A Nio, terceira maior provedora de banda larga fixa do Brasil, bateu o martelo e vai entrar no mercado de telefonia celular
Formada a partir da Oi Fibra, a empresa passou 2025 trabalhando para se desvencilhar da Oi e criar uma operação com funcionários e sistemas próprios. A reestruturação incluiu a contratação de quase mil funcionários, incluindo garçons e motoristas de Uber treinados para atuar como técnicos de campo, e a constante perda de clientes.
Com a separação concluída em fevereiro e a Oi deixada no retrovisor, a Nio entra em nova fase. Vai oferecer internet para celular a seus clientes. Na mesa do CEO da Nio, Márcio Fabbris, estão as propostas de três fornecedoras de infraestrutura celular. A decisão deve sair até o fim de março. Se a expectativa da empresa for confirmada, o Brasil ganhará uma nova operadora de celular até o fim do primeiro semestre de 2026.
O que rolou?
Antes mesmo de iniciar o desmembramento da Oi, a Nio já avaliava entrar na telefonia móvel. Em análise estava até participar de um leilão da Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações) e arrematar um lote de espectro. Veio o anúncio de um novo certame, e a Nio decidiu por outro caminho:
- A empresa vai trabalhar como "operadora virtual". Chamada de MVNO no jargão da área, quer dizer contratar a infraestrutura de outra empresa para oferecer serviço de celular.
- O que está em jogo agora é qual será a contratada. Sem detalhar os nomes das candidatas, a companhia avalia as propostas feitas tanto por operadoras das próprias redes de celular e quanto por "habilitadoras de redes virtuais", companhias que atuam como "fábricas de MVNOs". No primeiro caso, as expoentes são Claro, Vivo e Tim. No segundo, os exemplos são Surf Telecom, Datora e Vero.
A gente quer empacotar junto com a fibra e lançar um pacote com celular - Márcio Fabbris, CEO da Nio
Fechado o acordo, a empresa vai começar a integrar seus sistemas com o da nova parceira e azeitar a logística para levar chips de celular às regiões onde atua.
Quando for lançado, o serviço de celular da Nio será pós-pago e oferecido a quem já é clientes da banda larga em alguma das 300 cidades onde tem presença.
O preço, admite Fabbris, não será agressivo, até porque a Nio não será dona da rede usada para oferecer o serviço.
A aposta é fortalecer seu portfólio diante da atuação de pequenos provedores de internet e ganhar mercado sobre eles. Não é pouca coisa, já que essas empresas conectam mais de 64% dos 54,4 milhões de pontos de acesso à banda larga fica.
A estratégia de dar um tapa no que já é oferecido começou ainda em 2025, quando a empresa adicionou aos pacotes de internet as assinaturas de streamings como YouTube Premium e incrementou a oferta do Globoplay com Telecine e Premiere.
Quando o celular da Nio estiver na praça, o atendimento será integrado com o da banda larga, incluindo uma fatura só. Condições existentes hoje também serão estendidas ao novo serviço, como a manutenção até 2028 dos preços oferecidos no ato da assinatura do contrato.
Por que isso é importante?
O esfacelamento da Oi ocorreu lentamente. Em 2021, a área de infraestrutura foi vendida e deu origem à V.tal, companhia que pertence a fundos geridos pelo banco BTG. Ela renomeou a marca de data centers para Tecto.
A operação de celular foi pulverizada entre Claro, TIM e Vivo em 2022. Dois anos depois, os serviços de fibra óptica foram vendidos também para a V.tal, como desfecho de um acordo bilionário que sepultou de vez a ex-campeã nacional. Essa última etapa deu origem à Nio, constituída em março de 2025.
Para atender os milhões de clientes herdados da Oi Fibra, a Nio recorria a duas subsidiárias da Oi, a Services (sistemas de TI) e a Serede (serviços de campos). Diante da iminente falência das duas, a nova empresa começou a criar estrutura própria. E de forma acelerada. A toque de caixa, construiu aplicações, plataformas críticas e nova arquitetura. Na mesma velocidade, contratou cerca de mil pessoas. Para atuar como técnicos de redes veio até gente de outras áreas. Alguns ex-vendedores, ex-garçons e ex-motoristas de Uber aprenderam a instalar equipamentos na casa de clientes na prática, acompanhando profissionais mais experientes. Esse, no entanto, não foi o único risco.
A gente decidiu naquele momento ali acelerar. Tomar alguns riscos, inclusive de não testar 100% o que a gente tinha que testar, de não desenvolver tudo que a gente tinha que desenvolver para poder ficar livre desse risco de falência da Oi - Márcio Fabbris, CEO da Nio
Operar com sistemas inacabados, admite Fabris, levou a falhas no atendimento, como confusões no direcionamento de chamados técnicas e filas de até dez dias para instalação na casa de novos clientes. A pressa se justificou. A falência da Oi foi decretada em novembro de 2025 (depois revertida na Justiça) e a da Serede veio em março de 2026.
Esses problemas e a limpeza da base, devido a níveis incomuns de inadimplência permitidas pela Oi, fizeram a Nio perder 634 mil consumidores entre março de 2025 e janeiro de 2026, quando fechou com 3,6 milhões de assinantes. Mesmo com a queda, é a terceira maior provedora do país.
Se o desmembramento da Oi foi concluído em fevereiro deste ano, a sangria de clientes continua, mas diminui mês a mês: 60 mil no último trimestre de 2025, 40 mil em janeiro e 25 mil em fevereiro. Nas contas de Fabris, a curva deve se inverter até o fim do semestre, quando a empresa passará a ver adições à base.
Agora, com a casa arrumada, a entrada no segmento móvel é vista como o motor de crescimento para 2026
Não é assim, mas está quase lá
A Nio, no entanto, dificilmente será uma substituta da Oi em termos de concorrência e alcance. Seus executivos consideram para lá de difícil convencer metade dos clientes de banda larga a aderir ao celular. Mesmo que improvável, se isso acontecer, estamos falando de 1,8 milhão de pessoas. Já seria o suficiente para a empresa virar a sétima maior fornecedora de internet móvel. Ainda assim, não seria nem de longe o que sua antecessora chegou a ser.
Já no fim da vida, a Oi atendia 42 milhões de pessoas. Fora isso, era conhecida pelos preços agressivos —cobrava pelo gigabyte um quinto do valor aplicado pelas concorrentes em São Paulo e 60% do valor das rivais em Recife. Quando a empresa vendeu sua operação, de cara, os clientes da Oi passaram a pagar mais, tão logo foram absorvidos por outras operadoras. Com o tempo, a conta pesou mais para todo mundo.
A chegada de uma nova operadora costuma beneficiar o consumidor, dado o aumento da concorrência resultar em preços mais competitivos. A Nio, porém, não pretende falar ao bolso do consumidor, pois o objetivo é rentabilizar sobre a própria base de clientes já construída. O tempo dirá, mas, se alguém tem expectativas de um efeito sistêmico, melhor tirar o smartphone da chuva.
Fonte: UOL Tilt (27/03/2026)
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