segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Previdência Privada: Solicitação de benefícios com conversão de renda mensal estão se acelerando em planos VGBL e PGBL



Com novas regras e juro real elevado, procura por benefício cresce nas seguradoras

A conversão de recursos acumulados na previdência privada em renda mensal começa a ganhar força no país, à medida que a primeira geração que investiu de forma mais disseminada em fundos abertos a partir do início dos anos 2000 se aproxima da aposentadoria. Dados de algumas das maiores instituições do setor mostram forte crescimento em 2025 no número de pessoas que optaram por receber o benefício após o período de aportes e no volume de recursos pagos. Além do amadurecimento do mercado, seguradoras apontam como estímulos as mudanças regulatórias adotadas em 2024 que tornaram os produtos mais flexíveis, os juros reais elevados e a percepção crescente de que a previdência pública não será suficiente para manter o padrão de vida depois da saída do mercado de trabalho. O mercado de previdência aberta reúne R$ 1,9 trilhão. 

“Foi uma combinação que gerou uma onda quase perfeita para o crescimento do mercado de rendas no Brasil”, resume Amâncio Paladino, diretor da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi). A mudança representa, portanto, um novo momento para um mercado que, na maior parte do tempo, esteve concentrado na acumulação de patrimônio. “É a previdência privada virando previdência finalmente, depois de quase 30 anos”, afirma Rogério Calabria, superintendente de Produtos de Investimento do Itaú Unibanco. 

Na Icatu Seguros, o número de conversões em renda atingiu recorde histórico em 2025, com alta de 47% em relação ao ano anterior. A companhia tem atualmente cerca de R$ 1 bilhão em reservas convertidas em renda e registrou crescimento de 77% nesse estoque entre 2021 e 2025. “Com o produto mais maduro e mais informação, é natural que as pessoas comecem a contratar mais renda”, diz Luciano Soares, CEO da Icatu. “E a tendência é que continue crescendo nos próximos anos.” Ele cita, como base de comparação, o avanço nos EUA, onde no ano passado atingiram cerca de US$ 461 bilhões em conversão de renda, mais que o dobro do total de US$ 219 bilhões em 2020. 

No Itaú, foram convertidos R$ 500 milhões em renda no ano passado, volume 65% acima de 2024 e, neste ano, já foram pagos R$ 300 milhões em renda mensal. O saldo das provisões constituídas para o pagamento de benefícios de renda cresceu 144% entre 2021 e 2025. Atualmente, cerca de 8 mil clientes da instituição recebem renda, com aproximadamente R$ 5 bilhões em provisões. 

Na Bradesco Vida e Previdência, o crescimento no ano passado ficou abaixo de 10% em relação a 2024. Em volume, a conversão chegou a R$ 1,583 bilhão. Mas Estevão Scripilliti, diretor da companhia, explica que a empresa tem percebido o aumento, por isso, criou uma plataforma com profissionais dedicados ao tema e passou a procurar os clientes três meses antes da data prevista de aposentadoria para discutir alternativas de uso do dinheiro. Para ele, “tão importante quanto acumular um patrimônio adequado é fazer uma desacumulação organizada”. 

O novo marco regulatório da previdência aberta, aprovado em 2024, passou a prever a oferta da opção de renda vitalícia nos novos produtos abrangidos pelas regras e permitiu que a taxa de juros utilizada no cálculo do benefício seja definida no momento da conversão. Até então, essa escolha era feita décadas antes, quando o plano era contratado. Segundo Paladino, isso criou uma “arena competitiva”: o cliente pode comparar as condições de cada seguradora e, inclusive, fazer portabilidade dos recursos antes da aposentadoria para contratar renda onde encontrar condições mais vantajosas. 

É a previdência privada virando previdência finalmente, depois de quase 30 anos” — Rogério Calabria 

O diretor da FenaPrevi comenta que o cenário de juros reais elevados tornou a conversão em renda mais atraente. A taxa de juros contratada entra no cálculo do benefício e permite uma parcela inicial maior. Assim, uma renda calculada com juro real de 6% ao ano, por exemplo, parte de um valor mais alto do que uma calculada com juro real zero. Depois da concessão, o benefício é corrigido pela inflação, de acordo com as condições contratadas. A taxa acertada fica garantida durante o período contratado, ainda que as condições de mercado mudem posteriormente. “Quando vamos ter uma outra janela igual à de hoje, não sabemos, por isso esse momento é relevante. E aí você acaba tendo uma parte das pessoas que fariam resgates periódicos de seus fundos acumulados optando por converter em renda.” 

