domingo, 15 de março de 2026

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sábado, 7 de março de 2026

Fundos de Pensão: Conservadorismo com renda fixa prevalece nos fundos de pensão, mesmo com previsão de início do corte na Selic

 


Leitura de especialistas é que, mesmo com o afrouxamento monetário, retornos seguem atrativos; pesquisa da Mercer indica manutenção dessa estratégia 

Diante da volatilidade dos cenários interno e externo e de uma taxa de juros em patamar restritivo por um período prolongado, o mercado caminhou para adotar estratégias mais conservadoras. Com as grandes fundações, os fundos de pensão, não foi diferente. Inclusive, o movimento de concentração em renda fixa, especialmente dívida pública, foi ainda mais forte. A visão de especialistas é que a tática faz sentido, no curto prazo, e que alguma mudança no portfólio só ocorra entre o próximo ciclo, 2027, e 2028. 

Segundo pesquisa “Estratégias e Políticas de Investimentos das EFPCs 2026” da Mercer, nos planos BD, por exemplo, 92% das fundações respondentes mantiveram alocação de um percentual de mais de 75% em renda fixa em 2025, enquanto 51% delas não alocaram em renda variável, 49% não alocaram em estruturados, 60% não alocaram em exterior e 68% dizem não ter investido em imobiliário. Cerca de 28% delas alocaram apenas 1% em renda variável, enquanto 15% delas miraram os 6% de alocação. Em estruturados, 36% investiram apenas 1%, e 11% delas miraram 6% de alocação na tese. Na tese de exterior, as alocações de 1% e de 6% do portfólio correspondem à estratégia de 34% e 6% das fundações respondentes, respectivamente. O estudo ainda revelou que a esmagadora maioria das EFPCs participantes pretende manter a estratégia adotada no último ano.

Na avaliação de Devanir Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), o atual nível de concentração em renda fixa decorre, em grande medida, do próprio ambiente de taxas de juros, visto que o mercado tem oferecido remuneração real próxima de 7% ao ano, frente a uma necessidade atuarial média em torno de 4,5%. “O que torna a classe de ativos bastante aderente às necessidades dos planos”, diz, acrescentando que “não vislumbramos riscos relevantes nesse contexto, uma vez que as políticas de investimento incorporam testes de estresse, limites de alocação e métricas robustas de gestão baseada em riscos”.

Os fundos de pensão possuem estratégia e planos de investimento de longo prazo, revisitados de maneira anual. No entanto, “o cenário de médio a longo prazo é feito de vários curtos prazos”, destaca Maurício Martinelli, líder da área de investimentos da Mercer, ponderando que não há como ignorar o atual cenário e definir uma política de 2025 para 2026 sem considerar eleições presidenciais do Brasil, por exemplo, o que gera uma maior cautela.

Embora a concentração seja grande, contrariando recomendações de diversificação do risco, para o presidente da Abrapp, não há tensão entre a visão de longo prazo das fundações e possíveis oportunidades táticas de mercado. “A visão de longo prazo é o eixo estruturante das EFPC, mas isso não impede a identificação e o aproveitamento de oportunidades táticas”, opina. Já para a Mercer, a estratégia deve ser utilizada com parcimônia, porque, ao ser usada como posição estrutural, movimentos de alta podem ser perdidos. “No curto prazo, faz total sentido. Mas, para uma composição de carteira de longo prazo, ficar concentrado em uma classe de ativo tende a ser prejudicial”, diz Tiago Calçada, diretor da área de investimentos da Mercer.

Hoje, cerca de 50% da dívida pública se refere a LFTs, ou seja, títulos pós-fixados, o que evidencia uma incerteza importante em relação à trajetória da dívida, gerando maior alocação em ativos com menos risco. “Por mais que a gente saiba que a diversificação é importante, que o risco e tudo mais, constante, se paga no longo prazo, fato é que as entidades vêm se movimentando para um terreno mais conservador, até mesmo porque o que se paga nesse terreno conservador está muito bom. É sustentável no longo prazo? Não”, diz Martinelli. Ele lembra que a estratégia deve estar de acordo com o perfil de investidor [conservador, moderado ou agressivo], mas que é preciso haver consciência de retrabalhar isso a cada momento. “Não olhar o que deu, e sim a probabilidade de ocorrência futura. Não correr risco também é um risco.”

Segundo os executivos da Mercer, os dirigentes das entidades, em se tratando de perfil único (monoperfil), de uma única carteira ofertada a todos os participantes, há uma diminuição das alocações de risco ao longo dos últimos anos. De modo geral, os dirigentes ficaram mais conservadores, seja porque rentabilizaram os recursos de forma positiva sem correr muito risco, com a Selic alta, seja porque há um cenário de incerteza que sempre paira no ar. Outro movimento apontado é o próprio participante que saiu de perfis mais agressivos.

