insulina em camundongos diabéticos, além de vincular cepas probióticas específicas a melhor tolerância à glicose e menor gordura visceral. Um ensaio clínico com 409 participantes mostrou ainda que a berberina, associada ou não a probióticos, reduziu a hemoglobina glicada.

Os pesquisadores afirmam que a plataforma é modular e poderia ser adaptada para liberar outros agentes hipoglicemiantes. “Além do GLP-1, essa plataforma modular poderia ser prontamente adaptada para entregar outros agentes hipoglicemiantes, em teoria oferecendo flexibilidade para associar a detecção de glicose a diferentes respostas terapêuticas”, escreveram os autores.

Testes em seres humanos ainda não foram realizados. Qualquer probiótico comercializado como suplemento nos Estados Unidos precisaria passar por etapas de fabricação, segurança e regulamentação, com escrutínio maior sobre alegações de benefício médico do que em produtos convencionais do tipo iogurte.

Fonte: O Globo e Forum (20/08/2026)

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