Na renda vitalícia, a seguradora se compromete a pagar enquanto a pessoa viver, num cálculo atuarial. Na modalidade vitalícia simples, o valor mensal tende a ser maior, mas o pagamento termina com a morte do participante e não é transferido aos beneficiários. Na renda por prazo certo, o cliente determina um período e o patrimônio convertido é usado para calcular uma renda mensal durante esse prazo. Se morrer antes de terminar o prazo, a renda continua sendo paga aos beneficiários indicados pelo período restante. Essa possibilidade reduz uma das resistências históricas à modalidade: a percepção de que o cliente precisaria entregar todo o patrimônio à seguradora e perder os recursos em caso de morte precoce. 

Há outras variações, escolhidas conforme o desejo do investidor, mas a alternativa que vem ganhando espaço, explica Paladino, é a que transforma apenas uma parcela do fundo acumulado em renda suficiente para cobrir despesas recorrentes - como plano de saúde, condomínio, medicamentos e outros gastos - e mantém o restante disponível para emergências, investimentos ou sucessão. “Não é todo o recurso acumulado na previdência que vai ser utilizado para fazer a conversão em renda. A parcela excedente, ele vai continuar investindo e, em casos de imprevisto, vai resgatar, porque a vida nos reserva muitas surpresas”, alerta. 

De acordo com Scripilliti, a renda por prazo certo reduz muito o risco do pagamento da renda vitalícia, que, afirma, paralisou a indústria. “As seguradoras não queriam risco vitalício, o cliente achava que o que você pagava de renda mensal era muito baixo, enquanto ele tinha acumulado, e ninguém queria fazer nada. O mercado ficou um pouco paralisado por alguns anos. Agora as condições estão voltando a ficar mais equânimes. Essa conversa está ficando um pouquinho mais organizada.” Ele lembra que a constituição dos planos antigos originais “era meio tudo ou nada.” 

Calabria, do Itaú, ressalta que é uma conversa que requer bastante atenção para que os clientes entendam exatamente o que está acontecendo. “É um processo flexível, em que a gente vende uma solução. Essa linha de precificação dinâmica de rendas é uma linha de negócio que tem crescido muito”, diz. No banco, cerca de 70% das concessões são hoje feitas por prazo certo e 30% são vitalícias. Já na Icatu, 54% dos clientes optam por renda por prazo certo, 33% por renda temporária (a renda cessa e não fica para o beneficiário em caso de morte) e 13% pela vitalícia. 

Foi uma combinação que gerou uma onda quase perfeita para o crescimento do mercado de rendas” — Amâncio Paladino 

O perfil de quem já chegou a essa fase é semelhante nas duas companhias. Na Icatu, a idade média é de 60 anos e 62,8% dos clientes são homens; no Itaú, a média é de 59 anos e os homens representam 65%. A Icatu tem maior concentração em PGBL, responsável por 83,4% dos clientes em fase de renda, enquanto no Itaú a distribuição é mais equilibrada, com 54% em PGBL e 41% em VGBL, além de uma parcela residual de planos tradicionais. No Itaú, o valor médio de aposentadoria pago nos planos PGBL é de R$ 5 mil, “uma complementação de aposentadoria mesmo”, diz Calabria. No VGBL, a aposentadoria sobe a R$ 10 mil. O executivo afirma que o perfil é de renda mais alta, de empresários ou profissionais autônomos. 

Já na Icatu, a média no PGBL é de R$ 3,9 mil e no VGBL, R$ 5,2 mil. Na Icatu, são mais de seis modalidades de renda, explica Henrique Diniz, diretor de produtos de previdência. 

Simulação da Icatu a pedido do Valor mostra que, para um investidor de 60 anos que tenha acumulado R$ 2 milhões e decida converter metade desse patrimônio em benefício vitalício, considerando juros anuais de 5%, a renda mensal ficaria em torno de R$ 6.106,67 por mês para um homem e de R$ 5.588,03 para uma mulher no primeiro ano (os valores consideram as diferenças de expectativa de vida e são brutos de Imposto de Renda). Se ele decidisse converter esse R$ 1 milhão em renda pelo prazo certo de 20 anos e com os mesmos juros de 5%, receberia no primeiro ano R$ 6.538,36 por mês, sem diferenciação de gênero. 

Diniz lembra que o aumento da longevidade é um desafio para os governos, porque pressiona a previdência, e que cada vez mais a importância da previdência privada estará em discussão. “A contratação privada minimiza o risco do custo da longevidade”, avalia. Scripilliti, da Bradesco, frisa que o mercado de rendas avançou, mas ainda é uma fração do que pode ser. “Essa ficha está caindo. É claro que não é do dia para a noite, é um processo gradual e contínuo, mas essa geração que está chegando aos 60, 65 anos está se confrontando com essa realidade”, comenta. 

Mas, para ele, é o mercado do futuro. “Até porque não tem para onde a gente correr. A restrição fiscal e de previdência pública está dada. É daqui para uma renda cada vez mais básica que o INSS pode pagar”, conclui.

Fonte: Valor (21/08/2026)

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