Pesquisa avaliou o desempenho de 207 voluntários ao longo de dois anos; benefícios se mantiveram mesmo após o fim da intervenção
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) publicado em fevereiro na revista International Psychogeriatrics demonstrou que a estimulação cognitiva está associada a uma série de benefícios para pessoas idosas escolarizadas e saudáveis (sem comprometimento cognitivo). Esses exercícios, que envolvem ferramentas como ábaco, jogos de tabuleiro e dinâmicas em grupo, foram eficazes para desenvolver habilidades como foco, memória, atenção e raciocínio lógico, além de melhorar a autoestima.
A estimulação cognitiva já é conhecida como uma intervenção não farmacológica capaz de promover benefícios para o funcionamento cerebral, contribuir para a saúde mental, preservar autonomia e segurança, além de favorecer o envelhecimento saudável. No entanto, até então, havia poucos estudos sobre os efeitos da prática no contexto nacional.
O ensaio clínico acompanhou 207 idosos (a partir dos 60 anos) na capital paulista durante dois anos. Eles foram divididos aleatoriamente em três grupos:
- Um deles realizou, durante aulas em grupo de duas horas semanais, exercícios de estimulação cognitiva do método Supera, empresa educacional que financiou o estudo da USP.
- Os outros dois eram grupos controle: um deles era o passivo (GCP), ou seja, não teve nenhuma intervenção; o outro era o ativo (GCA), em que os participantes tinham 2 horas semanais de aulas em grupo sobre envelhecimento saudável.
Os participantes dos três grupos tiveram seu despenho avaliado durante dois anos por meio de testes cognitivos e de autoavaliação, que foram feitos antes da intervenção, após seis, 12, 18 e 24 meses. A intervenção durou um ano e meio, o que permitiu observar a efetividade ao longo do tempo. Nos últimos seis meses, os pesquisadores avaliaram se os ganhos obtidos foram mantidos após o fim das aulas.
Esse é o primeiro ensaio clínico randomizado de longa duração de um programa de estimulação cognitiva realizado no Brasil com idosos saudáveis, segundo a gerontóloga Thais Bento, autora principal do estudo, pesquisadora e professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP). “Um ensaio clínico com esse nível de robustez é considerado padrão-ouro em pesquisas sobre intervenções em saúde, e os dados publicados evidenciam que o método Supera alcança reconhecimento internacional com credibilidade científica”, diz.
A neurologista Sonia Brucki, professora da USP que conduziu o estudo em conjunto com Thais, também destaca a metodologia do trabalho, especialmente por se tratar de um estudo longitudinal (que avalia os resultados no longo prazo) e por usar diferentes grupos para que seja possível comparar a eficácia real dos exercícios.
Após os 18 meses de intervenção, o grupo que realizou a estimulação cognitiva apresentou:
- melhora de quase 10% em testes de cognição global (contra 0,8% no GCA e 0,0% no GCP);
- melhora de 11% em testes de funções executivas (contra 1,6% no GCA e 2,3% no GCP);
- melhora de 24,3% em testes de memória (contra 4,5% no GCA e 1,5% no GRP);
- melhora de 58,3% na autoavaliação cognitiva, ou seja, percepção do participante sobre redução de queixas de memória e cognição (contra 41,8% no GCA e 30,2% no GCP);
- melhora de 11,6% em testes de flexibilidade mental e processamento semântico, ou seja, o tempo que o indivíduo leva para perceber, interpretar e responder a informações do ambiente (contra quase 5% no GCA e no GCP).
O resultado que mais surpreendeu Sonia foi a melhora na memória. Isso porque “muitos dos treinos cognitivos acabam favorecendo mais a atenção, as funções executivas e a velocidade de processamento” do que a memória, que, quando é testada, frequentemente não apresenta grandes diferenças, diz a coordenadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP.
Outro destaque é que o avanço foi percebido pelos próprios participantes. Isso é relevante porque antes do diagnóstico de declínio cognitivo (como ocorre no Alzheimer e em outras demências), é comum que idosos comecem a apresentar queixas de memória como sintoma inicial.
“Pessoas que reclamam muito da memória declinam mais rápido do que aquelas que têm uma percepção positiva”, explica Thais. Estudos de longo prazo indicam que, em dez anos, muitas dessas pessoas desenvolvem comprometimento cognitivo leve (CCL) ou doença de Alzheimer inicial, diz a gerontóloga.
“Quando a gente consegue mudar essa percepção (do idoso sobre a sua memória e capacidade cognitiva), ajuda a pessoa a criar mais estratégias compensatórias. E o recurso que nós temos é a estimulação cognitiva", acrescenta Thais. Para isso, é importante que a pessoa sempre seja desafiada.
