terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Planos de Saúde: Quase 60% dos brasileiros já deixaram de usar o plano de saúde por causa do custo




Pesquisa mostra os desafios do setor e aponta que benefício é diferencial para atrair e reter talentos

A oferta de plano de saúde é uma realidade em muitas empresas brasileiras. O uso desse benefício, no entanto, aponta alguns desafios, como mostra o Relatório Global sobre Saúde Corporativa de 2026 da Howden, corretora global especializada em seguros de alta complexidade. Foram ouvidos 442 empregadores, sendo 27 no Brasil, e 1.460 funcionários de empresas. 

Um exemplo disso é que 54,2% dos entrevistados globalmente e 59,2% no Brasil afirmaram que os custos (com coparticipação, por exemplo) já os impediram de obter assistência médica quando precisaram. A coparticipação vem crescendo nos planos de saúde corporativos no Brasil. 

"Para buscar maior controle de utilização e viabilizar a sustentabilidade do segmento, as operadoras de saúde precisaram disponibilizar para as empresas clientes outras formas de controle, e sem dúvida, o aumento dos contratos com coparticipação é reflexo disso", afirma Cláudia Machado, vice-presidente de benefícios da Howden Brasil. "Além disso, nos últimos anos, o mercado de saúde privada investiu muito no controle de fraudes, implementando mecanismos de checagem e controle para pagamentos de reembolso, códigos de uso único para liberação de atendimento na rede credenciada, biometria facial, entre tantos outros. Tudo isso faz com que o paciente tenha que assumir parte do custo do seu tratamento. A chave aqui é o equilíbrio. Todas essas medidas são necessárias e importantes, mas a dose do remédio não pode se transformar no veneno." 

Esse cenário, em que as pessoas deixam de cuidar da saúde por conta dos custos, traz prejuízos para os profissionais e também para as organizações. "Os custos [desse cenário] são altos", diz Machado. "Envolvem afastamentos temporários ou definitivos, absenteísmo, presenteísmo, e principalmente, queda de performance. Somam-se a isso os custos de treinamento e substituição do time. Ou seja, a fuga ao tratamento pode ser menos onerosa no curtíssimo prazo, mas sem dúvida carrega consequências financeiras relevantes. 

Segundo o relatório, 93% dos empregadores ouvidos globalmente esperam que o custo dos benefícios de saúde aumente novamente em 2026. 

Saúde Mental

Outro dado que requer atenção é em relação ao cuidado com a saúde mental. Segundo o relatório, 49% dos funcionários globalmente procuraram assistência em saúde mental no último ano, mas 16% afirmaram não se sentir à vontade para usar serviços oferecidos por seus empregadores por preocupações com privacidade e impacto na carreira. 

Para Machado, os principais receios dos funcionários estão na estigmatização do problema. "Infelizmente, a experiência com nossos clientes comprova a realidade dos dados. Saúde mental é um tema complexo, que envolve questões pessoais e profissionais, e o receio da exposição e uma retaliação ou prejuízo na carreira acabam levando algumas situações ao limite, e agravam os prejuízos", comenta Machado, pontuando que "o custo desse silêncio é alto". 

A executiva menciona que, só em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por saúde mental, o segundo maior número da série histórica do Ministério da Previdência. Os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e, somados, já formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna. 

"A expectativa de como será o retorno ao trabalho [após um afastamento por saúde mental] também é um ponto. Se o retorno ao trabalho após uma cirurgia ortopédica pode ser complicado, o retorno após um afastamento por burnout pode ter impactos mais difíceis de serem geridos: os colegas temem aproximar-se e serem invasivos, a liderança não sabe como cobrar e receia uma acusação de assédio, os liderados temem uma reação desproporcional, e a empresa teme uma crise reputacional. Prato feito para problemas sérios de performance." 

Apesar dos desafios, 79,9% da amostra global de funcionários relatam estar confortáveis ou muito confortáveis com as alternativas de tratamento oferecidas por seus empregadores. No Brasil, esse índice é de 92,6%. 

Atração e retenção de talentos 

O plano de saúde segue sendo um elemento importante para atrair e reter talentos. De acordo com o relatório, para 55% dos respondentes globalmente e 78% no Brasil ter um bom plano de saúde atrai mais talentos. E para 74% dos respondentes globalmente e 78% no Brasil, ter um bom plano de saúde é essencial para a retenção de talentos. "No Brasil, estar empregado representa um diferencial importante no acesso a saúde", pontua Machado. 

Outro dado indica que 60% (global) e 63% (Brasil) afirmam que tendem a permanecer mais tempo em uma empresa que oferece um bom pacote de assistência médica. 

Também segundo a pesquisa, 63% globalmente e 80% no Brasil dizem que ter um bom plano de saúde aumenta significativamente a produtividade. "A dificuldade de acesso à saúde pública, que apresenta tempo alto de espera para atendimento, faz com que funcionários atendidos por bons planos de saúde tenham menos absenteísmo, presenteísmo e se tratem com mais assertividade", conclui Machado.

Fonte: Valor (20/02/2026)

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