O ativo colocado à venda corresponde à fatia de 27,26% do capital da V.tal detida pela Oi
A Justiça do Rio de Janeiro autorizou a Oi a vender sua participação na V.tal, empresa controlada pelo grupo BTG Pactual, de André Esteves, no âmbito do processo de recuperação judicial. A alienação será feita por leilão com propostas fechadas, com preço mínimo de 12,3 bilhões de reais, conforme edital aprovado pela 7ª Vara Empresarial da capital fluminense.
O ativo colocado à venda corresponde à fatia de 27,26% do capital da V.tal detida pela Oi, por meio da alienação de 100% das ações que a telecom mantém na companhia. O edital prevê pagamento à vista, em dinheiro, e veda propostas com parcelamento, troca de ativos, compensações ou uso de créditos.
A decisão também estabelece que o comprador não assumirá dívidas nem outras obrigações da Oi ou de empresas do grupo.
As propostas deverão ser entregues em envelopes lacrados ao juízo responsável durante a audiência de abertura do leilão, marcada para 5 de março. Caso todas as ofertas fiquem abaixo do valor mínimo, o edital prevê o encaminhamento das propostas para avaliação dos credores.
Uma fonte próxima das empresas ouvida pelo Bastidor afirmou não ver, ao menos por enquanto, atratividade na compra dos 27% pertencentes à Oi e disse que a preferência é pela entrada de um parceiro estrangeiro.
Segundo ela, o grupo já controla 72,5% da V.tal e, por ora, não há planos de alcançar 100%, já que o percentual atual garante controle quase total. O executivo acrescentou que a operação exigiria um desembolso elevado e dependeria do aval dos demais fundos parceiros, uma vez que os recursos não são exclusivamente do BTG.
A autorização para a venda ocorre após a realização de um ajuste contábil de 12 bilhões de reais na V.tal. A empresa afirma que o ajuste não tem impacto sobre o caixa e que as operações seguem normalmente. Ainda assim, o efeito será incorporado ao balanço de 2025, com impacto negativo no lucro líquido e no patrimônio líquido, o que tende a pressionar o valuation da companhia. Na prática, a participação passa a valer menos aos olhos do mercado.
O ajuste foi apresentado pela diretoria financeira ao conselho de administração da V.tal, no qual a Oi tem um assento, em reunião online realizada em 30 de dezembro. Após o encontro, a medida foi comunicada ao mercado.
Antes disso, a V.tal já vinha registrando resultados negativos, com prejuízo líquido no segundo e no terceiro trimestres de 2025. No primeiro trimestre, a companhia reportou lucro de 24 milhões de reais. No trimestre seguinte, o prejuízo foi de 380,3 milhões de reais e, no terceiro, de 343,7 milhões de reais.
Apesar do quadro, o executivo ouvido avalia que o ajuste contábil e a provável redução do valor da participação de 27% tendem a aumentar – e não a reduzir – a concorrência pelos ativos. Porém, o risco é que as ofertas apresentadas não alcancem o preço mínimo previsto no edital.
Potencial benefício
O ajuste contábil, ao menos em tese, beneficia o BTG. Ao reduzir o patrimônio líquido da V.tal e sinalizar projeções mais conservadoras de resultados futuros, a baixa contábil deprime o valor de referência da companhia e enfraquece o poder de negociação da Oi. Na prática, a participação da Oi passa a valer menos e abre caminho para que os controladores atuais adquiram a fatia por um preço inferior.
O movimento também funciona como uma estratégia de “kitchen sinking”, em que todo o prejuízo possível é concentrado de uma vez para “limpar” o balanço. Ao reduzir a base de ativos e o patrimônio líquido em 2025, a V.tal cria condições para que indicadores de rentabilidade pareçam mais robustos a partir de 2026, mesmo sem mudanças estruturais na operação. O prejuízo contábil elimina lucros acumulados e bloqueia a distribuição de dividendos, garantindo que o caixa permaneça dentro na empresa.
A ofensiva do BTG
O Bastidor revelou no ano passado que documentos levados ao tribunal de falências nos EUA mostram que, entre 2021 e 2025, o BTG, por meio da V.Tal, assumiu o controle da maior rede de fibra ótica do país. A infraestrutura, avaliada em quase 13 bilhões de reais e que pertencia à Oi, foi adquirida por uma fração do que valia.
A notícia tratava do pedido de proteção da administração da Oi junto a uma corte de falências americana pelo mecanismo do Chapter 11. A empresa buscava um mecanismo de proteção no exterior.
A matéria detalhou a operação contestada pela Oi. A reportagem, que teve acesso aos documentos, mostra que o BTG estruturou os negócios de forma a manter a empresa de telefonia em estado de dependência permanente, amarrada por contratos de longo prazo que consomem seu fluxo de caixa enquanto a impedem de competir efetivamente.
Na prática, a Oi tornou-se “inquilina de sua própria infraestrutura, pagando mensalmente ao BTG pelo direito de usar a rede que construiu ao longo de décadas”.
Fonte: O Bastidor (29/01/2026)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
"Este blog não se responsabiliza pelos comentários emitidos pelos leitores, mesmo anônimos, e DESTACAMOS que os IPs de origem dos possíveis comentários OFENSIVOS ficam disponíveis nos servidores do Google/ Blogger para eventuais demandas judiciais ou policiais".