Contudo, diferentemente de outras funções, a capacidade relacionada à memória recente é mais difícil de ser “recuperada” em idosos. Em casos em que já há algum grau de declínio cognitivo, o foco passa a ser evitar que a memória continue piorando e reduzir as dificuldades diárias por meio de estratégias compensatórias. Nos treinos de estimulação cognitiva, é preciso adaptar os exercícios porque é possível que a pessoa não consiga avançar para etapas mais desafiadoras.
Proteção contra a depressão
O estudo da USP também demonstrou que, para além dos avanços na cognição, a estimulação cognitiva gerou benefícios no humor e na qualidade de vida dos idosos.
- A redução de queixas de depressão geriátrica aos 18 meses foi de 26,7% (contra quase 10% no GCA e 4,5% no GCP).
- Já o ganho de qualidade de vida percebido pelos idosos foi de 6,5% no grupo de intervenção, levemente superado pelo grupo controle ativo, que teve alta de 7,4% (contra 3,2% do grupo controle passivo).
Parte desses benefícios se deve à interação social promovida tanto no grupo de intervenção quanto no grupo controle ativo, dizem as pesquisadoras. Os idosos se encontravam presencialmente toda semana durante duas horas. Muitas vezes, o convívio saia da sala de aula, conta Thais. A motivação de estar em grupo é um diferencial importante da estimulação presencial em relação a jogos individuais e aplicativos usados individualmente em casa.
O grupo controle ativo foi criado justamente para que fosse possível “isolar” os ganhos advindos da realização da estimulação cognitiva daqueles provenientes somente da interação social, já que tanto o grupo de intervenção quanto o controle ativo se reuniam semanalmente. A redução de sintomas depressivos teve uma diferença significativa entre os dois grupos, com vantagem para aquele que realizou o método Supera. Já os ganhos de qualidade de vida foram semelhantes em ambos.
Isso permite inferir que, enquanto a estimulação cognitiva tem um efeito extra no humor (redução da depressão) dos participantes, a melhora da qualidade de vida (controle, autonomia, autorrealização e prazer) tem maior relação com o impacto gerado pela interação social.
“Todas as vezes que a gente tem interação social, você tem uma melhora do humor. A socialização é muito boa para qualquer pessoa, principalmente para os idosos”, diz Sonia. “E não só pela socialização, mas pelo fato de a pessoa se sentir melhor também”.
Avaliar esses aspectos é importante porque a solidão e a depressão também são fatores de risco para demência e Alzheimer. “Pessoas deprimidas têm uma menor neurogênese, ou seja, não têm tanto crescimento neuronal em determinadas áreas do cérebro”, explica a neurologista. Além disso, solidão e depressão diminuem o nível de atividade da pessoa e reduzem a qualidade do sono, o que afeta a atenção.
Por isso, os resultados do estudo são favoráveis para estabelecer a relação de que a estimulação cognitiva é uma forma eficaz de prevenir demência, diz a professora da USP. “A estimulação cognitiva é sempre boa em qualquer idade e serve como preventivo de doença de Alzheimer”, afirma.
Os resultados encontrados no estudo da USP vão ao encontro do que já existe na literatura internacional e confirmam que a estimulação cognitiva - que, segundo Thais, é uma prática já consolidada em outros países - é eficaz para manter habilidades preservadas, melhorar o humor e oferecer ferramentas para que o cérebro compense as mudanças naturais da idade, diz a gerontóloga.
Agora, o grupo de pesquisa do Departamento de Gerontologia da USP pretende realizar um estudo testando a eficácia desses exercícios em idosos com baixa escolaridade, porque boa parte da população idosa no País apresenta poucos anos de estudo formal. A hipótese é que esse grupo deve se beneficiar ainda mais da estimulação cognitiva.
Resultados após o término da estimulação
Para avaliar se os efeitos da estimulação cognitiva se mantinham, os idosos dos três grupos passaram por uma última avaliação aos 24 meses do estudo, seis meses após a última intervenção.
Os resultados mostram que, no geral, os benefícios desse tipo de intervenção continuam sendo sentidos mesmo após o término das atividades.
Em maior ou menor grau, os testes mostraram pontuações melhores no período de follow-up no grupo de intervenção (que realizou a estimulação cognitiva) do que nos outros dois grupos controle.
A exceção, novamente, foi o resultado na qualidade de vida, em que os benefícios foram similares entre os idosos que realizaram os exercícios e o grupo controle ativo (aqueles que tiveram aulas sobre envelhecimento saudável). O achado reforça a ideia de que, para melhorar a qualidade de vida dos idosos, o importante é que eles se reúnam presencialmente em aulas em grupo, independentemente do tipo de atividade realizada.
Fonte: Estadão (18/03/2026)
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