Tiago Calçada destaca como o principal ponto para os fundos de pensão o fato de estarem historicamente mais alocados do que a média em renda fixa e que, agora, o segmento (RF) acaba sendo um porto seguro para as fundações. Com metas atuariais de inflação mais 5% ou 6%, de maneira geral, hoje, a renda fixa oferece uma alternativa bastante razoável de atingir essa meta sem correr grandes riscos. “Agora, um grande ponto é que isso não é sustentável a longo prazo. Tudo bem querer surfar uma onda mais conservadora nesse momento, dadas ‘N’ razões, como panorama fiscal desafiador, cenário global mais instável, mas não podemos esquecer que, neste momento, a renda fixa paga uma rentabilidade que talvez seja suficiente para entregar a meta atuarial do plano, ou o target, mas ela não vai ser sempre para cima”, pontua.

Embora a pressão pelo desempenho dos fundos de pensão seja grande, resultando em episódios como o ocorrido ano passado, em que o Tribunal de Contas da União (TCU) abriu auditoria para investigar a gestão, investimentos e governança da Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil), motivado por um déficit de R$ 3,16 bilhões no Plano 1 ao final de 2024, o movimento está, segundo os executivos, majoritariamente relacionado ao momento de mercado. Ainda que exista uma expectativa de redução da taxa de juros, atualmente em 15% ao ano, o título público ainda paga taxas reais muito altas. Com isso, as fundações continuam posicionadas para aproveitar ou para se resguardar com essas posições maiores.

Para Calçada, a boa notícia é que as fundações reconhecem essa concentração na renda fixa e sabem que, em algum momento, devem repensar. Já há, inclusive, observação e interesse nesses movimentos, como a valorização da Bolsa este ano, exterior, alternativos e outras classes. “Temos voltado um pouco a ouvir, ainda que não tenha conseguido capturar isso em movimentos reais. Já tem alguma coisa no radar, muito pensando, talvez para o próximo ano ou para o outro, já começar a capturar alguma coisa e reposicionar de novo”, conta.

Na Funcef, por exemplo, nos planos de Benefício Definido (BD), a alocação supera 84% do patrimônio, com a fatia de títulos públicos marcados na curva ultrapassando os 73%. Nos planos de Contribuição Definida (CD), a renda fixa corresponde a aproximadamente 74% da carteira. “Essa composição reflete as características atuariais e o estágio de maturidade dos planos”, diz Fabiano Nogueira, diretor de Investimentos e Participações da entidade, acrescentando que é uma escolha estratégica de longo prazo. “Desde 2022, intensificamos a reestruturação das carteiras dos planos BD, ampliando a alocação em títulos públicos marcados na curva, com foco em imunização do passivo, redução de volatilidade e maior previsibilidade de resultados.”

Para a fundação, a eventual redução da taxa básica de juros não implica em mudança estrutural nas carteiras, mas em um cenário de queda de juros, a Funcef monitora oportunidades em crédito privado, infraestrutura, renda variável e fundos multimercado, especialmente nos planos CD. As carteiras dos planos CD do fundo de pensão possuem investimentos no exterior desde 2023, por exemplo, mas a alocação no segmento é de aproximadamente 4,5%, de acordo com a posição de jan/2026. A fundação não vislumbra mudanças abruptas de portfólio para os próximos anos. “Eventuais ajustes na composição das carteiras ocorrerão de forma gradual e técnica, a depender das condições de mercado e do ambiente de retorno esperado das classes de ativos”, diz Nogueira, apontando não enxergar uma inflexão relevante em 2027 ou 2028.

Para a Petros, o cenário é similar. Com cerca de R$ 150 bilhões sob gestão, para os planos BD, o fundo de pensão tem adotado a chamada estratégia de imunização, que consiste na alocação em ativos de menor risco, notadamente em títulos públicos com vencimento até cinco anos marcados a mercado e com vencimento acima de cinco anos marcados na curva, com taxas superiores às metas atuariais, casando o vencimento desses papéis com o pagamento de benefícios. Em 2025, segundo a prévia do ano, o plano PPSP-R teve rentabilidade prévia de 10,99% e o PPSP-NR de 11,17%, frente a um objetivo de 9,18%.

“Mesmo em um cenário de queda da taxa básica de juros, a estratégia permanece consistente. Isso porque os títulos foram adquiridos a taxas previamente contratadas, garantindo a rentabilidade necessária para o cumprimento das obrigações no longo prazo. Vale ressaltar que o nosso cenário-base projeta a Selic em 12,5% ao final de 2026 e em 10,5% ao final de 2027”, disse a fundação, em resposta à Capital Aberto. Já nos planos mais jovens, ainda em fase de acumulação, como o PP-2, há espaço para maior diversificação, incluindo alocações em renda variável, multimercados, crédito privado, investimento no exterior. Sobre novas alocações de recursos, a “Petros avalia permanentemente suas estratégias e oportunidades de mercado, sempre alinhada às Políticas de Investimentos” e diz manter o olhar atento às transformações estruturais dos mercados.

Fonte: Capital Aberto (04/03/2026)

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